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Domingo, 11 de Abril de 2010

Inês e a tabuada

Segunda-feira. A tarde quente acompanha o sol na sua viagem circular. Ao contrário das outras sempre cinzentas, húmidas e escuras, este dia trouxe um sabor prematuro a Primavera. Na rua calma, esvoaçam pequenos pássaros numa dança exótica. Os eucaliptos dançam ao sabor da brisa e cantam louvores ao astro destapado pelas implacáveis nuvens. É um dia especial. As paredes, de onde escorrem desagradáveis tintas azuis, abrem os braços ao ar queimado pelos raios solares. Da casa ao lado, o silêncio marca a ausência de seres mergulhados em tarefas distantes.

São duas horas. A campainha da escola marca o fim do matinal período escolar. Inês corre para o enorme pátio em busca do largo rosto engelhado da avó materna. Encontra-o do lado de fora das grades junto ao rosto fiel e submisso do avô que pergunta constantemente quem é que anda naquela escola. A esta pergunta a avó vai respondendo com alguma impaciência. A doença faz esquecer o avô. A sua memória mais recente não retém informação, funciona como um saco vazio. A resposta entra no cérebro para logo fugir por um qualquer sítio mágico.

Inês traz às costas a mochila com o material escolar. É pesada mas não se importa. Trocou-a há dias pela sua pasta de rodinhas da qual já está saturada. Imita os irmãos ou as colegas ou talvez esteja farta de arrastar atrás de si um peso que lhe limita os movimentos. É pesada mas não se importa. Prefere assim. E não há argumento que a possa demover.

Apanharam o autocarro que os levará até metade do trajecto que leva até casa. O autocarro não está muito cheio, mas os poucos lugares sentados estão, quase todos, ocupados. O único banco livre é ocupado pelo avô que tem muita dificuldade em se equilibrar nos saltos e curvas desenhados pelo autocarro. Inês observa o ambiente à sua volta. A maioria das pessoas que viaja no pequeno meio de transporte é idosa. Algumas admiram a paisagem como se a avistassem pela primeira vez ou como se tivesse sido atacada por uma alteração muito curiosa ou sensacional. Duas idosas não param de tagarelar referindo-se a eventos e pessoas desconhecidas. Inês, de pé, junto da avó, tenta equilibrar-se o melhor que pode. Subitamente, sente os olhos das duas conversadoras poisarem na sua pequena estatura séria. Desconfiou. Não gosta de pessoas que falam de outras. Iriam referir-se agora a si? Desviou os olhos timidamente. Uma voz alta sobrepôs-se ao ruído do motor do transporte.

- A menina tem uma mochila muito pesada às costas. Só faz mal à coluna.

A outra concordou, tendo ido logo buscar uma quantidade de desgraças de que tivera conhecimento durante toda a sua vida.

Inês detestou as duas senhoras. O que é que elas tinham a ver consigo?

Desviou a cara para a face da avó. Em cheio! Era ainda pequena mas já percebia que certas afirmações feriam a dignidade da avó. Iria arranjar discussão por aquilo. Mergulhou o olhar duro nas duas impertinentes senhoras.

Saíram na primeira paragem aguardando calmamente a chegada do outro que os levaria até ao fim da linha. Não demorou muito. A avó, num gesto brusco, puxou a pesada pasta das costas da neta e colocou-a bruscamente no chão. Uma ameaça de discussão perpassou o ar impregnado de água. Com a visão nublada, Inês sabia que aquela era a reacção consequente da observação realizada pelas senhoras. Não haviam dito nada de novo. Toda a gente sabe que os pesos fazem mal ao esqueleto humano e que as pastas dos meninos são muito pesadas, fora o tom utilizado que ferira os sentimentos da avó. Ficou quieta e determinada. Continuaria a carregar o pesado saco até que lhe apetecesse. Todos faziam o mesmo. Não havia volta a dar ao assunto. A não ser que deixasse algum material em casa… Era parvoíce. Resolveu pensar noutro assunto. Estava ansiosa por chegar a casa e fugir daquela irritante chuva que os mergulhava a todos numa disposição terrível. E em casa estava a mãe que a ajudaria nos trabalhos de casa, logo que acabasse de almoçar. Era bom ter a mãe em casa, apesar de estar doente. Inês sentia-se impaciente.

O autocarro parou afastado do passeio evitando molhar as pessoas que rodeavam cuidadosamente o inesperado lago artificial, comodamente alojado no alcatrão.

O calor desprendido do veículo reconfortou-os. Este estava mais vazio e havia espaço para se sentarem todos. Inês ocupou um lugar junto do vidro enquanto os avós se sentavam do outro lado do corredor, na mesma fila. Agora era um instantinho!

Na nacional, as pessoas afastavam-se cuidadosamente para a berma da estrada permitindo aos transportes cruzarem-se facilmente, sem correrem o risco de serem apanhadas.

A casa da Inês fica fora do centro da localidade onde vive. Só há pouco tempo a Câmara disponibilizara transporte capaz de levar as pessoas dos arredores até à cidade. Acabara-se o isolamento. Da paragem até ao seu acolhedor lar, teriam de caminhar uns escassos trezentos metros sobre um passeio largo.

Numa corrida ligeira, protegida pela sua longa capa vermelha, a menina depressa tomou a dianteira para abrir o portão e a porta de entrada.

Descalçou as botas e subiu ao primeiro andar para abraçar a mãe e contar-lhe as novidades, enquanto os avós se instalavam no piso inferior arrumando peças de mercearia trazida do carrinho das compras.

Vestiu o fato de treino e voltou a calçar as pantufas. Pendurou a roupa na cadeira e sentou-se na cama ao lado da mãe.

Retirou o caderno da pasta e o estojo. Trazia trabalhos de casa de Matemática. Está a aprender as tabuadas do dois, do três, do quatro e do cinco. As contas com transporte são também um grave problema para si. Como é muito distraída, esquece-se sempre dos números que vão de trás na adição e na subtracção. A mãe está a ajudá-la. Divertem-se muito juntas. Se se enganam riem-se muito e voltam a concentrar-se na matéria estudada.

O Avô, a certa altura, incentivado pela avó, juntou-se-lhes. Já tinham ultrapassado a fase das contas, estavam agora a tentar memorizar a tabuada. O avô sentou-se na cadeira disponível aos pés da cama, virado para elas. Estava muito atento ao que diziam. Subitamente, a mãe lembrou-se de o integrar na brincadeira afastando-o do seu mutismo. E começou a brincadeira da tabuada. Quando Inês não respondia, o avô, com a rapidez de uma calculadora, respondia correctamente a todas as questões. Inês, mais atrasada virava-se admirada para o seu idoso avô. Espertas, as duas experimentaram toda a tabuada e… ele acertou em todas. Se Inês o tentava enganar, na brincadeira, ou se enganava, ele respondia prontamente que era mentira corrigindo de seguida o erro.

Passados uns instantes, a avó, alertada pelo alarido dos risos e das palmas batidas ao sucesso do idoso, juntou-se-lhes admirada com a habilidade do marido. A doença ainda não matara a sua memória mais longínqua. Pelo menos não atingira ainda a escolar.

- É bom saber a tabuada e responder assim depressa – observou Inês admirada.

- Para tal – respondeu a mãe – terás de a repetir muitas vezes até a saberes.

Inês ficou pensativa. Se fosse sempre como naquela tarde, até que seria divertido aprender a tabuada. As contas eram divertidas!

publicado por fatimanascimento às 17:31
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