Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

A menina e o espírito

Paulina não sabia mas nascera diferente. Não era diferente fisicamente, mas havia algo nela que a diferenciava dos outros. Mas ela não dava por isso. Na sua inocência, encarava tudo com naturalidade. Não se apercebia da maldade, mesmo em crianças da sua idade. Adorava brincar, e, à falta de crianças em casa, procurava as da sua rua, para lhe queimarem a solidão de casa. Com a idade essa diferença acentuara-se. Havia algo nela que as outras não tinham. Em casa, não lhe falaram de nada. O mundo da espiritualidade resumia-se às orações pronunciadas, com toda a sua alma, antes de cair no sono cansado. Como não tinha contacto com o mundo espiritual, os pais, sobretudo a mãe, recusara-se a contar-lhe o que a diferenciava dos outros meninos. Mas estes sabiam. E não eram raros os que se aproveitavam dessa vantagem. Tudo começou, então na sua infância. As suas companheiras de brincadeiras olhavam muitas vezes para a sua auréola, parando as brincadeiras. Paulina não fazia a mínima ideia do que se passava. Desconcertada, limitava-se a ficar parada à espera que as colegas resolvessem continuar. Só mais tarde o mistério se clarificou. Já era tarde de mais! Nas suas aparentes brincadeiras perdera muito do seu futuro. E só vinte anos mais tarde daria conta disso mesmo. As pequenas com quem brincava, não eram suas amigas. Aliás, nunca haviam gostado dela: haviam-se servido dela. Tudo isto lhe foi contado pelo seu velho amigo, que encontrara muitos anos depois. Ele contou-lhe tudo!

  Paulina sentou-se frente à lareira com a cabeça apoiada nos braços dobrados sobre o joelho. O seu espírito ainda se mantinha fiel, como uma grande luz sobre a sua frágil cabeça. Como podia existir tanta gente má neste mundo? Como é possível que se tenham aproveitado da sua ignorância e da sua pureza para lhe destruírem a propriedade intelectual do seu passado, presente e do seu futuro? Tudo começara na sua infância para continuar pela sua vida fora.

  Segundo o velho Tomás, as suas duas companheiras, instigadas pelo pai de uma delas, precisamente aquele que Paulina sempre percebera que a odiava, (nem se dera ao trabalho de esconder isso da criança que era então), limparam muitas das obras que viria a escrever na sua adolescência e juventude e na vida adulta, sobretudo as mais volumosas que seriam as mais cobiçadas, da sua memória deixando nela um irreparável vazio. Tudo isto arrastara o seu êxito, deixando o que restava, para um período adiantado da sua vida. Mas não seriam estas as únicas. Aliás, estas haviam-se dado a um descanso forçado, uma vez que outras pessoas seguiriam o seu exemplo ao longo da vida de Paulina. Até o momento do seu êxito seria depois decidido por uma colega que conhecera de outra faculdade. Tinha visto que um dia seria famosa e encarregar-se-ia, com a ajuda daquelas pessoas que ganham a vida perdendo a das outras, de limitar o sucesso de Paulina à editora que um dia seria sua. Tal como um animal de enormes proporções arrastava atrás de si imensos e pesados parasitas.

  “Estranho”, pensava esta, debruçada sobre os joelhos na direcção da cálida lareira. Tinha consigo um espírito que não lhe valia de nada. Só ajudava os outros a prejudicá-la. Sim, porque tratando-se de um espírito bom, não reconhecera o mal espiritual que outros lhe fizeram ao longo da sua vida. Estava tudo tão claro agora! Muitas das situações para as quais não tivera explicação até então, agora tinham lógica. O seu arranque para o mundo da escrita havia começado tarde, embora tivesse começado cedo. Mas não justificava até as perdas do que construíra. O interesse de pessoas que se haviam chegado a si e que resultariam também no furto das obras que já não iria edificar. Pensou nas pessoas que gostariam de ter tido oportunidade de conhecer as mesmas e no prestígio que isso traria ao país, retirando-o da sua marginalização cultural. A inveja tomara conta das pessoas que com ela se cruzariam durante estes anos todos e que lhe arrancariam um pedaço de si, como sôfregos animais selvagens. Esta era a selva humana, na sua pior demonstração. O que mais a revoltava era a sua passividade perante tanta crueldade! Nunca tivera oportunidade de se defender. Todos haviam violado o seu espaço de memória como se de um disco rígido de um computador se tratasse! Sem qualquer tipo de sentimento ou arrependimento. Eram autênticos vírus alimentando-se do mal causado e, provavelmente, a outros. Lembrava-se de colegas de profissão, todas elas professoras também, que também não tinham resistido a decepar-lhe a memória. Uma profunda angústia invadiu-a. Mais recentemente, lembrava-se de outra colega que lhe invadira o lar para conseguir não só fazer-lhe mal como também para lhe roubar, para a filha uma obra que lhe pertenceria. Aliás, não resultara a escrita do rebento da colega, então sua vizinha, numa tão semelhante à sua? Nem mesmo a sua suposta admiração pela escrita de Paulina poderia justificar tal semelhança! Conhecera tanta gente medíocre na sua vida! Agora percebia o seu interesse nela. Logo nela, tão diferente delas! Pudera, só assim conseguem algo na vida! Ou não! Muitas delas só querem mesmo destruir, evitando que as outras consigam alcançar os seus objectivos na vida. Depois, o mundo espiritual revelara-se promissor a todos os níveis. Era negado pelo comum cidadão pelo que a impunição era total e não havia quem julgasse tais atitudes. Todos os que se apercebiam disso, horrorizados, faziam de conta que não haviam dado por nada!

  O que iria fazer? Como recuperar essas queridas obras que haviam morrido no escuro ventre da sua memória? Como haviam essas pessoas conseguido tal proeza? Virou-se para o idoso que fitava as chamas com uma calma traída pelo temor da sua voz.

  A voz do velho Tomás enterneceu-se. Haviam apagado o estímulo que originara a ideia para o enredo da narrativa. O silêncio rompeu em lágrimas. Deslizavam pela face onde as trémulas chamas pintavam as suas brilhantes cores quentes.

