Sábado, 10 de Abril de 2010

O estigma da beleza

Há muitos, muitos anos, vivia numa pequena aldeia um rapaz muito, muito feio a quem nenhuma rapariga queria para casamento. Reuniam-se no largo em alegres magotes nas serenas tardes luminosas dos vagarosos verões domingueiros cochichando e olhando cobiçosamente para o grupo de rapazes agrupados no outro lado daquele espaço. Espalhados em pequenos grupos encontravam-se os mais velhos conversando animadamente entre eles aparentemente alheios ao que se passava à sua volta, sentados com as abas dos chapéus escuros puxados para os olhos, enquanto as mulheres puxavam comodamente os lenços vistosos para as testas que cobriam os cabelos atados num rolo entrançado apertado na nuca. O céu recortado por fios esticados, de onde pendiam alegres e coloridos papéis elegantemente recortados, presos às casas que se agrupavam à volta do indiferente pelourinho esguio que desafiava heroicamente o enfurecido sol, que emprestava às faces um colorido inusual. Tudo parecia estar a postos para o desejado baile. Era neles que os rapazes e as moças casadoiros estreitavam ligações com os desejados pares.

Estava o largo neste efervescente entusiasmo, quando o rapaz feio apareceu calmamente no largo olhando em redor. Acercou-se ao grupo dos rapazes que trocavam conversas deitando ousadamente olhares para o grupo feminino. Foi alegremente cumprimentado e imediatamente esquecido pelo interesse que se direccionava para o outro lado do largo de onde se esgueiravam outros olhares discretos mas atentos esperando cruzarem-se com os dos eleitos ou estudando a direcção para descobrirem a fonte do seu interesse.

À semelhança dos seus pares, o rapaz feio estudou o quadro que se desenrolava à sua frente. Tudo correspondia ao esperado. E já estava determinado a desistir quando um ser esguio entrou no seu campo de visão. Era a rapariga dos seus sonhos. Ao contrário do esperado, não se reuniu às outras companheiras, mantendo-se teimosamente à margem, olhando na direcção do aglomerado masculino. Ficou intrigado. Que se passava? Há quanto tempo estaria ali? Teria acabado de chegar? Se assim fosse, estava explicado o afastamento. Era uma das mais belas raparigas que lhe fora dado o prazer de encontrar. Era tão bela quanto inatingível. Pelo menos para si! Via-a conversar com outros rapazes e raparigas da aldeia sem nunca parecer interessar-se por algum. Dir-se-ia esperar pelo seu príncipe encantado. Sempre a julgara destinada a grandes voos, os mesmos que a natureza lhe retirara. Todos os rapazes pareciam estar enamorados dela, mas nunca se atreviam a aproximar-se como se a sua formosura fosse uma vedação alta que mantinha afastados os pretendentes. Não havia na sua atitude, contudo, nenhuma vaidade capaz de justificar aquele efeito no sexo contrário. Nenhum parecia vê-la com os seus olhos. E era estranho! Nunca percebera a razão mas também nunca se dera ao trabalho de interrogar fosse quem fosse, com medo de desvendar o segredo que tinha tão zelosamente guardado em si. A sua atitude era invulgar. Deu por si a caminhar na sua direcção. Os colegas nem haviam escutado a desculpas pela sua ausência tal era o entusiasmo suscitado pela presença das raparigas que, ainda há relativamente pouco tempo, pareciam estar irremediavelmente separados. Ainda se lembrava de como se odiavam mutuamente! Nem importava se nos grupos haviam irmãos e irmãs. Nas brincadeiras não importavam os laços de sangue! Interessava o género. Eles intervinham nas suas brincadeiras ridicularizando-as e para as perturbar rindo-se aparentemente indiferentes aos protestos e aos furiosos empurrões desencadeados pelos seus atrevimentos. Muitas vezes, aos apelos das filhas acorriam as mães para ralharem com os desagradáveis moços! As tensões diminuíam nos dois grupos mas a desconfiança mantinha-se intacta enquanto eles mantivessem nas proximidades com receio de futuras investidas. Ao perceber desde sempre a diferença marcante entre si e os amigos, ele tentara sempre impor-se de forma diferente da dos colegas. Tornava-se no apaziguador e no conselheiro numa tentativa de impedir ou cortar as brincadeiras que incorriam no desagrado das meninas. Nem sempre lhe davam ouvidos. De tempos a tempos, vira-se no meio de contendas ácidas que ele se via aflito para solucionar, terminando estas quase invariavelmente com a presença de um adulto que fazia o papel de juiz nas desavenças dos miúdos. Aí, ele tornava-se o advogado de defesa ou acusação dos envolvidos superando, pela sua imparcialidade e inteligência os testemunhos parciais de ambos os grupos. Maria das Dores era a que mais se impunha aos rapazes que se mantinham afastados dela. Crescera em graça e beleza sendo admirada na sua aldeia e nas da vizinhança. Até o sangue nobre parecia atraído por tanta candura! E não era difícil ver jovens montados nos seus cavalos perdendo-se em grupo ou em solitário por aquelas bandas. Muitas vezes experimentara aproximar-se quase involuntariamente dela ou ficava observando de longe aquele interesse que se arrastava pelos campos quase em jeito de corte. Por último, tinha descoberto um fidalgo das redondezas que alargava os seus passeios diários por aqueles campos distantes, olhando demoradamente o corpo elegante que se movimentava dobrado à tarefa dos campos. Não lhe era difícil imaginar vê-lo a rondar de forma a descobrir os hábitos da rapariga. Parecia um lobo esfomeado! Como não pensara nisso antes? Dando atenção à reputação dele, todo o cuidado seria pouco! Apressou o passo à medida que este pensamento se insinuava na sua mente. Mais do que uma ideia era um pressentimento. Não percebia era como nunca mais ligara ao assunto! Como se fora esquecer dele daquela maneira? Mas tudo poderia não passar de imaginação sua! Só lhe restava uma solução – perceber o que acontecera. Forçou a memória. Não tinha ouvido falar de nada. Nem mesmo aos rapazes. Se tivesse acontecido algo, já se saberia. O mais certo era tudo não passar de imaginação sua! Poderia estar simplesmente enamorada e buscar um pouco de sossego. Mas não combinava com ela aquela atitude. Havia algo de errado! Ela era naturalmente alegre e espontânea.

