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Sexta-feira, 25 de Dezembro de 2009

A menina e o espírito

Paulina não sabia mas nascera diferente. Não era diferente fisicamente, mas havia algo nela que a diferenciava dos outros. Mas ela não dava por isso. Na sua inocência, encarava tudo com naturalidade. Não se apercebia da maldade, mesmo em crianças da sua idade. Adorava brincar, e, à falta de crianças em casa, procurava as da sua rua, para lhe queimarem a solidão de casa. Com a idade essa diferença acentuara-se. Havia algo nela que as outras não tinham. Em casa, não lhe falaram de nada. O mundo da espiritualidade resumia-se às orações pronunciadas, com toda a sua alma, antes de cair no sono cansado. Como não tinha contacto com o mundo espiritual, os pais, sobretudo a mãe, recusara-se a contar-lhe o que a diferenciava dos outros meninos. Mas estes sabiam. E não eram raros os que se aproveitavam dessa vantagem. Tudo começou, então na sua infância. As suas companheiras de brincadeiras olhavam muitas vezes para a sua auréola, parando as brincadeiras. Paulina não fazia a mínima ideia do que se passava. Desconcertada, limitava-se a ficar parada à espera que as colegas resolvessem continuar. Só mais tarde o mistério se clarificou. Já era tarde de mais! Nas suas aparentes brincadeiras perdera muito do seu futuro. E só vinte anos mais tarde daria conta disso mesmo. As pequenas com quem brincava, não eram suas amigas. Aliás, nunca haviam gostado dela: haviam-se servido dela. Tudo isto lhe foi contado pelo seu velho amigo, que encontrara muitos anos depois. Ele contou-lhe tudo!

  Paulina sentou-se frente à lareira com a cabeça apoiada nos braços dobrados sobre o joelho. O seu espírito ainda se mantinha fiel, como uma grande luz sobre a sua frágil cabeça. Como podia existir tanta gente má neste mundo? Como é possível que se tenham aproveitado da sua ignorância e da sua pureza para lhe destruírem a propriedade intelectual do seu passado, presente e do seu futuro? Tudo começara na sua infância para continuar pela sua vida fora.

  Segundo o velho Tomás, as suas duas companheiras, instigadas pelo pai de uma delas, precisamente aquele que Paulina sempre percebera que a odiava, (nem se dera ao trabalho de esconder isso da criança que era então), limparam muitas das obras que viria a escrever na sua adolescência e juventude e na vida adulta, sobretudo as mais volumosas que seriam as mais cobiçadas, da sua memória deixando nela um irreparável vazio. Tudo isto arrastara o seu êxito, deixando o que restava, para um período adiantado da sua vida. Mas não seriam estas as únicas. Aliás, estas haviam-se dado a um descanso forçado, uma vez que outras pessoas seguiriam o seu exemplo ao longo da vida de Paulina. Até o momento do seu êxito seria depois decidido por uma colega que conhecera de outra faculdade. Tinha visto que um dia seria famosa e encarregar-se-ia, com a ajuda daquelas pessoas que ganham a vida perdendo a das outras, de limitar o sucesso de Paulina à editora que um dia seria sua. Tal como um animal de enormes proporções arrastava atrás de si imensos e pesados parasitas.

  “Estranho”, pensava esta, debruçada sobre os joelhos na direcção da cálida lareira. Tinha consigo um espírito que não lhe valia de nada. Só ajudava os outros a prejudicá-la. Sim, porque tratando-se de um espírito bom, não reconhecera o mal espiritual que outros lhe fizeram ao longo da sua vida. Estava tudo tão claro agora! Muitas das situações para as quais não tivera explicação até então, agora tinham lógica. O seu arranque para o mundo da escrita havia começado tarde, embora tivesse começado cedo. Mas não justificava até as perdas do que construíra. O interesse de pessoas que se haviam chegado a si e que resultariam também no furto das obras que já não iria edificar. Pensou nas pessoas que gostariam de ter tido oportunidade de conhecer as mesmas e no prestígio que isso traria ao país, retirando-o da sua marginalização cultural. A inveja tomara conta das pessoas que com ela se cruzariam durante estes anos todos e que lhe arrancariam um pedaço de si, como sôfregos animais selvagens. Esta era a selva humana, na sua pior demonstração. O que mais a revoltava era a sua passividade perante tanta crueldade! Nunca tivera oportunidade de se defender. Todos haviam violado o seu espaço de memória como se de um disco rígido de um computador se tratasse! Sem qualquer tipo de sentimento ou arrependimento. Eram autênticos vírus alimentando-se do mal causado e, provavelmente, a outros. Lembrava-se de colegas de profissão, todas elas professoras também, que também não tinham resistido a decepar-lhe a memória. Uma profunda angústia invadiu-a. Mais recentemente, lembrava-se de outra colega que lhe invadira o lar para conseguir não só fazer-lhe mal como também para lhe roubar, para a filha uma obra que lhe pertenceria. Aliás, não resultara a escrita do rebento da colega, então sua vizinha, numa tão semelhante à sua? Nem mesmo a sua suposta admiração pela escrita de Paulina poderia justificar tal semelhança! Conhecera tanta gente medíocre na sua vida! Agora percebia o seu interesse nela. Logo nela, tão diferente delas! Pudera, só assim conseguem algo na vida! Ou não! Muitas delas só querem mesmo destruir, evitando que as outras consigam alcançar os seus objectivos na vida. Depois, o mundo espiritual revelara-se promissor a todos os níveis. Era negado pelo comum cidadão pelo que a impunição era total e não havia quem julgasse tais atitudes. Todos os que se apercebiam disso, horrorizados, faziam de conta que não haviam dado por nada!

