Sábado, 10 de Abril de 2010

O estigma da beleza

Há muitos, muitos anos, vivia numa pequena aldeia um rapaz muito, muito feio a quem nenhuma rapariga queria para casamento. Reuniam-se no largo em alegres magotes nas serenas tardes luminosas dos vagarosos verões domingueiros cochichando e olhando cobiçosamente para o grupo de rapazes agrupados no outro lado daquele espaço. Espalhados em pequenos grupos encontravam-se os mais velhos conversando animadamente entre eles aparentemente alheios ao que se passava à sua volta, sentados com as abas dos chapéus escuros puxados para os olhos, enquanto as mulheres puxavam comodamente os lenços vistosos para as testas que cobriam os cabelos atados num rolo entrançado apertado na nuca. O céu recortado por fios esticados, de onde pendiam alegres e coloridos papéis elegantemente recortados, presos às casas que se agrupavam à volta do indiferente pelourinho esguio que desafiava heroicamente o enfurecido sol, que emprestava às faces um colorido inusual. Tudo parecia estar a postos para o desejado baile. Era neles que os rapazes e as moças casadoiros estreitavam ligações com os desejados pares.

Estava o largo neste efervescente entusiasmo, quando o rapaz feio apareceu calmamente no largo olhando em redor. Acercou-se ao grupo dos rapazes que trocavam conversas deitando ousadamente olhares para o grupo feminino. Foi alegremente cumprimentado e imediatamente esquecido pelo interesse que se direccionava para o outro lado do largo de onde se esgueiravam outros olhares discretos mas atentos esperando cruzarem-se com os dos eleitos ou estudando a direcção para descobrirem a fonte do seu interesse.

À semelhança dos seus pares, o rapaz feio estudou o quadro que se desenrolava à sua frente. Tudo correspondia ao esperado. E já estava determinado a desistir quando um ser esguio entrou no seu campo de visão. Era a rapariga dos seus sonhos. Ao contrário do esperado, não se reuniu às outras companheiras, mantendo-se teimosamente à margem, olhando na direcção do aglomerado masculino. Ficou intrigado. Que se passava? Há quanto tempo estaria ali? Teria acabado de chegar? Se assim fosse, estava explicado o afastamento. Era uma das mais belas raparigas que lhe fora dado o prazer de encontrar. Era tão bela quanto inatingível. Pelo menos para si! Via-a conversar com outros rapazes e raparigas da aldeia sem nunca parecer interessar-se por algum. Dir-se-ia esperar pelo seu príncipe encantado. Sempre a julgara destinada a grandes voos, os mesmos que a natureza lhe retirara. Todos os rapazes pareciam estar enamorados dela, mas nunca se atreviam a aproximar-se como se a sua formosura fosse uma vedação alta que mantinha afastados os pretendentes. Não havia na sua atitude, contudo, nenhuma vaidade capaz de justificar aquele efeito no sexo contrário. Nenhum parecia vê-la com os seus olhos. E era estranho! Nunca percebera a razão mas também nunca se dera ao trabalho de interrogar fosse quem fosse, com medo de desvendar o segredo que tinha tão zelosamente guardado em si. A sua atitude era invulgar. Deu por si a caminhar na sua direcção. Os colegas nem haviam escutado a desculpas pela sua ausência tal era o entusiasmo suscitado pela presença das raparigas que, ainda há relativamente pouco tempo, pareciam estar irremediavelmente separados. Ainda se lembrava de como se odiavam mutuamente! Nem importava se nos grupos haviam irmãos e irmãs. Nas brincadeiras não importavam os laços de sangue! Interessava o género. Eles intervinham nas suas brincadeiras ridicularizando-as e para as perturbar rindo-se aparentemente indiferentes aos protestos e aos furiosos empurrões desencadeados pelos seus atrevimentos. Muitas vezes, aos apelos das filhas acorriam as mães para ralharem com os desagradáveis moços! As tensões diminuíam nos dois grupos mas a desconfiança mantinha-se intacta enquanto eles mantivessem nas proximidades com receio de futuras investidas. Ao perceber desde sempre a diferença marcante entre si e os amigos, ele tentara sempre impor-se de forma diferente da dos colegas. Tornava-se no apaziguador e no conselheiro numa tentativa de impedir ou cortar as brincadeiras que incorriam no desagrado das meninas. Nem sempre lhe davam ouvidos. De tempos a tempos, vira-se no meio de contendas ácidas que ele se via aflito para solucionar, terminando estas quase invariavelmente com a presença de um adulto que fazia o papel de juiz nas desavenças dos miúdos. Aí, ele tornava-se o advogado de defesa ou acusação dos envolvidos superando, pela sua imparcialidade e inteligência os testemunhos parciais de ambos os grupos. Maria das Dores era a que mais se impunha aos rapazes que se mantinham afastados dela. Crescera em graça e beleza sendo admirada na sua aldeia e nas da vizinhança. Até o sangue nobre parecia atraído por tanta candura! E não era difícil ver jovens montados nos seus cavalos perdendo-se em grupo ou em solitário por aquelas bandas. Muitas vezes experimentara aproximar-se quase involuntariamente dela ou ficava observando de longe aquele interesse que se arrastava pelos campos quase em jeito de corte. Por último, tinha descoberto um fidalgo das redondezas que alargava os seus passeios diários por aqueles campos distantes, olhando demoradamente o corpo elegante que se movimentava dobrado à tarefa dos campos. Não lhe era difícil imaginar vê-lo a rondar de forma a descobrir os hábitos da rapariga. Parecia um lobo esfomeado! Como não pensara nisso antes? Dando atenção à reputação dele, todo o cuidado seria pouco! Apressou o passo à medida que este pensamento se insinuava na sua mente. Mais do que uma ideia era um pressentimento. Não percebia era como nunca mais ligara ao assunto! Como se fora esquecer dele daquela maneira? Mas tudo poderia não passar de imaginação sua! Só lhe restava uma solução – perceber o que acontecera. Forçou a memória. Não tinha ouvido falar de nada. Nem mesmo aos rapazes. Se tivesse acontecido algo, já se saberia. O mais certo era tudo não passar de imaginação sua! Poderia estar simplesmente enamorada e buscar um pouco de sossego. Mas não combinava com ela aquela atitude. Havia algo de errado! Ela era naturalmente alegre e espontânea.

