Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

A dança da vida

Era um dia cheio de sol e cores em que todos os mais diversos aromas se misturavam. A mosca, num voo estonteante, não sabia exactamente para onde dirigia. Limitava-se a seguir o rasto desses variados cheiros sem se decidir por qual haveria de optar. E andava à deriva limitando-se a seguir o cheiro mais forte captado pelas suas narinas. Sentia-se feliz. O dia estava bonito, a Primavera desabrochara e o ar era um cruzamento dos mais variados sons, todos reveladores da intensa e tenra vida acabada de despontar. Sentia a alma renovada, transbordante de uma alegria incontida. E nesse rodopio de sons, ruídos e cheiros, deixava-se levar embalada pelo ar morno da estação.  Adorava voar livremente, cruzando outros insectos que lhe deitavam um ar reprovador.

- Vê lá se vês por onde andas! – resmungou um moscardo com quem quase acabara de chocar.

Mas a mosca continuava a esvoaçar desenhando perigosas figuras aéreas e acrobáticas, desviando-se sempre dos obstáculos no momento próximo da colisão.

- Livra, esta foi por pouco! – murmurava incrédulo o aranhão de altas, curvas e finas pernas, empoleirado numa árvore, quando a viu evitar o ramo grosso e contorcido, encolhendo-se a um canto do ramo ao mesmo tempo que apontava os olhos para o frágil corpo escuro. – Onde irá com tanta pressa?

Mas a mosca, ignorando os contratempos, continuava a apreciar aqueles momentos luminosos e mornos. Abria as asas e um alegre zunido prolongado arrastava-se no ar leve. Nada a fazia mais feliz do que aqueles momentos de liberdade absoluta. Uma tranquilidade perpassava o seu ser e parecia ligada a todos os seres que a rodeavam. Deixou escapar um longo zumbido de prazer. Era como se fosse um prolongamento da paisagem que a rodeava. Se isto era a felicidade, então poderia admitir que era feliz. Sobrevoou um riacho estreito, de regurgitante água transparente e fresca que reflectia as ervas e as flores coloridas. Poisou numa flor próxima da água e observou-se. Era uma bela mosca! A sua cor negra, com tonalidades metálicas azuis-esverdeadas, reflectia orgulhosamente a luz. As suas asas transparentes e fortes, juntamente com as suas pernas elegantes levavam-na até onde a sua imaginação, aliada à sua vontade, exigia. Era feliz! Não lhe faltava nada! Era livre, forte e alimentava-se do que a natureza lhe dava. Sacudiu as patas dianteiras em sinal de satisfação. Lambeu a humidade da haste esverdeada, agrupada numa minúscula gota que reflectia, de forma distorcida, as flores mais próximas. Saciou-se, bateu rapidamente as asas, olhou em redor e lançou-se no ar, na habitual e exótica dança ziguezagueante. Nada a fazia mais feliz!