Ao aproximar-se dela, afastou aqueles pensamentos que tanto o perturbavam. Parou junto do olhar ausente da moça. Não era fácil colocar-se junto dela, uma vez que se encontrava relativamente afastada do grupo mais próximo, onde lhe chegavam restos de conversas agarradas pelo vento. Sobressaltou-se ao sentir uma mão poisar cautelosamente no seu ombro. A sua atenção desviou-se do ponto invisível que a parecia absorver para se arrastar lentamente, como se acordasse de um sonho, para o indesejado perturbador. Os lábios alongaram-se num sorriso afectuoso ao reconhecerem o terno rosto feio que lhe avançava algumas frases. Abanou a cabeça de um lado para o outro da primeira vez que foi interpelada e afirmativamente da segunda. Começaram a afastar-se do largo para onde alguns passos apressados se dirigiam soltando um cumprimento passageiro. Gostava de conversar com aquele jovem que sempre fora tão respeitoso para com ela ultrapassando os galanteios, por vezes inconvenientes, de certos cavalheiros que se cruzavam com ela. Sobretudo os desconhecidos. Os da terra, dada a proximidade dos laços que unia a povoação, raramente se prestavam a esses jogos que, quando aconteciam, não passavam o patamar da brincadeira. Ela até lhes respondia com igual sentido de humor. De resto, a amizade que unia os jovens era forte. Afinal, haviam crescido lado a lado. Conheciam-se desde sempre e tinham irmãos mais novos ou mais velhos da mesma geração.

Os seus passos afastaram-se do largo. Ninguém parecia dar pela sua falta. À sua frente os raios solares começavam a desenhar uma curvatura cada vez mais baixa, que culminaria dali a algumas horas no seu desaparecimento por trás dos montes que rodeavam a pequena aldeia aninhada no vale profundo. Meteram-se pelos caminhos de terra ladeados por muros de pedra escura. A conversa desenvolvia-se naturalmente entre eles. Ele fazia uso do seu sentido de humor ao qual ela não resistia. Em vão. Nessa tarde, nada parecia exercer qualquer efeito sobre ela. Embora se mostrasse alegre e desprendida, o rapaz feio percebia que algo a preocupava. Mas o quê? Não era impressão sua. Conhecia-a bem de mais. Nunca se interessara tanto por uma rapariga como por ela pelo que a conhecia bem.