Ao aproximar-se dela, afastou aqueles pensamentos que tanto o perturbavam. Parou junto do olhar ausente da moça. Não era fácil colocar-se junto dela, uma vez que se encontrava relativamente afastada do grupo mais próximo, onde lhe chegavam restos de conversas agarradas pelo vento. Sobressaltou-se ao sentir uma mão poisar cautelosamente no seu ombro. A sua atenção desviou-se do ponto invisível que a parecia absorver para se arrastar lentamente, como se acordasse de um sonho, para o indesejado perturbador. Os lábios alongaram-se num sorriso afectuoso ao reconhecerem o terno rosto feio que lhe avançava algumas frases. Abanou a cabeça de um lado para o outro da primeira vez que foi interpelada e afirmativamente da segunda. Começaram a afastar-se do largo para onde alguns passos apressados se dirigiam soltando um cumprimento passageiro. Gostava de conversar com aquele jovem que sempre fora tão respeitoso para com ela ultrapassando os galanteios, por vezes inconvenientes, de certos cavalheiros que se cruzavam com ela. Sobretudo os desconhecidos. Os da terra, dada a proximidade dos laços que unia a povoação, raramente se prestavam a esses jogos que, quando aconteciam, não passavam o patamar da brincadeira. Ela até lhes respondia com igual sentido de humor. De resto, a amizade que unia os jovens era forte. Afinal, haviam crescido lado a lado. Conheciam-se desde sempre e tinham irmãos mais novos ou mais velhos da mesma geração.

Os seus passos afastaram-se do largo. Ninguém parecia dar pela sua falta. À sua frente os raios solares começavam a desenhar uma curvatura cada vez mais baixa, que culminaria dali a algumas horas no seu desaparecimento por trás dos montes que rodeavam a pequena aldeia aninhada no vale profundo. Meteram-se pelos caminhos de terra ladeados por muros de pedra escura. A conversa desenvolvia-se naturalmente entre eles. Ele fazia uso do seu sentido de humor ao qual ela não resistia. Em vão. Nessa tarde, nada parecia exercer qualquer efeito sobre ela. Embora se mostrasse alegre e desprendida, o rapaz feio percebia que algo a preocupava. Mas o quê? Não era impressão sua. Conhecia-a bem de mais. Nunca se interessara tanto por uma rapariga como por ela pelo que a conhecia bem.