  “Meu Deus, nunca fizera mal a ninguém que justificasse aquele assassínio de memória! Ninguém tinha o direito de fazer tamanha monstruosidade!, a lamentosa voz, entrecortada pelos soluços, cortava o doce silêncio imperial amenizado pelos murmúrios das chamas.

  Por que é que os pais nunca lhe haviam contado nada? A sua amiga Rosa, sentada ao lado de Tomás, lançou mansamente que havia sido uma escolha sua. “Mesmo que errada?”, revoltava-se Paulina entre lágrimas.

  Recordava-se ainda dos seus jovens tios que, alguns anos antes, lhe haviam revelado o segredo tão religiosamente guardado pelos pais, julgando precisamente que estes lhe haviam contado tudo! Ficaram tristes ao apurarem a verdade. Eles não compreendiam o mutismo da irmã e do cunhado referente a um assunto como aquele. Compreendia-os. Tivera dois grandes espíritos bons que a haviam acompanhado grande parte da vida. Nenhum a protegera, embora se esforçassem. Haviam sido, também eles, meros joguetes em mãos caprichosas e más. E dava para fazer de tudo! Até decidir a hora da morte de uma pessoa! Sabia que o seu ex-marido, com a ajuda da mãe, lho preparara. Estava toda armadilhada. Perdera um terceiro espírito, este mau, depois de uma longa luta com a ajuda de orações. Este acompanhara-a desde a nascença, e, surpresa ou não, era um antepassado da sua ex-sogra. Voltara a si, com a ajuda do seu ex-marido, depois de uns bons meses de doce interregno.

  A única conclusão tirada de todo aquele terrível manancial de informação era que não deviam existir tais espíritos. Se ela passara bem sem recorrer a eles por que é que os outros se haviam mantido tão dependentes? Pareciam não poder passar sem tais ajudas!

  O que iria fazer? Segundo Tomás e a amiga só havia uma solução recuperar todas essas obras e escrevê-las mostrando a todas essas pessoas medíocres que o mal não compensa. E se quisesse denunciar a situação? Tomaria as duas atitudes!

  Paulina acenou afirmativamente erguendo o rosto inchado pelas lágrimas. A denúncia era também absolutamente indispensável. Não poderia deixar que outras crianças, adolescentes ou jovens estivessem sujeitos a tais situações. Havia que alertar os pais. Havia que alertar o mundo se queria criar um futuro melhor para todos, sem excepção! Se calhar, não passara em vão por tanto sofrimento, tão longamente guardado, e com tantos cúmplices envolvidos. Havia que levar as pessoas a procurar informações e a acautelar-se com situações semelhantes ou outras.

  As linhas do rosto distenderam-se revelando toda a esperança contida na sua alma, momentos antes obscurecida!

publicado por fatimanascimento às 16:42
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Sexta-feira, 11 de Dezembro de 2009

A eterna história de amor de Pedro e Inês

A luz do dia morria lentamente nos braços da noite. O vasto salão esperava pacientemente o grande momento. Gasto na passagem dos séculos, já assistira a muitos acontecimentos reais. Era apenas mais um. Num aconchegante canto, um jovem alto, ruivo, de porte atlético vigiava os sinais da noite. Nas paredes, docemente iluminadas pelos possantes archotes, dançavam gigantescas figuras fantasmagóricas.

  Um grupo de vozes aproximava-se solenemente, arrancando o jovem aos seus distantes pensamentos. Virou-se corajosamente para enfrentar o maior desafio da sua vida – iria conhecer a noiva escolhida para si.

  Entraram no salão silenciando as crepitantes chamas da espaçosa lareira. Falavam calmamente entre si, como se o tempo tivesse desistido da sua interminável contagem.

  O coração saltava-lhe no peito. Chegara o momento. Deslizou suavemente a coberto da cúmplice obscuridade, rodeando-os, como um animal avaliando a sua presa.

  Era o último sítio onde lhe apetecia estar. Entre as cabeças unidas, meio escondida entre duas figuras femininas elegantemente vestidas, dois claros olhos cristalinos, semelhantes à água pura da corrente dos ribeiros, que exploravam distraidamente as imediações, poisaram suavemente nos seus, para não mais se desviarem. A cara esguia, os olhos igualmente claros, os cabelos e a barba ruivas faziam daquela personagem um belo príncipe retirado de um conto de fadas. Havia algo na forma como olhava que lhe inspirava toda a confiança possível. O mundo em redor desapareceu por uns eternos instantes, e nada mais no mundo existia para além dos dois. Aquele olhar, ainda que breve, disse mais que uma torrente de palavras. Para além dos olhares, os dois corações pareciam ter ganho uma incomensurável força, uma vontade determinante, passando acima de todas as forças humanas. A poderosa força uniu-os por laços de uma força tal que nenhuma outra humana seria jamais capaz de quebrar. A vida parecia deslizar à frente dos seus olhos. A vida finalmente parecia fazer sentido.

  O burburinho gerado à sua volta trouxe-os de volta à terra. Talvez tivesse sorte, apesar de tudo! A esperança cresceu no seu peito. Desviou a custo o olhar da bela senhora, para dar atenção ao idoso cavalheiro que ultrapassava a distância que os separava de braço estendido, empurrando suavemente com o outro uma elegante dama que lhe era apresentada como noiva. O olhar desviou-se instintivamente na busca daquele com que se cruzara há uns minutos atrás. Desaparecera do seu campo de visão. Concentrou-se na conversa que se desenrolava à sua frente e nos simpáticos olhos que o inspeccionavam. Corou perante o interesse feminino. Seguiu-se a presentação do restante pessoal que compunha o séquito. Um desfile de caras e nomes passavam elegantemente diante de si, desenhando a respeitosa vénia acompanhada da delicada genuflexão. Deixara de ser um príncipe de carne e osso para se transformar na estátua do herdeiro do trono. Algo morrera dentro si. Talvez para sempre. Sabia, desde pequeno, que nunca poderia ceder à sua vontade pessoal uma vez que esta se confundia com a da nação. Ele e a nação eram uma só identidade. Ele deveria abdicar de si, para se concentrar no bem desta. Sabia também que não estava preparado para tal. Sabia que não poderia governar sem ter a seu lado a pessoa que realmente escolhesse. Não encontraria a força necessária para tal. Mas era a pessoa falar. O príncipe sabia o que devia fazer. Quem disse que se podia abdicar da pessoa a favor da posição social? Ainda tinha bem presente as histórias das batalhas que seu pai travara contra os seus irmãos de sangue. Tudo, na sua opinião, porque não casara com a pessoa que amava. As amantes eram inúmeras e directamente proporcionais aos filhos ilegítimos gerados! Por si, teria cedido o trono, se tivesse de escolher entre o combate, o reino e o amor. Ele amava o seu reino, nada de confusões, mas entre ter uma vida vazia sentado num trono e uma vida plena, ainda que curta, em cima de um cavalo, combatendo pela pátria, preferia esta última. Talvez por isso sempre se dedicara a passatempos que o afastavam do paço e da corte, onde jovens mulheres tudo faziam para lhe captar a atenção. Nenhuma se aproximara sequer do seu coração. Preferia a vida simples às intrigas da corte.