  O que iria fazer? Como recuperar essas queridas obras que haviam morrido no escuro ventre da sua memória? Como haviam essas pessoas conseguido tal proeza? Virou-se para o idoso que fitava as chamas com uma calma traída pelo temor da sua voz.

  A voz do velho Tomás enterneceu-se. Haviam apagado o estímulo que originara a ideia para o enredo da narrativa. O silêncio rompeu em lágrimas. Deslizavam pela face onde as trémulas chamas pintavam as suas brilhantes cores quentes.

  “Meu Deus, nunca fizera mal a ninguém que justificasse aquele assassínio de memória! Ninguém tinha o direito de fazer tamanha monstruosidade!, a lamentosa voz, entrecortada pelos soluços, cortava o doce silêncio imperial amenizado pelos murmúrios das chamas.

  Por que é que os pais nunca lhe haviam contado nada? A sua amiga Rosa, sentada ao lado de Tomás, lançou mansamente que havia sido uma escolha sua. “Mesmo que errada?”, revoltava-se Paulina entre lágrimas.

  Recordava-se ainda dos seus jovens tios que, alguns anos antes, lhe haviam revelado o segredo tão religiosamente guardado pelos pais, julgando precisamente que estes lhe haviam contado tudo! Ficaram tristes ao apurarem a verdade. Eles não compreendiam o mutismo da irmã e do cunhado referente a um assunto como aquele. Compreendia-os. Tivera dois grandes espíritos bons que a haviam acompanhado grande parte da vida. Nenhum a protegera, embora se esforçassem. Haviam sido, também eles, meros joguetes em mãos caprichosas e más. E dava para fazer de tudo! Até decidir a hora da morte de uma pessoa! Sabia que o seu ex-marido, com a ajuda da mãe, lho preparara. Estava toda armadilhada. Perdera um terceiro espírito, este mau, depois de uma longa luta com a ajuda de orações. Este acompanhara-a desde a nascença, e, surpresa ou não, era um antepassado da sua ex-sogra. Voltara a si, com a ajuda do seu ex-marido, depois de uns bons meses de doce interregno.

  A única conclusão tirada de todo aquele terrível manancial de informação era que não deviam existir tais espíritos. Se ela passara bem sem recorrer a eles por que é que os outros se haviam mantido tão dependentes? Pareciam não poder passar sem tais ajudas!

  O que iria fazer? Segundo Tomás e a amiga só havia uma solução recuperar todas essas obras e escrevê-las mostrando a todas essas pessoas medíocres que o mal não compensa. E se quisesse denunciar a situação? Tomaria as duas atitudes!

  Paulina acenou afirmativamente erguendo o rosto inchado pelas lágrimas. A denúncia era também absolutamente indispensável. Não poderia deixar que outras crianças, adolescentes ou jovens estivessem sujeitos a tais situações. Havia que alertar os pais. Havia que alertar o mundo se queria criar um futuro melhor para todos, sem excepção! Se calhar, não passara em vão por tanto sofrimento, tão longamente guardado, e com tantos cúmplices envolvidos. Havia que levar as pessoas a procurar informações e a acautelar-se com situações semelhantes ou outras.

  As linhas do rosto distenderam-se revelando toda a esperança contida na sua alma, momentos antes obscurecida!

publicado por fatimanascimento às 16:42
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