A determinada altura, fez notar que percebia na sua atitude que havia qualquer coisa que a perturbava. Ficou calado à espera de resposta. Como ela tardasse ou nem mesmo já a esperasse, estacou o passo e voltou-se para a encarar. Ela parara ainda antes dele. Ergueu-lhe docemente o rosto pegando-lhe com dois dedos no frágil queixo. Os seus olhos rasos de lágrimas ameaçavam explodir numa forte emoção a qualquer momento. Sentou-a num rochedo liso e enorme que se encontrava na bifurcação do caminho. Ajoelhou-se diante dela e esperou enquanto lhe estendia um lenço. Ela sorriu por entre as lágrimas que deslizavam agora dos imensos olhos pelas faces magras e aveludadas. Respeitou a emoção da amiga esperando que acalmasse para que ela pudesse finalmente começar a falar. A tristeza esvaziava os seus olhos e a sua alma. Foi então que começou a contar o que lhe acontecera havia duas semanas. O rapaz feio fechava o punho de indignação e revolta. Lentamente, a culpa foi-se insinuando no seu espírito. Era culpado do que acontecera à amiga que amava tão ternamente. Finalmente, ela terminou o discurso entrecortado pelos soluços quando passara à parte que mais a magoava. Também ela se sentia culpada pelo que havia acontecido. Como tinha sido tão parva? Como não desconfiara de nada? Ele não se aguentou mais. Contou-lhe que a culpa era só dele. Dera pela ronda mas nunca pensara que o atrevido fidalgo se atrevesse a tanto! Ele reparou que o tinha deixado de ver a partir de determinada altura. Pensara que tivesse encontrado outro motivo de cobiça longe da aldeia. Enganara-se rotundamente. O seu aparente desinteresse devia-se a ter levado a avante os seus maliciosos planos. Nem mesmo a imagem da bela cara do fidalgo toda arranhada o fazia sorrir. Gostaria de ter ouvido as desculpas que dera em casa. Os tojos devem ter aguentado com as culpas. O aparecimento súbito de um animal feroz, o susto do cavalo que se empina, e as plantas espinhosas mesmo ao lado. Abanou a cabeça desgostoso. Ela não queria falar aos pais ou aos irmãos. Tinha medo do que pudesse acontecer. Ele assentiu. Mas não poderia desistir de ser feliz. Ela olhou-o com uma careta que revelava toda a incredulidade que lhe enchia a alma. Ele fora arrebatado pelo sentimento que o dominava. Quem a queria? Ora, ele não se importaria nada de experimentar a vida ao seu lado! Olhou-o de soslaio. Era tonto! Arruinar a sua vida para ficar com ela e com o possível fruto daquela única mas consumada relação? Ele confirmou a sua ideia com a cabeça. Ele estava a falar a sério não estava? Olhou-o incrédula. Percebera tudo! Há quanto tempo tinha esse sentimento por ela? Desde que se lembrava! Não exactamente quando começara a gostar da amiga! Ela levou a mão à boca perdida em pensamentos. Ele estava disposto a tudo por ela! Abanou a cabeça. Não ia deixar que fizesse isso? Porquê? Ele era bom de mais?! Não somente a amava. Nada mais! Ela fitou-o finalmente e viu toda a ternura nos seus olhos. Se não gostava dele? Sempre achara que ele a achava uma tonta! Nunca pensou que alguma vez pudesse olhar para ela com outro sentimento que o da simples amizade! Como se enganar! Confessou-lhe então que sempre o apreciara e que ao tentar captar a sua atenção dera com o seu rosto fechado ou com uma simples resposta cheia de humor que a fazia rir mas que parecia afastá-la dele. Sorriram. Como tinham andado enganados aquele tempo todo! Fora preciso uma desgraça para que eles tivessem a liberdade e a frontalidade necessárias para falarem sem receios dos seus sentimentos.

- Sabes, às vezes a beleza pode ser um peso que acarretamos às costas a vida inteira! – volveu tristemente ela. –principalmente de pois de vermos certos homens a olhar para nós de uma certa maneira… - parou à procura da palavra certa – cobiça misturada com uma obsessão medonha!

- Pois… mas depende das pessoas com quem temos a sorte ou o azar de nos cruzarmos! – rematou ele. – Só isso!

Não valia a pena falar mais disso. O que lhe acontecera, poderia ter acontecido a qualquer outra rapariga. Aliás, a fama dele precedia-o! Ela não o conhecia! Não sabia quem ele era. Depois, a abordagem havia sido inofensiva. Os rapazes já o conheciam mas era só conversa entre eles. Nada mais. Não tinham visto necessidade em contar fosse a quem fosse. Parecia-lhes inofensivo. Agora, se ele voltasse, o que ele duvidava, perceberia ou fá-lo-iam perceber que ela tinha dono. Se isso queria dizer que nunca mais se separariam? Claro que sim. Mas dependeria do entorno… acrescentou com um largo sorriso.

Sorriram. Não havia nuvens no seu horizonte. O céu claro mostrava-lhes o caminho das suas vidas. Eles limitar-se-iam a segui-lo.