  Um suave rosto arrancou-o às suas divagações. Recolhia-se, nesse momento, na vénia mais elegante que jamais presenciara. Elevou-se, os olhos postos no chão, retirando-se para fora do seu campo de visão como um coelho assustado. O olhar do jovem príncipe seguiu-a por momentos, até o puxarem de volta aos seus deveres. Céus! Como odiava, naquele momento, aquela palavra! Por que não poderia a vida ser perfeita? Por que tinha sempre de haver opções dolorosas? Por que não era aquele rosto o escolhido? Como seria a sua vida dali para a frente? Como voltaria a ser o mesmo jovem despreocupado que ainda obedecia à sua vontade de jovem herdeiro? Estava preso! E da forma mais cruel! Teria de casar com a esposa escolhida para si e encarar com aquela que o seu coração escolhera na primeira troca de olhares! Como iria sobreviver a tal prova? Faria o que sempre fizera até ali – refugiar-se-ia nas suas ocupações ao ar livre. A caça, para além de um exercício era, sobretudo, uma evasão. Agora mais que nunca. Haveria de conseguir nele uma solução para o intrincado problema. Amordaçou o seu coração. Não lhe podia dar ouvidos. Não o faria! Concentrou-se nas conversas que se desenrolavam à sua volta. Inútil. Tudo avançava como programado. Ele era só um mero espectador assim como a jovem que haviam elegido para si.

  Passaram ao salão seguinte, mais iluminado, onde uma multidão esperava de pé, solenemente. Uma vez apresentada a futura esposa do príncipe herdeiro, iniciaram-se as cerimónias. Tomaram o seu lugar nas longas mesas e deu-se início ao banquete. A jovem, ao seu lado, sorria-lhe, de vez em quando, tentando entabular conversa. Ele respondia educadamente mas sem grande interesse. O seu olhar estendia-se pelo salão à procura de um certo rosto. Encontrou-o entre muitos outros sorridentes e faladores. Estava silencioso, tal como ele. Recolhido em pensamentos, tal como ele. Nada do que se passava à sua volta parecia interessar-lhe. Ninguém parecia reparar em si. Os olhos presos nos futuros esposos, tudo o resto parecia não ter interesse. Nem mesmo a sua beleza ímpar parecia captar a atenção. Dava graças a Deus por isso! Nada mais lhe apetecia do que a segurança do aparente alheamento. Dentro de si, um fogo parecia arder brutalmente, sem que lhe conseguisse pôr cobro. A confusão reinava naquele coração e na bela fronte, ainda mal refeita do choque. Encontrara o homem da sua vida, o grande amor com que sempre sonhara desde pequena. Estava ali. A alguns metros de si. Mas a história não se desenrolara como nos seus devaneios adolescentes. A sua felicidade, recém encontrada, estava moribunda. Não havia esperança para tal sentimento. Teria de arranjar uma solução quanto antes. Nem que isso tivesse de envolver o seu regresso a Espanha. Apaixonar-se pelo futuro marido de uma das suas maiores amigas não estava nos seus planos.

  Sentiu os olhos presos à sua figura. Levantou-os com precaução e reconheceu os do homem que cativara o seu coração. Também ele parecia alheado de tudo quanto se passava à sua volta. Mais uma vez, e por breves momentos, o mundo pareceu apagar-se à sua volta. Receosa de levantar suspeitas entre alguns dos assistentes, ela recuou ligeiramente até ficar coberta pela imponente figura masculina instalada a sua lado que falava entusiasticamente com o seu vizinho. Percebeu mais do que viu o seu olhar desamparado. Olhou à sua volta. Ninguém parecia reparar na troca de olhares e na insistência com que o príncipe a procurava com os olhos. Subitamente, lembrou-se da amiga, a princesa de quem era aia e de quem era confidente. Ter-se-ia apercebido do interesse do seu futuro esposo por ela? Arriscou uma tímida inclinação de cabeça para se certificar de que ela estava feliz. Mais uma vez, o príncipe, sempre atento a apanhara nessa verificação. Satisfeita com o resultado da sua avaliação, recostou-se e deixou-se levar pela sua imaginação, onde a perfeição reina colmatando as falhas da vida. Imaginara, com certeza, fulgor da sua imaginação juvenil, uma paixão por um nobre que merecesse o seu amor, mas nunca o próprio príncipe. Nunca colocara títulos ao seu imaginário eleito. Disso estava certa que conseguiria, dada a sua ascendência nobiliárquica. A sua atenção concentrava-se mais na pessoa que lhe estaria destinada.

  Por entre as mesas, o bobo arrancava gargalhadas aos presentes, com as mais incríveis imitações e anedotas. Todos se divertiam naquela noite que representava a felicidade para um reino que poderia contar com o sempre desejado herdeiro, caso acontecesse algum acidente ao príncipe.

  O baile abriu o desejado espaço, servindo de cobertura ao seu embaraço. Não sabia lidar com tal situação. Nada a prepara para isso. Restava-lhe, para já, o recolhimento. E a distracção. Isso! Iria procurar distrair-se. Aceitou um convite para dançar. Na dança de grupo, voltou a cruzar-se com ele. Roçaram-se, tocaram-se, afastaram-se. Concentrava-se na dança para se esquecer do sentimento forte que a dominava sempre pensava, via ou percebi o seu interesse por si. Deixou-se invadir pela música. Acabada a dança, recolheu-se para um canto obscuro onde pudesse passar despercebida. Ali ficou fitando todos os pretendentes às danças seguintes. Também o príncipe cedera lugar a outros. Permanecia sentado, absorto. Ninguém parecia reparar na sua disposição. Habituados a rotulá-lo como um “bicho do mato”, já nem ligavam a isso.