A determinada altura, fez notar que percebia na sua atitude que havia qualquer coisa que a perturbava. Ficou calado à espera de resposta. Como ela tardasse ou nem mesmo já a esperasse, estacou o passo e voltou-se para a encarar. Ela parara ainda antes dele. Ergueu-lhe docemente o rosto pegando-lhe com dois dedos no frágil queixo. Os seus olhos rasos de lágrimas ameaçavam explodir numa forte emoção a qualquer momento. Sentou-a num rochedo liso e enorme que se encontrava na bifurcação do caminho. Ajoelhou-se diante dela e esperou enquanto lhe estendia um lenço. Ela sorriu por entre as lágrimas que deslizavam agora dos imensos olhos pelas faces magras e aveludadas. Respeitou a emoção da amiga esperando que acalmasse para que ela pudesse finalmente começar a falar. A tristeza esvaziava os seus olhos e a sua alma. Foi então que começou a contar o que lhe acontecera havia duas semanas. O rapaz feio fechava o punho de indignação e revolta. Lentamente, a culpa foi-se insinuando no seu espírito. Era culpado do que acontecera à amiga que amava tão ternamente. Finalmente, ela terminou o discurso entrecortado pelos soluços quando passara à parte que mais a magoava. Também ela se sentia culpada pelo que havia acontecido. Como tinha sido tão parva? Como não desconfiara de nada? Ele não se aguentou mais. Contou-lhe que a culpa era só dele. Dera pela ronda mas nunca pensara que o atrevido fidalgo se atrevesse a tanto! Ele reparou que o tinha deixado de ver a partir de determinada altura. Pensara que tivesse encontrado outro motivo de cobiça longe da aldeia. Enganara-se rotundamente. O seu aparente desinteresse devia-se a ter levado a avante os seus maliciosos planos. Nem mesmo a imagem da bela cara do fidalgo toda arranhada o fazia sorrir. Gostaria de ter ouvido as desculpas que dera em casa. Os tojos devem ter aguentado com as culpas. O aparecimento súbito de um animal feroz, o susto do cavalo que se empina, e as plantas espinhosas mesmo ao lado. Abanou a cabeça desgostoso. Ela não queria falar aos pais ou aos irmãos. Tinha medo do que pudesse acontecer. Ele assentiu. Mas não poderia desistir de ser feliz. Ela olhou-o com uma careta que revelava toda a incredulidade que lhe enchia a alma. Ele fora arrebatado pelo sentimento que o dominava. Quem a queria? Ora, ele não se importaria nada de experimentar a vida ao seu lado! Olhou-o de soslaio. Era tonto! Arruinar a sua vida para ficar com ela e com o possível fruto daquela única mas consumada relação? Ele confirmou a sua ideia com a cabeça. Ele estava a falar a sério não estava? Olhou-o incrédula. Percebera tudo! Há quanto tempo tinha esse sentimento por ela? Desde que se lembrava! Não exactamente quando começara a gostar da amiga! Ela levou a mão à boca perdida em pensamentos. Ele estava disposto a tudo por ela! Abanou a cabeça. Não ia deixar que fizesse isso? Porquê? Ele era bom de mais?! Não somente a amava. Nada mais! Ela fitou-o finalmente e viu toda a ternura nos seus olhos. Se não gostava dele? Sempre achara que ele a achava uma tonta! Nunca pensou que alguma vez pudesse olhar para ela com outro sentimento que o da simples amizade! Como se enganar! Confessou-lhe então que sempre o apreciara e que ao tentar captar a sua atenção dera com o seu rosto fechado ou com uma simples resposta cheia de humor que a fazia rir mas que parecia afastá-la dele. Sorriram. Como tinham andado enganados aquele tempo todo! Fora preciso uma desgraça para que eles tivessem a liberdade e a frontalidade necessárias para falarem sem receios dos seus sentimentos.

- Sabes, às vezes a beleza pode ser um peso que acarretamos às costas a vida inteira! – volveu tristemente ela. –principalmente de pois de vermos certos homens a olhar para nós de uma certa maneira… - parou à procura da palavra certa – cobiça misturada com uma obsessão medonha!