 

publicado por fatimanascimento às 20:59
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Terça-feira, 12 de Agosto de 2008

Os dois estranhos

Era uma vez dois peixes diferentes de todos os outros daquela aldeia. Chegaram, uma noite, vindos não se sabe de onde. Chegaram num estado lastimável e todos haviam sentido medo, negando-lhes qualquer espécie de ajuda, incitando-os alguns a abandonar aquela aldeia, porque não gostavam de estranhos. Como eles se arrastassem por ali, os habitantes da pacata aldeia nunca mais se sentiram seguros. Como não sabiam nada sobre eles, a presença daqueles peixes estranhos era sentida como uma ameaça por todos. Todos tentavam arranjar explicações para as suas aparências, tentando também descortinar as suas intenções ao permanecerem por ali, quando sabiam que não eram desejados naquela povoação. Começaram então a inventar-se histórias sobre eles, que aguçavam o medo e a insegurança dos pacatos aldeãos. Aquela aldeia fora até ali, um local seguro e aprazível para se viver e não permitiriam que dois desconhecidos, vindos sabe-se lá de onde, lhes viessem perturbar a segurança a que estavam habituados. A presença daqueles peixes era uma ameaça para a comunidade. Sabiam lá eles o que viria atrás deles… a sua presença, não augurava nada de bom.

   Quando eles se aproximavam da aldeia, as ruas tornavam-se desertas como se tivessem sido varridas por uma gigantesca vassoura invisível. As mulheres entravam apressadamente em casa, arrastando atrás de si as crianças arrancadas violentamente às brincadeiras e que barafustavam ruidosamente perante aquela atitude brusca das mães. Só alguns homens permaneciam na rua erguendo-se como um muro e impedindo-lhes a passagem. Aqueles estranhos visitantes andavam sempre juntos. Eles paravam, olhavam-nos directamente nos olhos ferozes e depois à sua volta, como se avaliassem o perigo por momentos, cortavam então no atalho mais próximo, evitando o confronto com os sorridentes habitantes que se entreolhavam orgulhosos da sua atitude. Haviam afastado o perigo. Os dois peixes estranhos naquelas paragens, tinham na memória o último encontro desastroso com a população da aldeia. Eles caminharam ao longo da rua deserta e encontraram um peixito a brincar com as bolhas de ar. Ele estava tão absorvido que nem viu aqueles peixes estranhos, de quem toda a população falava, aproximarem-se dele. Indiferente ao que se passava na aldeia, aquele peixito que passava os dias a brincar na rua, enquanto os seus pais trabalhavam, descuidara-se e deixara-se levar pelo entusiasmo da brincadeira e não vira como a rua se esvaziara a dado momento. Habituado a estar só e a arquitectar o seu próprio mundo de fantasia, ele permanecera ali, alheado a tudo e a todos. Foi então que uma das bolhas de ar seguiu a direcção dos forasteiros e se colou a um deles. O grande peixe pegou cuidadosamente naquela bolha e estendeu-a gentilmente ao peixinho. O peixito agradeceu a devolução da sua bolha de ar e olhou para o forasteiro, para a barbatana que detinha a bolha de ar, depois, para os olhos sorridentes e gentis e … foi o choque! Eram eles! A reacção imediata do peixito foi voltar-se e fugir, quando ouviu uma voz calma e simpática:

   - Esta bolha de ar é tua? -perguntou.

   - S… sim! - respondeu o peixito assustado, olhando à volta para ver se via alguém.

   Atrás das janelas das casas da aldeia, dezenas de olhos assistiam à cena, horrorizados, temendo o pior.

   -Quando era pequeno, também brincava com as bolhas de ar. – explicou o grande peixe. – Fiquei contente por ver que mais alguém também faz isso. O outro peixe sorriu, acenando a cabeça sonhadoramente.

   O peixito arregalou os olhos de espanto.

   - O senhor também brincava com bolhas de ar? – perguntou admirado.

   - Claro que sim. Passava horas a admirá-las. Admirava a sua forma tão perfeita, a cor e a luz que delas se libertavam… e que reflectiam tudo à volta delas. Por vezes, acontecia imaginar histórias enquanto as acompanhava com o olhar.

   - Os meus amigos acham que eu sou esquisito, por passar tanto tempo a brincar com elas.- e corou ao admitir uma verdade que tinha escondida no peito. – Eles julgam que eu sou maluco. Alguns já tentaram fazê-lo, para me agradar, mas aborreceram-se logo.

   - Os teus amigos deviam dar mais atenção ao que os rodeia. Assim, eles descobririam as pequeninas maravilhas que a natureza nos oferece, até nas simples bolhas de ar… - explicou a companheira do grande peixe, de rasgados olhos sonhadores, numa voz doce um pouco quebrada.