  A animação avançou pela noite dentro. A noiva tinha de se retirar. Inês avançou, juntamente com as outras colegas, para seguir e ajudar a sua senhora. Assistiu à despedida dos futuros esposos. Na retirada, sentiu a mirada presa na sua nuca.

 

II

 

  A manhã acordou calma. Os sinos agitavam-se numa alegria há muito desejada. Os raios de sol espreguiçavam-se alegrando todos os espaços onde tocava como se de uma varinha mágica se tratasse. Desde cedo, o povo amontoava-se ao longo das ruas na expectativa de observar o cortejo.

  A agitação no palácio começara ainda mal o dia despertara da sua longa noite de sono. Criados entravam e saíam do paço atarefados. Os espaços decoravam-se de acordo com a riquíssima cerimónia.

  A noiva acordou com um grande sorriso e a ansiedade própria criada pela chegada do momento. Na véspera, confessara a sua paixão pelo seu príncipe. Nunca na vida imaginara que lhe pudesse suceder algo assim. Ouvira falar do jovem príncipe português, mas haviam-lhe aconselhado calma. Assim que o vira, tão belo, tão sério, tão garboso sentira-se imediatamente atraída por ele. Não se parecia com nenhum outro nobre que até então conhecera. Não se referia ao aspecto físico mas ao temperamento. Era como se encerrasse em si um mistério. E estava disposta a aventurar-se na sua descoberta.Sentia como uma verdadeira princesa que era, a viver um conto de fadas. E sentia-se feliz por poder partilhar o seu segredo, a sua felicidade com elas. Todas falavam ao mesmo tempo mostrando o seu contentamento. Chegada a hora de se vestir, todas cumpriram as suas tarefas. A noiva, finalmente penteada, vestida, desceu dos seus aposentos rumo à felicidade.

  O príncipe mal dormira nessa noite. Encostado à janela do seu quarto, observando o claro luar que banhava as ruas, perguntava-se se o povo imaginava o sacrifício que iria realizar só para satisfazer o seu desejo de o ver casado. Seria o seu povo feliz? Poderia, ao contrário de si, escolher livremente a sua eleita ou estaria, como ele, sujeito à imposição familiar, já que estava liberto das razões de estado?

  Um pesaroso carro de bois tardio, gritando o esforço da subida, captou a sua atenção. A sua marca agigantava-se na alta parede de pedra, pintada pelos pincéis cinzentos da lua.

  Na véspera, à tarde, aproveitara para caçar. Era o único momento em que sentia verdadeiramente livre. O único em que era o caçador e nunca a caça. Era assim que iria passar grande parte do tempo de casado. Fora. A caça seria a desculpa ideal para se afastar de um local onde se sentia cada vez pior. Não fora a sua condição real, nada o ligaria àquele edifício e ao ambiente inerente. Resignou-se. Não havia estratégia alguma que o libertasse daquele sufoco. E da infelicidade que o esperava e à moça simpática que esperava muito de si. Mais do que alguma vez conseguiria dar. Não era como a maioria dos homens que conhecia que saltavam como coelhos de leito em leito, usando as mulheres como simples divertimento. Detestava este tipo de mulheres! Era homem de uma só mulher – a eleita.

  Afastou-se da janela inundada da intensa luz leitosa que mergulhava o quarto real num ambiente feérico. Sentou-se na cama e descalçou as botas. Gostava de fazer estas tarefas. Dava-lhe liberdade e, consequentemente, a tão amada privacidade. Deitou-se com os braços dobrados atrás do pescoço. Passou em revista os acontecimentos do dia. Uma única lembrança o alegrava – a bela jovem. Recordou os seus modos elegantes, a sua timidez, o seu recolhimento tudo misturado com uma candura saída do seu angelical rosto adornado de um sedoso cabelo loiro, um rosto estreito e bem delineado. Tudo nela era belo! Nenhuma mulher o prendera daquele modo e muito menos no primeiro olhar trocado! Nesse instante, ele tivera a certeza! A única alegria – continuaria a vê-la. Isso faria com que saltasse da cama com vontade de retomar cada dia as suas funções. Céus! Como gostaria de ter aquela jovem a seu lado! Como o mundo lhe pareceria menos perigoso! Mas não! Nada disso contava! Ninguém poderia entender a sua posição! Era como se não encaixasse no seu tempo! A vida, tal como era vivida, não lhe dizia nada! Não nascera com aquele espírito! Não encarava a vida com aquele ânimo leve!

  Cansado de tanta luta interior, deixou-se vencer pelo sono. Foi acordado pelo seu escudeiro que tocou levemente no ombro. Acordou sobressaltado, com o toque dos sinos! Estremunhado virou a cabeça na direcção do barulho e depois do rosto debruçado sobre si. Estava a hora! Tinha de se levantar, lavar e preparar para um dia de alegria para todos, menos para si. Suspirou e levantou-se na direcção da toalha. Observou-se ao espelho que virou do lado contrário. Vestiu-se maquinalmente, ajudado pelo cuidadoso rapaz que desde sempre o acompanhara. Tornara-se um bom amigo. Percebia o que se passava consigo. Não fora em vão que o acompanhara estes anos todos e em todas as suas aventuras! A forma como o olhara e colocara as mãos nos braços, mostrou-lhe que percebera o que se passava. Sabia de tudo! Fitou-o incrédulo. O piscar de olhos que se seguiu não deixou lugar para dúvidas. Endireitou-se para enfrentar o destino. Não estava só.