Subitamente, um cheiro gorduroso, misturado com um fumo branco, distraiu-a daquela sensação de plenitude que a alimentava. Deu meia volta e, quase sem dar por isso, estava na peugada do cheiro. De olhos fechados, deixou-se levar, embalada pela aragem morna. Entrou num quintal de muros altos e caiados. Poisou, cautelosamente, na protectora sombra dos beirados, assustada com o que avistava. Preocupada, olhou a paisagem infinita e imóvel por trás do muro coroado por um arame farpado. O seu instinto apontava-lhe o horizonte ondulado mas uma estranha curiosidade, aguçada pelos sentidos, manteve-a no lugar. Apontou os seus olhos redondos para o quintal, esquadrinhando-o por várias vezes. A sua atenção e os seus sentidos estavam a absorver toda a informação possível naquele espaço exíguo. Uma sensação de claustrofobia invadiu-a acordando os seus sentidos e incendiando uma sensação estranha semelhante à experimentada quando o perigo, ainda invisível, espreitava. Vozes, risos e gritos cruzavam-se no ar. Os mais pequenos corriam atrás de uma aventura imaginária, os adultos atarefavam-se em volta de uma mesa comprida. A um canto, desviado das rotas das crianças, um grelhador lançava no ar um fumo gorduroso que lhe aguçava o apetite. O que seria aquele cheiro em tudo diferente ao que já experimentara? E se fosse dar uma vista de olhos? A prudência aconselhava-a a permanecer no local protegido pela sombra. Não existia melhor esconderijo naquele espaço pequeno tão sobrepovoado de seres. Mas a curiosidade suplantou a cautela e, num exímio voo, alcançou o apetecido alvo. O fumo quente e branco, que de longe se assemelhava a um nevoeiro, desnorteou-a. Os olhos suportaram o ardor e as asas quase se incendiaram. Como se não bastasse, um objecto duro, agitado no ar incendiado, criou uma corrente de ar desviando-a do local abrasivo. Pregou-se à parede mais próxima, com a qual praticamente chocou, tossindo e limpando a cortina de água dos olhos turvos. O que se passaria ali? Mas a sua ideia não se afastou do cobiçado alvo. O aroma, que se desprendia numa dança amorosa de fumo, continuava a atiçar-lhe os sentidos. Salivava como um guloso cão esfomeado. Que cheiro seria aquele? Tinha de chegar àquela massa, de aspecto apetitoso, e provar o ambicionado petisco. E embora tudo, naquele local, lhe indicava que o deveria abandonar quanto antes, nada a demoveu do seu intuito. Quando o homem gordo, dotado de um proeminente abdómen, tapado por uma leve camisola de algodão branco, atento protector da escaldante comida, se afastou do negro grelhador, tentou uma rápida aproximação. Em vão! As brasas revestiam o carvão, alimentadas pela gordura da comida. Voltou ao seu poiso. Virou-se para o grelhador e tomando uma acertada decisão: iria esperar pelo momento certo. E este seria o momento em que as chamas moribundas iriam tornar possível uma aproximação mais segura. O seu medo era, nessa altura, que fosse demasiado tarde. A preciosa gordura, perdida no calor das brasas, se tivesse cristalizado ou evaporado, o que tornaria a sua tarefa muito mais difícil ou mesmo impossível. Parou a observar. Os humanos estavam sentados à mesa e travessas passavam de mão em mão à medida que os pratos se enchiam. Por que não se lembrara disso há mais tempo? Aqueles seres paravam, de talheres no ar, conversando alegremente… Talvez fosse o momento ideal para tentar a sua sorte! Despegou-se da parede morna e esvoaçou pela mesa, lançando um longo zumbido. Longe de se sentirem amedrontadas, as pessoas erguiam as mãos, libertas daqueles estranhos objectos com que se alimentavam, e agitavam-se, ameaçadoras e ágeis, no ar aquecido, pelos brilhantes raios do sol. Regressou ao seu poiso inicial, na sombra do beiral, com o coração a bater descompassadamente. Quase a apanhavam! Um sentimento estranho pedia-lhe que abandonasse aquele perigoso local e regressasse à sua vida anterior, despreocupada e livre! Mas nunca fora mosca de desistir facilmente das suas ideias. E, depois, aquela comida despertara em si uma inultrapassável curiosidade. Teria de experimentar! Não se poderia ir embora sem o fazer! Seria perseguida por um interminável sentimento de fracasso! Não, resolveu, não sairia dali sem experimentar aquela iguaria! Os olhos pregados nas sobras dos pratos, o olfacto apurado, as patas tremendo de desejo de poisar naquele delicioso odor… Tentaria uma outra vez! E num voo rasante, desceu até juntos dos pratos onde os espaços lembravam clareiras numa floresta. Alguns seres já tinham trocado a mesa por outros poisos, onde descansavam os corpos, retirados do calor. Estranho! Eles nem sequer tinham usado as suas asas estranhas, como é que poderiam descansar? Outras pessoas iam e vinham e, nesse tempo, ela descia gulosamente até às sobras de comida, abandonadas no prato. A sua língua roçou a deliciosa gordura. Adorou o sabor! Preparava-se para atacar a comida quando uma mão retirou o prato apressadamente, deixando-a atordoada! Felizmente, tinha uns reflexos apurados! Voltou ao seu poiso, o coração a bater descompassadamente. Não poderia continuar assim!, reflectiu, Embora gostasse da vida arriscada, não queria continuá-la, pelo menos, em troca de um pedaço de comida! Havia também abundantes alimentos variados nos vastos campos e que davam para todos. Uma onda de saudade varreu-a. Não, decidiu, aquele sítio não era para ela! Iria ao encontro da sua vida segura e despreocupada, nos locais habituais onde havia lugar para todos! Na sua curta vida, não queria percalços, sobretudo os criados por si. Já lhe bastava os que tinha de enfrentar nas suas acrobacias aéreas e com os quais já estava familiarizada. Iniciou o caminho de regresso, mas, por um qualquer motivo desconhecido, não conseguia reencontrar o caminho! O que se passava consigo? Nunca tal lhe acontecera! O olfacto, demasiado ocupado com os cheiros criados pelos humanos, não conseguia reencontrar a direcção certa. Tentou vezes sem conta. Inútil! Cansada e tomada de um pânico que fazia estremecer, deixou-se ficar parada durante uns segundos, tentando perceber o que se passava. Parecia que tinha ficado presa nas malhas invisíveis de uma rede de odores humanos. Por muito que voasse, nada a fazia encontrar o caminho da liberdade. Se soubesse que iria ser assim, nunca entraria numa aventura daquelas. Parecia-lhe ter entrado num labirinto aéreo, de onde não fazia ideia de como poderia sair. Começou a recriminar-se por tal imprudência. A sua sensatez pôs, contudo, cobro esse estado de espírito. Estava já suficientemente atrapalhada para perder tempo com revoltas. Teria de se concentrar na descoberta da saída daquele local pequeno e sobrepovoado. Deu mais umas voltas desesperadas, tentando descobrir o trilho que a levaria de regresso aos campos. Sempre afastada por mãos impacientes, que a sacudiam de um lado para o outro, ela tentou todos os buracos que encontrou. Mas cada um parecia mergulhá-la num espaço cada vez mais pequeno e mais fechado de onde fazia cada vez menos ideia da maneira como poderia sair. Sentia as temperaturas diferentes, a luz tornava-se mais clara ou mais escura, mas os indícios da saída estavam cada vez mais longínquos. Naquele momento, não fazia a mínima ideia de onde se encontrava. O espaço apertara-se inexplicavelmente à sua volta e a luz parecia ter perdido o seu brilho, não passando de uma pálida manifestação de si própria. Poisou na parede branca, para avaliar a situação. Onde se encontraria? Tomou a resolução de não se mexer até ter uma ideia exacta do caminho que a levaria para fora daquele pesadelo. Sempre que a claridade se manifestava, ela tentava passar de encontro a ela. Mas, por qualquer motivo que lhe escapava, a sua intenção saía sempre gorada. O desânimo ameaçava tomar conta do seu ser. Todas as suas tentativas saíam frustradas? E pensara que conseguiria sair sempre de qualquer apuro? Ria-se amargamente de si! Que ingénua fora!