   - Pois é! – exclamou o peixito entusiasmado, sentindo-se compreendido.

   - Mas nem todas as pessoas têm essa capacidade para ver aquilo que tu vês. É por isso que elas se aborrecem! Mas essa diferença não deve separá-los, mas uni-los! Tu possuis algo que os outros não têm e os outros possuem algo que tu não tens, a diferença só poderá ser vista sob o ponto de vista do enriquecimento. É da diferença que nasce a necessidade que temos uns dos outros, pois uns vêem algo que aos outros passa despercebido e vice-versa. Podemos, todos juntos, ajudarmo-nos a ter uma perspectiva global do mundo que nos rodeia - sentenciou o peixe grande.

   - É mesmo?! – perguntou o peixito admirado. –Nunca tinha pensado assim…

   De repente, pareceu acordar de um sonho. O seu olhar meigo foi substituído por um desconfiado. Embaraçado, percebera que falara com os estranhos de quem toda a população fugia com medo.

   - Bem, tenho de ir para casa, agora. Está ficar escuro e não devo demorar-me mais.- explicou ele atrapalhado. – Os meus pais devem estar a chegar e vão ficar… Tarde demais.

   Uma voz dura e cortante rasgou as águas já obscurecidas pela noite que caía, logo seguida por um grito feminino. Eram os pais do peixinho que regressavam do trabalho. Das mãos do pai, um objecto longo de metal, emitia, de vez em quando, alguns relâmpagos de luz crepuscular laranja que tomava uma cor fria, depois de reflectida no metal escuro da arma. Após a chegada dos estranhos, a população costumava trazer consigo as armas há muito já esquecidas nos armários, uma vez que, eram raras as intromissões naquelas remotas paragens. A última registara-se há muitos anos atrás, quando um peixe enorme e mau se havia perdido e tinha descoberto aquela pacata aldeia. Com ele vieram os seus duvidosos amigos. A população, aterrada, vira os seus campos destruídos e todos aqueles que amavam ameaçados e chantageados até conseguirem aquilo que desejavam. Depois de terem visto satisfeitos os seus caprichos, eles haviam retomado o seu caminho, deixando atrás de si uma população desanimada e cansada. As armas haviam então saído dos armários mas era tarde demais para fazer fosse o que fosse. O ataque fora de tal modo rápido e inesperado que apanhara toda a população desprevenida.

   - Afaste-se do meu filho, já! – gritava a voz ameaçadora.

   Os dois peixes afastaram lentamente as suas barbatanas do corpo, numa atitude de surpresa, sem contudo mostrarem qualquer espécie de medo. A sua atitude mostrava só que não procuravam problemas. Já haviam passado por muito para agora terem medo fosse do que fosse. Medo só tinham de ideias como aquelas que levaram ao extermínio de quase uma população inteira, da qual só eles dois pareciam ter sobrevivido. Depois de uma perseguição cerrada, os dois haviam levado a melhor sobre os seus perseguidores e haviam fugido à sua cerrada vigilância. Fora assim que haviam chegado ali, onde haviam permanecido escondidos durante algum tempo, a observar, até perceberem que, aparentemente, se tratava de uma aldeia normal, que não constituía ameaça para eles. Começaram então a aventurar-se. Primeiro, em busca de comida, às escondidas, fora das horas de maior movimento, depois, começaram por se deixar, pouco a pouco, ver pelos habitantes, na tentativa que eles se habituassem à sua presença. Nada disso fora fácil. A população sobressaltara-se quando os vira, e olhara-os ferozmente de lado. Aquele olhar dizia-lhes claramente que não gostavam de os ver por ali a rondar. Tentaram ainda bater à porta e falar com alguns habitantes mas estes mandaram-nos embora, sem sequer os ouvir. Eles tentaram falar com eles, mas só receberam ameaças em troca. Desistiram percebendo que seria inútil qualquer tentativa da sua parte para se entender com eles.

   Instalaram-se fora da aldeia, e ali viviam sossegadamente, cultivando o seu pedaço de terreno, do qual retiravam o que comiam. Os habitantes da aldeia murmuravam entre si, estranhando a presença daqueles súbitos intrusos. Como não sabiam nada acerca deles, os sossegados habitantes interrogavam-se sobre aquelas personagens surgiram histórias estranhas, que aguçavam a imaginação dos pacatos aldeãos.

   O peixito assustado com a voz ameaçadora do pai, correu na sua direcção, escondendo-se debaixo da barbatana direita da mãe, que o acolheu aliviada, fitando duramente os intrusos.