 

 

III

 

  Os festejos que se seguiram à cerimónia religiosa, passaram como num sonho. Tudo parecia irreal, envolto numa névoa densa. Toda a alegria parecia desenrolar-se a muitos quilómetros de distância, numa povoação esquecida do tempo. O corpo que se movia não era o seu. Parecia obedecer a um mecanismo autónomo à sua vontade. E deixava-se arrastar de círculo em círculo como um autómato. Esvaziara-se completamente. Julgara que seria mais fácil combater a vontade de fugir, de se refugiar na segurança dos bosques. A jovem a seu lado sorria entregando-se a uma felicidade que só ela sentia. Sentiu-se um malfeitor usurpando um sentimento não correspondido. Não tinha o direito! Ninguém tinha o direito! Mas como combater a vontade familiar e as pesadas razões de estado? Ninguém se lembraria que um rei feliz cumpriria melhor os seus deveres? Não falava das suas funções mas do sentimento que as acompanhariam. Era o preço a pagar por se nascer príncipe. Odiou-se e a toda aquela farsa que se desenrolava à sua volta. Abandonou estas ideias receando que o seu rosto o traísse. Voltou a esvaziar-se. Assim, não correria risco algum de passar a mensagem à moça que, tal como ele, não tivera a mínima hipótese de escolha. Não tinham culpa! Haviam sido apanhados nas armadilhas de estado que nada tinham a ver com o estado do coração. Imaginou a luz do bosque àquela hora do dia, que atravessava a folhagem em focos doirados abrindo brechas de luz no solo. O silêncio só interrompido pelos ruídos naturais de um animal fugidio ou de uma súbita batida de asas alarmada. Os passos dos cavalos que seguiam cautelosamente um trilho. Pensou ainda nas cavalgadas em campo aberto onde cavalos mediam forças entre si, esforçando-se para obedecer à vontade humana. Os risos no final de cada corrida, as mãos que se juntavam no final em sinal de amizade. O céu azul … foi então que a bela face surgiu junto de si. Por momentos juntou-a ao ambiente das suas recordações. Como se encaixava bem! Parecia retirada delas! Abandonou a dança e sentou-se. Já realizara o seu dever. Pelo menos, assim o pensava. Não lhe pedissem mais! Sentou-se aparentemente extenuado com o esforço. E não era físico! Já passara por provas físicas mais exigentes sem revelar tal cansaço! Era o esforço psicológico! Não sentia ânimo. E, agora, menos que nunca! Estava dividido entre o amor e o dever! E no casamento não há dever! Ali, pensava-se o contrário! Suspirou. Uma mão pousada no seu braço, trouxe-o de volta à realidade. A sua esposa segredava-lhe algo ao ouvido! Não ouviu, mas também não se esforçou, limitando-se a sorrir. Estava morto! Morrera nesse dia, como homem. O ser reinante, esse, continuaria desempenhando as suas funções. Mas, tanto quanto possível, usufruiria da liberdade que a sua condição de príncipe herdeiro lhe permitia.

  Aquela noite, tão esperada por tanta gente, iria ser protelada por ele. Não queria deitar-se num leito com um rosto belo, é certo, mas onde não havia paixão! Não se sentia preparado para mentir!

  O casamento acabaria por se consumar, para alívio dos reais conselheiros paternos. Viriam os nascimentos e as mortes e as longas ausências. Nos intervalos, a presença do fiel rosto amado que parecia ler no seu íntimo sentimentos e ideias que escapavam aos outros. Sentia cada vez mais necessidade de proximidade. Procurava-a já não só como jovem apaixonado, mas como homem. Trocavam algumas palavras que o deixavam esfomeado, como um mendigo. Precisava de mais. Era como uma necessidade. Os encontros tornaram-se mais frequentes. Até que acabaram por se consagrar a esse amor tão grande que os possuía.

  A corte, sempre atenta aos mexericos, acabaria por se acautelar. A inquietação queimava-lhes as entranhas. Que se passava? Olhos e ouvidos mantinham-se sensíveis ao último rumor.

  Sentindo o alvoroço à sua volta ou informados dele, os dois mantiveram uma dolorosa e forçada ausência. Mal se cruzavam. Mal se olhavam. Mal se viam! E quando se viam na necessidade de manter algum contacto mercê das necessidades palacianas, faziam-no com toda a gravidade da diferença de posições.

  Mas era tarde de mais! Os cortesãos e suas consortes imaginavam sempre um olhar esquivo, um gesto furtivo que os traía! Seriam culpados quer quisessem quer não! Não havia clemência para si! O que incomodava realmente os conselheiros reais, não era a sua condição de amantes. Afinal, todos os reis haviam tido as suas amantes, ao longo da sua enraizada genealogia. Era o sentimento que o acompanhava e que punha em risco tudo o que consideravam impossível de ser misturado. O sentimento forte que o unia à jovem senhora parecia ser importante e, desde logo, de interesse do estado. A delicada saúde da princesa e a terrível batalha contra as doenças que pareciam atacar impiedosamente a família real, pondo em risco a sempre almejada sucessão, que estava agora nas mãos de um pequeno e adoentado príncipe. A morte da princesa colocou em estado de sítio uma corte já toda alimentada de mexericos. O que aconteceria agora? Iria o príncipe assumir aquela relação? A má vontade contra a jovem que roubara os favores do herdeiro do trono aumentava. Sentindo a pressão crescente e temendo o que pudesse acontecer, o príncipe tomou uma decisão – retirá-la ao ambiente opressor que enchia os corredores dos palácios.

  Foi num manhã nevoenta. Saíram com a madrugada ainda estremunhada, aproveitando o silêncio palaciano. Em breve dariam pela sua falta. Mas ainda faltavam algumas horas, até darem pela sua falta. Ajudou-a a subir para a carruagem, que esperava longe dos olhares vigilantes das sentinelas, montando ele o seu amado e fiel cavalo. Seguiram a secreta rota planeada. Um suspiro de alívio soltou-se dos alicerces da sua alma. Olhou para trás para ter a certeza que não eram seguidos. O caminho estava livre. Descreveram a última curva que os afastava definitivamente do ambiente palaciano.

  O rumor da fuga dos dois amantes foi rapidamente descoberta. Todos se sentiam entorpecidos com a audácia do homem maduro que, até ali, parecia não se interessar por nada relacionado com a corte ou o reino, sempre mais interessado em folgar com o seu grupo de seguidores.