- Pois… mas depende das pessoas com quem temos a sorte ou o azar de nos cruzarmos! – rematou ele. – Só isso!

Não valia a pena falar mais disso. O que lhe acontecera, poderia ter acontecido a qualquer outra rapariga. Aliás, a fama dele precedia-o! Ela não o conhecia! Não sabia quem ele era. Depois, a abordagem havia sido inofensiva. Os rapazes já o conheciam mas era só conversa entre eles. Nada mais. Não tinham visto necessidade em contar fosse a quem fosse. Parecia-lhes inofensivo. Agora, se ele voltasse, o que ele duvidava, perceberia ou fá-lo-iam perceber que ela tinha dono. Se isso queria dizer que nunca mais se separariam? Claro que sim. Mas dependeria do entorno… acrescentou com um largo sorriso.

Sorriram. Não havia nuvens no seu horizonte. O céu claro mostrava-lhes o caminho das suas vidas. Eles limitar-se-iam a segui-lo.

 

publicado por fatimanascimento às 20:59
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Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2008

O rapaz pobre

O vento forte pontapeava violentamente as folhas do jornal, que executavam verdadeiras acrobacias no ar. Uma delas chocou violentamente com a esguia figura triste de um rapaz, sentado em cima de um grosso tronco de árvore, completamente alheio ao que o rodeava. Afastou distraidamente a folha, que se manteve colada às suas pernas pela força do ar. Completamente alheado ao que se passava à sua volta, o rapaz jazia imerso nos seus pensamentos. Não era a sua roupa gasta ou o estômago vazio que o atormentavam. Já se habituara a isso. Também não era a solidão a que se votara, devido à incompreensão dos que o rodeavam. Não queria seguir o caminho dos outros, queria encontrar o seu. Começara por se aliar aos companheiros de brincadeiras, em busca da atenção, do apoio e do carinho que não só conhecera enquanto a mãe fora viva. Gostava de jogar à bola com os vizinhos da sua rua, verdadeiros craques da bola, mas que não encaixavam na sua maneira de pensar, sentir e agir. Eles já se haviam dado conta disso mesmo, pelo que não o aborreciam muito. A escola também não era uma grande ajuda. Sempre fora muito distraído e gostara pouco estudar para além do ambiente conflituoso da casa não lho permitir. Mal sabia ler e escrever, embora dominasse perfeitamente as contas simples. Como a folha continuasse a debater-se violentamente contra as suas pernas, o rapaz apanhou-a. Acariciou a folha com os seus tristes olhos castanhos. A fúria da natureza não se comparava minimamente com a guerra que se desenrolava no seu íntimo. O sofrimento estivera sempre presente na sua vida, acompanhando-o desde criança. A raiva desencadeava a revolta, que o levava a rebelar-se contra as imensas situações injustas que experimentara desde sempre e que o faziam fugir e bater com a porta, procurando ambientes mais leves, proporcionados pela vasta natureza que circundava o bairro onde vivia. Dava longos passeios, alheio aos olhares desconfiados, aos passos apressados e à multidão que o contornava, sem reparar nele, e contra a qual chocava ocasionalmente. Ansiava por locais isolados, longe da presença humana. O seu local favorito era a praia. Era ali que atirava a revolta à fúria das ondas, gritando a sua angústia e desespero, e, já mais calmo, procurava a paz que o terreno baldio, ainda despejado de cimento e betão, lhe proporcionava. No seu coração, habitualmente doce, a serenidade regressava algum tempo depois. Não tinha um local que pudesse considerar seu, uma vez que em nenhum encontrava um ambiente favorável, que lhe pudesse dar a segurança, a paz e o carinho que nunca conhecera, e sempre desejara. Estava saturado de injustas palavras duras, tentando inculcar na sua frágil alma defeitos que ele não possuía e ignorando os sentimentos que ele mais necessitava. O apoio encontrara-o sempre na figura esguia e encarquilhada do velho pescador que havia sucumbido à avançada idade. Nada mais lhe restava. Sentia-se desamparado. Não sabia como havia de continuar sem o seu carinho, o seu apoio e a sua amizade. Recordava ainda aquelas tardes quentes de verão, quando o encontrava debaixo da velha árvore, de cachimbo na boca, olhando esforçadamente o jornal amachucado, onde tentava progredir na leitura, juntando esforçadamente as sílabas, e tentando descortinar a manhosa palavra, que resistia à incursão do seu leitor. Ele sempre lhe realçara a necessidade de aprender a ler e a escrever, que encontrara na leitura ocasional do jornal, sempre atrasado no tempo, que lhe levava o filho que trabalhava num dos hotéis da cidade, um refúgio para as suas horas vazias. O ancião sempre realçara a importância da leitura, mesmo quando estava triste ou revoltado com a vida, sempre encontrando nela o refúgio necessário e querido. Ela conduzira-o, irresistivelmente, para mundos desconhecidos e belos, despertando nele sentimentos e ideias que, até ali, ele ignorara. Durante as horas que passava a ler, ele esquecia-se dos seus problemas. O rapaz olhara-o de soslaio, lançando depois um olhar avaliador àquelas folhas desconjuntadas de letra miudinha, que carregavam o mundo dentro delas. Como seria isso possível se os jornais traziam apenas a dor e os problemas do mundo ou falavam de assuntos tão específicos, com umas palavras tão difíceis e desconhecidas que o faziam desistir logo de seguida? Não, aquela não era leitura para ele. Partilhou o raciocínio com o velho ancião, em cujas mãos as largas folhas se agitavam como bandeiras ao vento, devido ao tremor do seu corpo. O velhote concordou com ele. Mas mostrou-lhe uma secção diferente das outras, que ele descobrira, havia pouco tempo, naquele jornal, onde todas as semanas, vinha uma estória publicada, que ele lia sofregamente e cuja continuação ele esperava todas as semanas. Mostrou-lhe o nome do jornal, que se destacava pela largura, o tamanho e a cor das suas letras, contrastando violentamente com as outras. O rapaz olhou desinteressadamente, registando o nome apenas na sua memória visual. Amava aquele ansião que descobrira um dia na praia, estando ele alvoroçado e acabrunhado como lhe sucedia frequentemente. O velhote, observador sensível, esperara o momento oportuno para entabular conversa. Começara com uma observação inteligente sobre o mar, que o fizera desviar a atenção das águas. Sentira-se atraído por aquela personagem que irradiava paz e calor. Entre conversas e ajudas, a amizade fora-se consolidando com o tempo. Desenvolvera-se entre eles uma confiança e um carinho como só duas almas isoladas e autênticas conseguem verdadeiramente atingir. Cada um trouxera algo ao outro. Agora, tudo terminara. Chegara um dia a sua casa a tempo de o ver sair, de maca, coberto pelo seu pijama de riscas azuis, a mão deformada pelo tempo, caída para fora do improvisado leito, parecia acenar num derradeiro adeus, indiferente ao rosto inexpressivo e ausente. Os adultos mal haviam dado conta do seu choque, dada a pressa com que agiam. Fora a última vez que o vira. A partir daí, a sua alma faminta, alimentava-se da recordação desses dias passados juntos, onde aprendera a aliviar a sua alma carregada.