   - Vão-se embora daqui para sempre. Não os queremos aqui. – continuou a voz ameaçadora.

   Os dois peixes grandes entreolharam-se. À sua volta as portas das casas, começaram a abrir-se lentamente e dela saíam outros peixes também de armas em riste. Estavam cercados novamente. Voltaram-se lentamente, dando as costas ao inimigo, e caminharam a passo firme. Não tinham a temer. Aquelas pessoas estavam literalmente com medo, o mesmo medo que eles haviam sentido há já bastante tempo atrás e que nunca mais esqueceram. Tinham contudo aprendido, a encarar o perigo e a ultrapassá-lo, mesmo nas situações em que tiveram de encarar a possibilidade de morrer. Depois, aquela população não era do género traiçoeiro, senão teriam já terminado com eles.

   Quando os dois estranhos abandonaram a rua da aldeia, os habitantes olharam uns para os outros aliviados e olharam o peixito estarrecido, ainda escondido debaixo da barbatana protectora. O peixito observara tudo de olhos muito abertos pelo terror. Não sabia bem o que temera. Lembrava-se da conversa e da atitude desprendida dos dois peixes, da delicadeza com que lhe devolveram a bolha de ar, agora perdida com todo aquele alarido, a doçura das palavras e o olhar sonhador. Não se tinha sentido ameaçado em momento algum em que estivera junto deles. A sua intuição, desde sempre aguçada, não o alertara contra a presença dos dois estranhos, e era engraçado, porque ela nunca antes falhara. O que acontecera então?

   As mulheres, logo seguidas das crianças, saíram à rua comentando o perigo que ameaçara o peixito. Cercaram o peixito, retirado da protectora barbatana maternal, e assaltaram-no com perguntas que o baralhavam completamente. Intimidado, refugiou-se novamente no esconderijo improvisado.

   - Calma, calma… - aconselhava a mãe aos outros peixes – Nada de mal aconteceu. Vamos ter calma. Estão a aterrorizá-lo!

   O peixe mais idoso, de fracas barbatanas e uma longa barba branca, os olhos protegidos por grandes lentes redondas, dirigiu-se aos restantes companheiros, na sua voz fraca. Como os outros não o ouviam devido à confusão, desenhou na água um gesto imperioso para calar os restantes companheiros.

   As vozes foram-se apagando pouco a pouco.

   - Companheiros, não podemos adiar mais este problema. Temos de nos reunir e decidir o que vamos fazer, relativamente aos estranhos. Porque não aproveitamos esta oportunidade para nos reunirmos e decidimos, de uma vez por todas, o que vamos fazer em relação aos dois estranhos? – proferiu ele na sua voz calma e trémula, e continuou  - E porque não fazemos agora?

   Os outros olharam-no sem compreenderem.

   - Vamos discutir todos este assunto e resolver o que devemos fazer com os dois estranhos. Com certeza que os meus ilustres conterrâneos já devem ter uma opinião sobre este assunto… uma vez que a presença deles já foi notada por nós há algum tempo. – explicou ele aos mais desatentos.

   Assim foi. Para terminar com o grande alarido provocado pela presença dos dois peixes estranhos, reuniram-se, nessa noite, para discutir a presença e o destino dos forasteiros. O local da reunião era uma gruta espaçosa, destinada a deliberações importantes e, como nada de importante tinha acontecido naquela remota aldeia do oceano, havia muito tempo, ela pouco havia sido usada, a não ser para grandes acontecimentos familiares. Os poucos habitantes da aldeia acomodaram-se silenciosamente na sala, os adultos rodeados de perto pelos seus filhotes, todos na expectativa do que se iria passar, pois todos haviam trocado já impressões mas nunca de forma tão aberta e era-lhes difícil descortinar, depois de todo aquele reboliço, qual seria o desfecho de tão inesperada reunião. Uma vez todos sentados, e passado o barulho característico dos peixes a acomodarem-se nas suas cadeiras, o ancião tossiu para desobstruir a garganta e falou na sua voz trémula mas decidida.

   - Meus irmãos, já não é possível ignorar por mais tempo a presença destes dois estranhos que tanto nos tem importunado. Temos de tomar uma atitude para bem de ambas as partes. Só, assim, poderemos continuar a viver em paz. O que vamos discutir aqui hoje tem a ver não só com os peixes em questão mas também connosco.