  O velho rei cofiava a barba preocupado. Não sabia o que pensar da repentina fuga do filho. Defendeu a primeira ideia que lhe veio ao espírito para se defender da corrente de mentes agressivas e sibilinas que nada conheciam do amor. Tinha de pensar. Para isso, precisava de estar só. Estar só, naquele momento, era sinónimo imperioso de clareza de espírito. Despediu-os num gesto que os deixou admirados. Eram amigos do rei e haviam-no acompanhado em todas as etapas da sua já longa vida, havendo-se mantido sempre fiéis. Muitos deles remontavam à época da querela que o havia oposto ao seu pai e aos irmãos bastardos. Sobretudo ao preferido do seu pai. Nunca esquecera esse momento, para ele, de grande traição paternal. O pai julgara o seu irmão bastardo com mais perfil para reinar do que o seu filho legítimo que havia, desde pequeno, sido preparado para tais funções. Mais do que as razões estatais, a honra levara-o a pegar em armas! Sentira-se ferido! Admirara, respeitara e amara muito o pai para aguentar uma afronta dessas. Agora encontrava-se perante uma situação semelhante. Pai e filho pareciam combater em hostes opostas. Não era uma questão de estado, mas não deixava de ser uma questão familiar. Respeitava o filho, mas tinha de pensar nas implicações da sua atitude. Resolveu desvalorizar tal preocupação, desviando a atenção dos conselheiros para outros assuntos. A saúde do único neto preocupava-o. Amava-o na sua condição de órfão. Tomara para si o papel de pai-avô.

  A desconfiança fê-los afastar o mais possível da temida selva palaciana. Qualquer lugar não era ainda suficientemente longe! A felicidade dos dois amantes desenrolava-se livre mas atenta. O tempo começou, pouco a pouco, a descurar a vigilância. Mais interessados na descoberta do sentimento e na felicidade que este lhes trazia, acrescentando rebentos à frondosa árvore do amor.

  Na corte, a vida retomava o seu alento mas sem o fulgor de outrora. Notícias chegavam regularmente de Coimbra. A sua família aumentara. Não eram nada más novas! Dada a débil saúde do neto, não era mau saber que a sucessão continuaria assegurada. Recebera mesmo um convite para os visitar. Não era preciso ser muito perspicaz para notar que todas as notícias eram acompanhadas de uma felicidade que raros homens na sua posição haviam conhecido. O seu filho vivia-a. Como pai sentia-se intimamente feliz por ele. Era o seu último baluarte contra a má vontade de uma corte desconfiada, revoltada e invejosa de uma felicidade e um amor únicos. Não queria que a má vontade o afastasse do seu único filho. Recusava-se a fazer com o filho aquilo que o seu pai fizera com ele. Compreendia-o. Ou, pelo menos, achava que sim. Também ele conhecera alguns momentos felizes. Afinal, não era isso que marcava um homem?

  Apesar da distância, a má vontade contra os dois amantes não diminuíra. Eram constantes as insinuações. Notícias chegavam continuamente. Algumas distorcidas, pensava. Continuava a desvalorizar a situação. Dedicava-se ao neto que preparava para um dia receber as rédeas do reino.

  Revoltados e inquietos com a aparente indiferença do rei, os conselheiros, alarmados com as notícias a que davam dimensões desproporcionadas, incomodavam sempre o monarca já cansado dos anos e das intrigas de estado. A sua tolerância para com o assunto já os indignava. Subitamente, um novo adversário ganhou forma. O povo, que até então se mantivera calado sobre o assunto, murmurava inquietações contra o jovem casal. De onde teria saído tal notícia? Quem se atrevera a levar para a praça pública semelhante assunto? Não acreditava nos seus ouvidos! Era um assunto familiar!

  Os rumores recrudesciam. Alguns deles não passariam de histórias deturpadas, mas nem por isso deixavam de ser inquietantes. Impor a sua vontade ao filho? Conhecia demasiado bem para acreditar que a sua vontade pudesse ter alguma influência no filho! Más influências? Receber visitas de familiares da mulher não o tornava necessariamente um conspirador internacional! O rei de Espanha estava preocupado? Não haveria necessidade para tal! Nem ele, nem o filho tinham vontade de colocar o reino numa posição difícil fosse porque razão fosse!

  Ninguém parecia ou queria compreender a posição do rei. Algumas vozes afirmavam, à boca pequena, que se encontravam às escondidas para debaterem assuntos de estado. Estaria o rei manipulado pelo filho? A sua devoção ao neto legítimo nada o faria supor. Então por que hesitava em tomar uma posição por dolorosa que fosse? Não era evidente? Não tinha provas que indiciassem uma conduta leviana da parte do filho! O que lhe chegava aos ouvidos não passavam de rumores, que assumiam os contornos da mentira. Não, não admitia que o rei do país vizinho se intrometesse nos seus problemas familiares. Que resolvesse os seus problemas, se os tinha, que ele cuidaria dos seus. Só um aspecto o desconsolava: precisava de paz para o resto dos seus dias e isso não acontecia. Já que não encontrar a felicidade que só o amor traz ao menos a paz para ver crescer o neto feliz. O último rumor quase o pôs fora dele! Não acreditava nos seus ouvidos! Agora, até o neto era envolvido na questiúncula! Não o menino propriamente mas o seu direito ao trono. Riu-se interiormente que a questão era séria! Testavam-no por todos os meios! O menino era o primogénito logo estava assegurado o seu direito ao trono. Nunca ouvira tamanho disparate. Estava cansado de tantos ataques. Como se não bastasse, o povo alimentava a inquietação contra a situação do filho. E se casassem? Talvez diminuísse ou até desaparecesse a questão! Não tinha nada contra uma linda e simpática rainha no trono que por ora lhe pertencia! Tarde de mais! Nada parecia acalmar as escaldantes desconfianças! A má vontade contra a bela e frágil senhora aumentara de tal forma que não era possível contorná-la. Depois, de onde vinham aqueles mensageiros sempre com novas tão frescas mas nada refrescantes? Sentia-se de mãos atadas. Sentia-se sobretudo cansado! O seu reinado não fora nada fácil e não estava a sê-lo! De onde saíam aqueles planos? Estariam malucos?! Não conheciam o filho? Estariam perdidos se tal acontecesse! Temia até pela sanidade mental do filho, mas não admitiu isto! Era demasiado! Perante tal insistência, dir-se-ia não haver outra solução. Mas havia. Tinha de haver. A morte nunca era solução. Não viam as guerras travadas? Só enfraqueciam as partes envolvidas. Passado algum tempo, as forças voltavam a unir-se e tudo se repetia. A morte não era solução! Andava de uma lado para o outro como um animal enjaulado. Sentia-se mesmo assim! Não lhe davam alternativa. Não pressentia nada de bom. Não a queriam no trono! Fitou-os com os olhos congestionados das noites mal dormidas. Que lhes interessava? O filho era novo e casaria depois? Santo Deus, não o conheciam? Tratariam de tudo? Só precisavam de protecção? Hesitou. O folho odiá-lo-ia para o resto dos seus dias. E já eram poucos! Sentia-se adoentado. Agoniado! Detestava ver-se na posição do filho. A culpa era sua. Nunca deveria ter deixado a situação ir tão longe! Deveria dar cobertura ao rapaz. Mas fora apanhado desprevenido. Fizera o que pudera, mas fizera-o mal. Agora, pagaria cara a factura! Nada mais havia a fazer. Tudo parecia escapar às suas velhas e enrugadas mãos que principiavam a tremer, sacudidas por um sistema neurológico corrompido com o avanço da idade. Ele, que controlara sempre tudo, via-se agora impotente para refrear um homicídio real. E tudo parecia conspirar para o seu sucesso. Tudo havia sido planeado. Não, não queria saber dos detalhes. Se tinham de o fazer, fizessem, mas que o poupassem aos detalhes! Nunca se perdoaria pela sua fraqueza!