Não sabe quanto tempo esteve ali prisioneira. O seu tempo era dedicado ao sonho. E sonhava com os imensos campos luminosos, cobertos de um tapete fino e macio, das árvores cobertas de folhas albergando uma grande variedade de asas. Bem mais espertas do que ela!, pensava amargamente, não estavam naquela situação. Para cúmulo da sua desventura, uma mão começou a persegui-la, tentando que enveredasse por uma direcção que lhe escapava. Sempre que poisava para descansar as suas asas e o seu peito havia um objecto espalmado que tentava acertar no seu minúsculo corpo luzidio. E, nos intervalos destas perseguições, sempre que tentava chegar a qualquer peça de comida, era logo violentamente enxotada. Perdera peso e o seu corpo diminuíra o brilho natural. O que iria fazer? Pensou em deixar de lutar. Bastava deixar-se atingir por aquele objecto de plástico rendado, para que a sua infelicidade terminasse. Mas uma voz dentro dela não a deixava desistir. Mesmo no limite das suas forças continuava sempre a lutar por uma saída. Andava de divisão para divisão, procurando o passaporte para a liberdade, quando, subitamente, viu o ar livre. Seguiu aquela visão num voo de esperança. Era ali! Estava ali a sua saída! Cansada e enfraquecida, tentou voar até àquela luz que se agitava diante dos seus olhos. Era só mais um esforço. Dos seus olhos caíam lágrimas de alegria e esperança. Seria possível? Estava quase a conseguir, quando o seu corpo chocou contra um invisível obstáculo. Mas o que estava a acontecer? Via a luz e os campos amados tão perto e, no entanto, uma força invisível parecia agarrá-la impedindo-a de abraçar a luz e a paisagem amadas. Observou a luz que caía lentamente. Daí a pouco a noite desceria para cobrir a planície. Talvez aquela fosse a última visão tida dos seus amados campos. Mas seria a melhor! A sua boca exibiu um sorriso ambíguo. Tão e tão longe e tão perto. Deixou-se escorregar pelo obstáculo de um fino rendilhado deixando escorregar as patas ajudadas pelas desanimadas asas. Sentiu o corpo cair pesadamente. Chegara ao fundo do precipício. Não tinha forças para mais. Chegara ao fundo de si própria. Deixou-se ficar ali, de olhos fechados, sem forças anímicas para tomar qualquer atitude. Não sabe quanto tempo permaneceu assim. Até que uma pequena corrente de ar lhe bateu no pequeno focinho despertando-a daquele vazio onde tinha caído. Abriu os olhos. De onde vinha aquele ar que se escoava livremente? Examinou o local à sua volta apontando os olhos para todas as direcções. Entre o obstáculo invisível e o seu chão havia uma pequena passagem. Era uma rede, compreendia naquele momento, aquele objecto fino que impedia os insectos de entrar mas também, e por ironia, os impedia de sair. Já ouvira outras moscas falar delas! Pôs-se de pé num instante. Seria possível? Já se enganara tantas vezes! Esgueirou o corpo por entre o espaço liberto. Conseguira! O quintal estava livre! Não se via ninguém! Estudou calmamente o espaço. Sem ruídos, sem cheiros, sem membros agitando-se violenta e rapidamente, seria fácil encontrar o caminho do regresso aos campos. Meio cega e surda, e com o corpo debilitado reuniu as forças num último esforço e ensaiou um voo. Ainda não conseguira! Mas a esperança era mais forte do que nunca. Parou na parede, junto do beiral. Dali, conseguia orientar-se. Fez mais um esforço e ultrapassou o arame farpado, enferrujado pela acção das intempéries. E, diante de si, os campos estendiam-se tendo o horizonte como limite! Ali, já não se perdia. Só teria de encontrar o alimento que lhe tinha sido negado enquanto permanecera entre os humanos. E não seria difícil.