   O silêncio que antes pesava naquela sala, tinha-se dissipado para dar lugar aos murmúrios das trocas de impressões. Sobrepondo-se ao barulho geral daqueles sussurros, uma voz masculina fez-se ouvir claramente:

    - O que é que eles têm a ver connosco ou nós com eles? Nós vivíamos perfeitamente felizes e em paz, antes de eles chegarem e ocuparem um lugar junto de uma comunidade que não lhes pertence, e sem se importarem com o que nós pensávamos acerca disso.

   De novo os sussurros tomaram conta da sala. Vozes mais alteradas, procurando dominar outras mais calmas.

   - Sem nos esquecermos do perigo que a presença deles representa para todos nós. – declarou um peixe gordo, de pele avermelhada.

   Outras vozes se fizeram ouvir, apoiando esta última. O peixe avermelhado sorriu agradecendo o apoio. O velho ancião abriu novamente os braços, como se os quisesse abraçar a todos. Mais uma vez se fez silêncio, ouvindo-se só o barulho dos ocupantes da sala, remexendo-se nos seus lugares.

   - Meus amigos, estes dois estranhos já estão a viver connosco há algum tempo. Alguém tem alguma razão de queixa deles? – perguntou ele dirigindo o seu olhar à vasta sala.

   Um peixe de barba preta e ar sisudo, levantou a barbatana e a voz fez-se ouvir das últimas fileiras.

   - Desapareceu-me alguma fruta do meu pomar… logo quando eles chegaram! – disse ele resolutamente.

   Outras vozes fizeram coro com a dele. A sala remexeu-se em peso e corria-se o risco de se criar nova confusão e de entrar noite dentro sem nada se resolver. Uma senhora-peixe lembrou-se subitamente que tinha deixado a panela ao lume e abandonou a sala a correr. Uma outra seguiu-lhe o exemplo, pois não se lembrava se havia fechado a porta. A voz do peixe ancião atravessou de novo a sala.

   - Se mais alguém tiver de sair, faça-o agora pois temos de resolver hoje este assunto. – disse ele arrastando o seu olhar pela sala, mas mais ninguém se mexeu do lugar. Chegaram entretanto as duas mulheres que haviam saído, entrando tão precipitadamente quanto haviam saído. Ocuparam os seus lugares, trocando algumas breves palavras com os peixes sentados nas proximidades.

   - Podemos agora começar? - perguntou o ancião, acrescentando – O peixe Rodrigues dizia há pouco, e vocês sublinharam as palavras dele, que lhe faltara alguma comida. Alguém tem mais queixas para além da falta de comida que parece ser comum a mais do que peixe?

   Ninguém se pronunciou. O ancião continuou:

   - Alguém já se interrogou porque razão eles o teriam feito? Algum de vós lhes deu alguma comida quando eles muito simplesmente vos bateram à porta e vo-la pediram? O que fizemos nós, quando nos pediram a nossa ajuda? Limitámo-nos a olhá-los horrorizados com a aparência deles, sem sequer nos interrogarmos ou a eles, sobre o que se tinha passado. Limitámo-nos a escorraçá-los…

   O silêncio revelava agora um sentimento geral de embaraço perante aquelas palavras proferidas de forma tão directa.

   - O que quer que lhes tenha acontecido, eles devem ter lutado arduamente pelas suas vidas… Daí o seus aspectos, já pensaram nisso? Tratava-se unicamente de um casal em fraco estado físico e psicológico e nós deixámo-nos intimidar pelas suas aparências, sem lhes darmos qualquer oportunidade de se revelarem como peixes que são. Faltou-vos comida, é certo… mas faltou-vos unicamente a comida que declinaram de má vontade, recusando-se a olhar o que diante de vós se mostrava… Vocês não escorraçaram os dois peixes, eu sei, mas a miséria que viam diante dos vossos olhos e que vos assustava… Algum de vós trocaria o vosso lugar pelo deles? - os seus olhos perscrutaram a audiência calada, embaraçada pela vergonha, que olhava nas mais variadas direcções, sem nada para dizer, - Não, eu sei que não… Quando nós lhes negámos toda a espécie de ajuda, inclusivamente o direito de atravessarem as nossas, o que fizeram eles?  Limitaram-se a ocupar uma gruta há muito tempo deserta, fora da aldeia, um local que nenhum de vós reclama, porque não pertence a ninguém, nem ninguém o cobiça… Ali, eles fazem a vida deles, sem nos incomodarem, sem nos exigirem fosse o que fosse… sem sequer imporem a sua presença, salvo quando lhes era absolutamente necessário… Meus amigos, se eles fossem más pessoas, nós já teríamos alguma razão de queixa contra eles, não é verdade? Não podemos recorrer também às más experiências do passado para justificarmos as acções do presente, porque o presente é o presente e é como tal que tem de ser avaliado, sem traumas passados a assombrá-lo… o passado serve unicamente para aprendermos e continuarmos a viver com as lições aprendidas, nada mais… temos de nos abrir ao futuro, e o futuro passa pelo acolhimento destes dois no nosso seio. Não há volta a dar ao assunto… Já passaram pela gruta deles? Não, creio que não… - disse olhando atentamente os seus companheiros – mas eu, na minha atrapalhação própria da idade, perdi-me por lá um dia destes… e devo dizer-lhes que eles não são diferentes de nós… de uma gruta vazia, eles fizeram um lar, o seu lar, e foi lá que eu fui acolhido e ajudado, como se de um longo amigo se tratasse… daqueles que precisam de ajuda. Dividiram comigo o pouco que tinham, ou deverei antes dizer, têm e ali estava eu, são e salvo, de regresso a casa. Quando viram os dois estranhos a falar com o peixe Zézito, o que pensaram? O pior… esconderam-se em casa a espreitar pelas janelas temendo o pior… e o que viram? Dois peixes adultos a conversar com um peixito da aldeia, nada mais…