 

   

 

IV

 

  Inês vivia um verdadeiro conto de fadas iguais aos que contavam na sua infância. Vivia com o seu príncipe, não se casara, mas era feliz e tinha os seus filhos. Não era assim que terminavam os contos de fadas? Tomava conta do seu lar com a ajuda do seu exército de criadas e criados que mantinham tudo a postos sob a sua orientação. A sua beleza, agora amadurecida com a maternidade, haviam sido acentuados com a felicidade que a sua doce pele transpirava. Era um lar como qualquer outro com crianças a brincar dedicando-se aos diferentes entretenimentos próprios da idade. O seu amado dividia a sua atenção entre a dedicação à amada, à caça e aos filhos. Tudo corria divinamente. Viviam num pedaço de céu. E apontava para cima, para uma nuvem branca que parecia um verdadeiro remendo no céu azul. “Estás a ver?”, brincava, “está ali o pedaço que falta”. E riam divertidos. “E não faz falta. Sabes porquê?” – continuava, encarando-a. Ao engraçado aceno negativo do bonito rosto, ele acrescentava – “Porque e nos estava destinado.”

  Permaneceram calados olhando a serena e volumosa nuvem. Sentada nos seus joelhos, um braço à volta do seu pescoço, ela sentia segurança. Poisou a cabeça loira no largo ombro. “Amanhã sempre vais à caça?”. Olhou-a com estranheza. “Porquê, não queres que vá? Sentes-te doente?” – perguntou, inquieto. Desviou a cabeça que acenou com determinação. “Não.”, foi a resposta categórica. “Não estou doente. Só antecipo as saudades. Nada mais.”

  A nostalgia da sua voz impressionou-o. Quase desistiu da ideia, não fosse a insistência da companheira que lhe sorria docemente. À sua frente, os campos estendiam-se para lá das colinas, murmurando cativantes segredos. O céu debruçava-se para acariciar os picos das árvores. Tudo transpirava harmonia. O fim da tarde trouxe a frescura própria da época. Entraram. A quente luz das janelas espalhava-se pela floresta circundante que encerravam no seu seio um terrível segredo. Olhos atentos espreitavam, encobertos pela noite, o amoroso e feliz lar. A notícia da partida do príncipe atraíra os predadores humanos que apertavam o seu cerco.

  A manhã espreguiçou-se, deixando antever um dia morno. Os cavalos esperavam ansiosos a partida batendo nervosamente com os cascos no empedrado. Depois das prolongadas despedidas, lá escapou, sorrindo aos formosos braços que o apertavam meigamente, para se juntar aos homens que o esperavam pacientemente, cobrindo-se da aragem fria da madrugada. Partiram a trote, com um saudoso príncipe a voltar o dorso constantemente para observar a sua amada que docemente o despedia meigamente da janela.

Os facínoras encolheram-se cautelosos nos seus esconderijos, acompanhando o possante trote dos animais. Observavam quem partia, sobretudo interessados em quem ficava. A satisfação preencheu-os. Seria mais fácil do que haviam imaginado! Entreolharam-se incrédulos! Desembainharam as espadas e avançaram cautelosamente atentos a qualquer imprevisto.

  A manhã já ia alta, quando os terríveis homens se aproximaram, ocultos pelo negro silêncio, calculando as milhas calcorreadas pelos belíssimos animais. Segundo as suas estimativas, já estariam bem longe!

  Não foi difícil iludir a vigilância inexistente. Espantaram a criadagem e as crianças que por ali brincavam, incitando-os a abandonarem o espaço, e entraram pelos aposentos da jovem senhora, arrastando-a para fora. Alarmada, não sabia o que pensar. Ainda mal desperta do sono violentamente interrompido, deixou-se levar impotente pelos poderosos braços. Uma angústia, originada pela incompreensão, dominou-a. Uma certeza a inundou – não mais voltaria a ver os seus. E não voltou. Afastados os assassinos e uma vez postas as crianças a salvo, dois criados regressaram tacteando o terreno a medo. Procuraram pela senhora, até a encontrarem sem vida. Debruçaram-se sobre o seu corpo sem vida, sem conseguirem conter as lágrimas. Era demasiado doloroso! O moço da estrebaria montou a cavalo e largou num galope desenfreado.