 

01 Dezembro de 10

Fátima Nascimento

publicado por fatimanascimento às 14:25
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Sábado, 24 de Abril de 2010

Uma história de vida

Era uma vez um homem cuja vida andava sempre num inferno. Aplaudido e seguido por uns, perseguido e difamado por outros, a sua vida parecia um carrossel desenhando rodas cada vez mais rápidas. Os amigos e seguidores, percebendo o perigo, por sensatez ou por medo, mantinham-se na sombra. Com os perseguidores e detractores acontecia o mesmo: havia os que lhe apontavam o dedo, sem medo, apoiados por um oceano de rostos desconhecidos. Embora tivesse muitos apoiantes, estes nunca davam a cara por si e, quando chegava o momento de enfrentar os opositores, olhava à sua volta e não via ninguém. Poderiam pensar como ele, mas jamais admitiriam isso em público. Esta situação trazia sempre consequências imprevisíveis mas sempre nefastas. O medo imperava. Só ele se mantinha de pé enfrentando o enfurecido perante o enfurecido temporal.

Nas reuniões secretas, mais do que ideias discutiam-se, muitas vezes, atitudes. Muitos contentavam-se com as reuniões secretas não querendo expor-se na praça pública e não compreendiam a necessidade do colega. Tinham de ser cautelosos! Recriminavam então o homem que se expunha de forma tão temerária e receavam pela sua segurança e a dele.

Um dia, após um inflamado discurso às pessoas da sua cidade, realizado na praça onde se juntavam rostos curiosos e interessados, debaixo das réstias de um céu azul manchado de um doirado incandescente que lentamente cedia lugar à noite clara de estrelas, saltou do banco largo e comprido, agarrando-o com a mão esquerda e, preparando-se para regressar a casa para a tão desejada ceia, foi interpelado por pessoas que, tendo bebido sofregamente as suas palavras, pediam esclarecimentos. Amavelmente satisfez-lhes a sua curiosidade enquanto pensava cansado:

- Por este andar nunca mais chego a casa!

Ao longe, os soldados seguiam aborrecidos as suas divagações do velho. Ele era nem mais nem menos o único obstáculo que os mantinha ainda afastados das famílias. Tinham instruções claras no sentido de serem os ouvidos e os olhos do senhor da cidade. Ainda jovens, não se interessando por mais nada do que raparigas e o soldo mensal, as palavras convictamente pronunciadas, nada lhes diziam. O duque, a quem tinha sido confiada a cidade, não se sentia nada confortável com tais ideias, tão diferentes daquelas que servia. Era um homem forte e perverso dado aos mais dissolutos hábitos, não se preocupando com mais nada. Os súbditos pagavam-lhe na mesma moeda e iam fazendo a sua vida fechando os olhos aos excessos do senhor. Pagavam pesados impostos, sempre sujeitos aos caprichos do amo, da forma como podiam e afastavam-se do seu caminho, sempre que podiam e como podiam evitando um encontro que adivinhavam nefasto. Se eram surpreendidos pelo galope desenfreado de cavalos, limitavam-se a atirar-se para o lado, desviando-se como ervas chicoteadas pelo vendaval.