  O rapaz voltou a folha que se agitava violentamente na sua mão. Procurou uma posição mais cómoda, onde o vento não lhe tentasse arrancar o jornal. Após várias tentativas, levantou-se e procurou outro local mais abrigado. Encontrou o esperado abrigo na curva da colina. Olhou com atenção a página. A sua memória visual ajudou-o a reconhecer o nome do periódico, só que em tamanho mais pequeno, sem qualquer destaque. A sua atenção redobrou quando se sentiu familiarizado com ele. Voltou a página. O seu olhar deparou com a secção preferida do querido ancião. O rapaz sentiu as lágrimas turvarem-lhe a vista. Sentiu uma onda de ternura percorrer a sua alma. Sentiu o aconchego na presença daquela folha que uma mão invisível transportara até ele. Começou a ler, esforçando-se à semelhança do seu velho amigo, por ligar as sílabas, voltando ao início da frase para poder ler já mais facilmente e descobrir o seu sentido. A magia das palavras encheu-lhe a alma. Sentiu-se transportado para um mundo mágico, onde a fantasia o fazia esquecer a sua rude vida diária. Esqueceu-se do tempo, mas para quem não tem para onde ir, o tempo não fazia qualquer diferença. A estória era curta o que o deixou desconcertado. Como descobriria agora o fim? Olhou para a data, mas não lhe valeu de muito. Ele não sabia o dia do mês. Teria de procurar ajuda. Levantou-se e caminhou contra o vento, na direcção do único restaurante onde encontrava jornais amontoados. Assim que entrou, dirigiu-se ao balcão perguntando qual era o dia do mês em que estavam. O homem, surpreendido, mostrou-lhe o mês e o dia no calendário enorme que cobria a parede de azulejo branco. O rapaz olhou atentamente e comparou com a do jornal. Pelas suas contas, aquele jornal era dessa semana. Alguém o deve ter lido e colocado nos recipientes de ferro, colados ao chão, de onde o vento o arrancara. Mostrou-o ao simpático senhor, que confirmou as suas suspeitas. Onde podia arranjar outro mais antigo? O senhor indicou-lhe um volumoso monte de jornais que jazia a um canto. Ao ver a sua indecisão, o senhor estimulou-o com um simpático “Vai lá!”, sorrindo-lhe curioso. O adolescente dirigiu-se a ele e começou afastá-los, até chegar àquele cuja data antecipava o exemplar que tinha na mão. Procurou a secção e começou a ler. Pelo desenho das letras, adivinhava-se que o título era o mesmo, e com um bocado de sorte seria o início da narrativa que tanto apreciara. Começou a juntar as sílabas naquele esforço já familiar, procurando sofregamente aquele ambiente de que já sentia saudades. A leitura avançava com a mesma dificuldade de sempre, fazendo-o regressar ao início de cada frase para saborear o sentido. Às vezes, demorava-se mais numa expressão ou noutra procurando deslindar o que o autor quereria dizer com ela. E como havia expressões bonitas! O rapaz deixava-se impregnar por aquele mundo fantástico, agradecendo, do fundo do coração, ao seu amigo que lhe ensinara o valor da leitura. Agora, só tinha de acompanhar a narrativa até ao final, ansiando pelo seu fim.