  Encontrou D. Pedro a algumas milhas de distância, acampado com os seus homens. Não estava? Precisava de falar urgentemente com ele. Uma desgraça acontecera. Um dos seus homens de confiança montou logo a cavalo e partiu no seu encalço. Voltou algum tempo depois acompanhado de um príncipe branco como a cal. Desmontou à vista do moço que lhe contou o que sucedera. Fora tudo muito rápido! As sentinelas da sua confiança haviam sido mortas. Haviam entrado em casa, afugentado a criadagem a quem pediram para se manterem afastados com as crianças. Quando haviam regressado já a encontraram morta. D. Pedro não ouviu mais nada. Montou o cavalo e golpeou-o indiferente às queixas do animal. Os outros seguiram-no mais atrás. À chegada, viram-no saltar do cavalo e correr para casa. Um uivo de dor trespassou a floresta como uma flecha, rasgando o ar. Encontraram-no debruçado sobre o cadáver. A vida não havia sido só arrancada à belíssima jovem, pior do que isso, havia sido roubada a um jovem sobre cujo espírito descera uma noite intemporal. Os dias que se seguiram ao desgraçado acontecimento, foram estranhamente calmos. Um príncipe debruçado sobre a dor, enclausurara-se num silêncio perturbador. Ninguém conhecia os seus pensamentos ou até se pensava. Impotentes, viam-no vaguear sem destino pela casa, pela floresta, pela vida. Nada parecia capaz de despertá-lo daquele magoado torpor, voluntário ou não. Umas vezes, parecia vazio. Outras, parecia maquinar algum plano secreto. Não fazia perguntas. Não dava respostas. Não dizia nada. Remetia-se para um silêncio torturado. Sempre fora um homem sensato pelo que nada temiam. Esperavam serenamente que recuperasse e lhes dissesse o que pretendia fazer. Manteve-se quieto, aquele espectro ambulante. Indiferente a todos e a tudo. Dedicava-se às suas actividades favoritas, mas sem o entusiasmo habitual. Precisava de manter o corpo ocupado, assim como a mente. Algo nele havia mudado. Não sabiam ainda bem o quê. Só lhes restava esperar para ver. Notavam algumas atitudes estranhas no seu comportamento que os alarmava. Se perseguia um animal esquivo, não desistia até o apanhar. Não porque necessitasse da sua carne ou da sua pele, mas por uma qualquer razão desconhecida, que não era prazer. Era uma espécie de vingança. Alarmados, entreolhavam-se, embora não o questionassem. Haviam-se habituado a confiar nele. Eram tomados de uma certeza -  havia mudado. Disso não havia a mínima dúvida. Mas não sabiam ainda a natureza dessa mudança. Tornara-se um pouco obsessivo com todas as empreitadas que tomava entre mãos, desde a mais insignificante à mais grandiosa. Mas não havia nada de grandioso na maneira como agia. Não havia nada de vergonhoso também. A sua solidariedade para com o ser sofredor, revelava-se no silêncio pungente em que viviam mergulhados. Não se afastavam, como se receassem que algo de semelhante lhe pudesse vir a suceder. Acompanhavam-no sempre que se ausentava, não porque lhes pedisse, mas porque sentiam que era seu dever, formando um bizarro grupo, as mentes torturadas ainda pelo choque do que sucedera. Quando estavam sós, a coberto da noite tardia, davam rédea solta aos seus torturados pensamentos. De onde partira a notícia da sua partida? Como havia chegado aos ouvidos errados? Haveria um traidor entre eles? Conhecendo-se há muito, depressa desistiram desta hipótese. E se o pavilhão se encontrava há algum tempo sob discreta vigilância? Se assim fosse, como haviam sido tão cegos? Quem havia decidido cometer aquele acto tão cruel quanto cobarde? Seria alguém da corte? Alguém da confiança do rei? Teria a ordem partido do próprio rei? A confusão e a estupefacção imperavam nas inquietas ideias ainda não refeitas do assassínio que apanhara todos desprevenidos. Quem a assassinara? Fitaram os pés, incomodados. Era a primeira vez que tinham a coragem de rotular o miserável acto. Como conceber um punho virado contra tão distinta estirpe sem o conhecimento da mais alta autoridade do reino? Sim, porque a teoria dos ladrões, concebida por espíritos atordoados, há muito que havia sido preterida.

  O tempo que dizem encarregado de curar todas as dores e ao qual atribuem os bálsamos apaziguadores, parecia não conseguir as melhoras desejadas. Se existem dores que o tempo cura outras existem, frente às quais o tempo se torna, sem dúvida, impotente. Seria uma excepção à regra ou uma regra para a qual não atribuíam uma excepção?

  Pouco a pouco, a vida foi retomando as suas rotinas. A estrutura que antes tinha albergado uma feliz relação tornara-se pouco mais do que uma espécie de aquartelamento ao príncipe e seus leais servidores. A alegria desaparecera das janelas. Os rituais marciais substituiriam as do lar. Subtis vozes masculinas falando num tom baixo e grave, pareciam guardar um túmulo.

  As notícias mais recentes davam conta da próxima morte de seu pai. Estava a um passo do trono. Teria de voltar ao paço que sempre detestara e às companhias que sempre evitara. Os amigos acompanharam-no. Estranhavam algumas das suas decisões e atitudes mas respeitavam-no e mantinham-se fiéis. Uma espécie de febre parecia persegui-lo. Uma espécie de vingança mascarada de justiça. Subiu ao trono. Ao seu lado, sentou a mulher que tanto amara e que fizera coroar rainha. Desenterrara-a para receber a honra que lhe era devida. Fora e era a sua rainha. Os cortesãos prestaram-lhe a devida homenagem. Os algozes foram perseguidos e mortos.

  A partir daqui, o rei vivia como numa outra espécie de sonho-pesadelo, fazendo o papel que dele esperavam. Dormia com as mulheres que lhe matavam as saudades da amada. Teve outros filhos. Governou o reino, atravessando-o para perseguir todos os que eram acusados de injustiças.

  Foi, ao que parece, um rei querido pelo povo, ao contrário do que se poderia imaginar. O mesmo povo que, numa incompreensão e intolerância total para com a paixão do seu jovem príncipe, se insurgira contra ela tornando-se, indirectamente, cúmplice da injusta e precoce morte.

  O seu filho primogénito, D. Fernando, sucedeu-lhe no trono, tal como o avô previra e o pai nunca colocara em causa, sucumbindo, também ele, a uma paixão atroz.

publicado por fatimanascimento às 21:20
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