Era como se não existissem! E os cidadãos agradeciam a sua indiferença. Tentavam também eles passar despercebidos aos olhos e ouvidos do temperamental senhor! Sempre que se passeava pela cidade ou pelos arredores, as famílias escondiam apressadamente as filhas em casa evitando os olhos cobiçadores do nobre senhor. Ninguém se sentia seguro na sua presença e, quando eram chamados à sua presença, tremiam de medo, adivinhando as exigências do caprichoso senhor. Mesmo os seus mais directos colaboradores, limitavam o seu tempo, na sua presença, reduzindo as conversas aos temas puramente administrativos escapando-se logo que podiam. Só restavam os fiéis companheiros que partilhavam a sua vida dissoluta.

Ora, nessa noite, o idoso, após o discurso seguido dos esclarecimentos, seguia para casa pelo caminho habitual, no seu passo largo, espiando o movimento dos soldados, viu, com espanto e alívio, que se afastavam apressadamente para apresentarem o seu relatório ao nobre. Subitamente, um destacamento de seis soldados caminhavam na sua direcção os lhos postos em si. Sentiu o corpo gelar. Era agora! Tão depressa como surgira, o pequeno grupo desviou-se bruscamente noutra direcção. Agarrou-se à parede mais próxima enquanto um enorme abalo tomava conta de todo o seu corpo! Olhou por cima do ombro vendo os passos apressados e ligeiros afastarem-se. Olhou à sua volta, as ruas estavam silenciosas com a aproximação do manto fresco da noite, e nada nelas revelava fosse o que fosse de invulgar, a não ser a passagem furtiva de algum animal vadio, que o pudesse preocupar, pelo que prosseguiu descansadamente até casa. Vivia numa casa, bem perto do centro da cidade num edifício igual a muitos outros pertencentes ao seu estrato social. Era um estudioso e um pensador, os seus conterrâneos viam nele um sonhador honrado, sensato e bom sendo sempre procurado e escutado nos mais vários problemas que lhe eram colocados.

Antes de entrar em casa, rodou a cabeça à procura de possíveis olhos furtivos. Nada a assinalar. A casa mergulhada na penumbra exibia uma frescura contrastante ao calor daquela época. Na sala confortavelmente mobilada, encontravam-se todos os seres que lhe eram queridos: a mulher, as três filhas e os genros. Todos o esperavam ansiosamente para iniciarem a refeição. Da cozinha, desprendia-se um odor a comida que lhe estimulava ainda mais o apetite. Dirigiu-se à sala de braços estendidos agradado com as presenças já anunciadas. Todas as suas filhas tinham casado com nobres de cidades vizinhas. Homens justos e honrados que tratava orgulhosamente por genros! Estavam seguras! Para além do amor encontrado, estavam igualmente protegidas pela fortuna e o poder das famílias dos maridos. Era um dos factores com que contava e que o traziam descansado, embora soubesse que não havia fronteiras para a maldade do seu senhor. Tivera a sorte de dispensar a sua companhia dada a sua fama de sonhador e pensador. O seu senhor rodeava-se de pessoas práticas. Aborreciam-no pessoas como ele. Nem lhes ligava importância alguma, tratando-os como se fossem loucos. O elemento do clero da sua corte começava a inquietar-se com as palavras do velho e, sempre que era recebido em audiência, por entre outros assuntos, não deixava de referir-se ao velho que começava a tornar-se perigoso. E olhando ao casamento das filhas com nobre influentes de outras regiões, torna-o um perigo ainda maior. Era sua obrigação avisar. Invariavelmente as suas palavras eram recebidas com desprezo. Não desperdiçava o seu tempo com loucos. Tinha outros assuntos mais interessantes e mais urgentes do que esse. Os cortesãos que o acompanhavam riam-se das preocupações do clérigo que conheciam desde novos. Ninguém lhe ligava importância! Ora nem tanto assim, pois era uma pessoa muito procurada e respeitada na cidade. Afastou-se satisfeito ao ver uma centelha de desconfiança e insegurança nos olhos do nobre. Cumprira a sua missão. Tão dissoluto quanto os outros, começava a preocupar-se com a sua imagem. Temia, de alguma forma, represálias que os pudessem apanhar.