  O dono do bar-restaurante olhava-o com redobrada curiosidade. Oriundo de uma família com dificuldades financeiras e ambiente hostil, ele havia lutado muito para chegar até ali. Bom apreciador da natureza humana, ele gostara logo daquele jovem. Enquanto limpava os copos e os conduzia ao seu lugar, em cima de uma prateleira de madeira, com a boca virada para baixo, ele acompanhava o interesse do rapaz. A delicadeza com que tocara nos jornais, já gastos de tanta mão indiferente, mostrara-lhe que se tratava de um rapaz especial. Deixou-o ficar, não se importando com os clientes que entravam e saíam indicando-o com o queixo ou com a cabeça. O dono respondia simplesmente que se tratava de um jovem amigo. A partir dali, habituar-se-iam a vê-lo com regularidade, sempre de nariz enfiado nas letras escuras do jornal. O dono convidara-o a ler o jornal, que lhe oferecia, passada a semana. Se havia de ir para o lixo, ficava para ele, comentara alegremente. Sempre seria mais útil, confidenciara-lhe, e adivinhando que ele não teria local para o ler, convidou-o a visitá-lo todas as semanas. Aquele já ele poderia levar. Era uma oferta., sentenciou dirigindo-se aos jornais impecavelmente arrumados, e escolhendo aquele que ele estivera a ler. Com este já deveria ter a estória quase completa, não? Passou a vista pela secção visitada e depois por aquela que estava na mão do rapaz, concluindo que ele estava com sorte. Piscou-lhe o olho em sinal de cumplicidade. Podes vir quando quiseres. O rapaz agradeceu e arrastou os pés até casa, com os dois exemplares na mão. Não sabia bem porquê mas não sentia já tanta relutância em voltar a casa. Nem o seu quarto lhe parecia aquele local vazio só preenchido pelos gritos de raiva e a pancada do pai. Ele tinha algo que ninguém lhe poderia alguma vez tirar – as suas recordações e o mundo mágico imaginário da leitura – que lhe preenchiam a alma. Tal dissera o seu grande amigo, também a voz da leitura era amiga e ensinava. E havia que ter sempre atenção a isso. Como é que ele saberia? Ora, lendo a mensagem que cada estória contém e sentindo-a no seu coração. Eram essas mensagens que se traduziriam no homem que ele um dia se tornaria.

 

 

Fátima Nascimento 26/12/2008

 

publicado por fatimanascimento às 13:24
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