   Os olhos de todos pousaram sobre o novo alvo da conversa, que se encolheu, junto da mãe.

   - Tiveste medo deles, peixe Zézito? – perguntou o ancião ao peixito que se limitou a discordar dele. O único medo que eu vi nos olhos dele, foi aquele que vocês provocaram com as vossas histórias na imaginação dele e, depois, com os vossos gritos e as vossas atitudes perante a situação… temos de ter calma, amigos, calma para avaliarmos as situações e as pessoas e, então, agir. Já se perguntaram porque é que eles, apesar de tudo o que aconteceu, ainda não se foram embora daqui? Eu perguntei-lhes e a resposta dada foi inesperada e demonstrou uma compreensão da situação que me admirou e só peixes que passaram pelo que eles passaram sabem dar o valor… e sobretudo quando passaram por tudo sem se tornarem maus ou amargos… e devo dizer-lhes que eles viram soçobrar familiares e amigos arrancados à vida por filosofias como aquela que nos levou a ignorá-los e a marginalizá-los. Eles perceberam que, apesar da nossa atitude, era o medo que falava por nós e que, com paciência, nós iríamos acabar por compreender o tipo de pessoas que eles eram… eles perceberam que nós não éramos más pessoas, como aquelas que eles encontraram nas suas vidas.

   Fez-se um longo silêncio na sala. Ninguém sabia exactamente o que dizer ou o que fazer. Uma vozinha fez-se então ouvir, tímida ao princípio, depois, resoluta.

   - O que podemos fazer para emendar o que lhes fizemos? – perguntou o peixito, todo vermelho ao sentir os olhos de todos pousados nele. Os olhos voltaram-se para o ancião interrogadores.

   - Poderemos por começar já amanhã… eu vou falar com eles, e contar-lhes o que sucedeu aqui hoje… quanto ao que fazer, podereis ver pelos vossos próprios olhos que há imenso para fazer, que nos irão ocupar algumas horas daqui para a frente, isto é, se tiverem na disposição disso, claro.

   Dizendo isto, observou a sala para ver se havia voluntários. Pouco a pouco, as mãos foram-se levantando até a plateia se levantar alegremente a bater palmas. Todos estavam entusiasmados com a ideia de ajudar os dois desconhecidos. E estavam, sobretudo, contentes por eles, por terem encontrado uma solução para este caso, que os incomodava já há algum tempo, e que ameaçava tomar contornos mais graves, desagradáveis e até inesperados. Todos suspiraram de alívio, dando agora aso à sua imaginação, alegria e projectos para ajudar aqueles dois desconhecidos que haviam deixado de o ser.

   No dia seguinte, logo de manhã, o ancião dirigiu-se, tal como prometera, à gruta dos dois amáveis desconhecidos, para lhes contar o que se passara na noite anterior. Os dois peixes ouviram com atenção e agradeceram ao velhote as palavras. Passados alguns minutos, uma aldeia em peso dirigia-se, armada de toda a espécie de ferramentas, tecidos e alimentos para aquela gruta fria, habitada pelos dois peixes desconhecidos, e, após terem as ordens necessárias para avançar, puseram mão ao trabalho. As senhoras peixes dentro da gruta, orientada pela peixe Olívia e, no campo, os peixes ajudavam o marido, Justino, em tudo o que era preciso fazer. E havia tanto que fazer! Até as crianças peixe ajudavam em pequenas tarefas…

Conto escrito por Fátima Nascimento Dias

 

 

publicado por fatimanascimento às 21:37
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