O senhor já não conseguia divertir-se como nos outros dias. Para que é que fora dar ouvidos àquele infame? Qual era o medo dele? Não estava devidamente protegido dentro das muralhas da cidade? Não lhe dera já provas concretas da sua amizade? Que queria ele mais? A cabeça de um velho louco? Se era assim tão influente, seria insensato mexer com ele. Aí, é que teria complicações sérias! Resolveu deitar o assunto para trás das costas. Ainda por cima, um dos seus genros era primo seu, já não sabia em que grau! Não gostava dele nem ele o apreciava. Eram totalmente diferentes para se entenderem. Nem em pequenos, quando esporadicamente se encontravam, se compreendiam, ambos cientes que os separava um abismo entre os respectivos caracteres. Conhecia demasiado bem a honra, a justiça e a coragem do primo para alguma vez o desafiar ou atentar contra algum membro da sua família. Se os outros fossem como ele, estaria perdido! Teria uma nação inteira contra ele! Depois, e fazendo jus ao seu carácter, pensou como lhe teriam escapado as sua belas filhas… Um mistério!

No confortável salão da casa do excelente orador, a conversa desenvolvia-se alegre e distendidamente. Divertiam-se todos juntos. Só depois da refeições e deixando as senhoras entregues aos seus assuntos, se reuniram na vasta biblioteca, que servia ao mesmo tempo de escritório, acompanhados de um licor aromático. Sentaram-se nas poltronas em redor da pequena mesa redonda e falaram das suas respectivas cidades e dos problemas administrativos resultantes da crise atravessada pela nação. Subitamente, e depois de todos os assuntos preocupantes terem sido abordados, e numa cumplicidade que os unia, os jovens perguntaram-lhe ser sensato expor-se daquela forma, conhecendo a estirpe do governante. O velhote, ao qual não passara despercebido aquele gesto cúmplice, sorriu pacificamente. Com certeza que conhecia os riscos que corria, era por isso que lhes queria falar da esposa. Se não se importariam de a receber. Ela ficaria contente por estar perto das filhas de quem sentia tanta saudade. E atacou o assunto:

- Claro que conheço o temperamento do meu senhor. Conheço-o demasiado, embora me tenha cruzado duas ou três vezes com ele. Mas, já passara demasiado tempo de cabeça baixa permitindo que abusos fossem cometidos sem que nada dissesse. Estava na altura de modificar o curso dos acontecimentos. Valia mais viver um minuto com a cabeça a prémio do que toda a vida que levara de cabeça baixa, receando pela segurança da sua família. Não. Chegava. A revolta e a sua dignidade falavam agora mais alto do que a sensatez. Era por isso que lhes pedia que o ajudassem com a esposa.

Percebendo que nada mais poderiam dizer que o demovesse e como pensavam como ele, acataram o seu pedido desejando-lhe as melhores felicidades no seu empreendimento e ofereceram-lhe todo o apoio que necessitasse. As mãos estreitaram-se e os olhos encontraram-se numa solidariedade onde não eram necessárias palavras. Partiriam no dia seguinte, levando a sogra com eles. Passaria temporadas em casa de todas as filhas, dando tempo ao sogro de levar a cabo o seu objectivo.

Os dias seguiram-se apreensivos. A tensão aumentava na cidade. O volumoso governante sentia os olhos na grande nação postos em si. As ameaças pareciam pairar no ar. A insegurança tomou conta dele e dos seus companheiros, conscientes das vidas depravadas e do ódio que as suas pessoas inspiravam dados os crimes que insensatamente cometeram. A solução encontrada foi a sua participação na cruzada ao médio oriente que partiria dali a uma semana. Fugiu na sua cruzada contra os supostos infiéis na tentativa de que a glória ali encontrada nos seus feitos no campo de batalha, lhe pudesse lavar a honra manchada. Tal como adivinhava, não deixava saudades nem mesmo na mulher que nunca amara nem nos filhos que sempre desprezara no favorecimento da sua vida dissoluta. Não voltaram. A partir daquela altura, um conselho formado por pessoas honradas passou estar à frente do destino da cidade. Respeitavam todas as pessoas que a serviam e procuravam educar o filho mais velho, ainda menor que o volumoso nobre deixara para trás, para que a sua sucessão tivesse uma direcção mais digna.

 

publicado por fatimanascimento às 07:44
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