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Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Inês e o divórcio

- Mãe, é verdade que o pai saiu de casa por causa de mim?

  A mãe de Inês olhou para a pequenita, incrédula. Como é que um ser tão pequeno pode já colocar uma questão daquelas? Tinha apenas três anos! Olhou para o ar desamparado e triste da filha. O rosto largo e moreno sempre alegre, de onde sobressaíam duas salientes maçãs do rosto, as sobrancelhas grossas que emolduravam os grandes olhos castanhos escuros, os lábios estreitos e largos que se abriam espontaneamente para soltarem genuínas gargalhadas revelavam, naquele momento, uma forte tensão emocional… O coração maternal gelou. Onde fora ela buscar semelhante ideia? Já ouvira pessoas comentar, na sua presença, que a última gravidez fora a responsável pelo término da relação do seu infeliz matrimónio. Como é que alguém de fora pode avaliar justamente uma relação? Como as pessoas gostam de falar daquilo que não sabem! Será que alguém, na sua ausência, teria feito algum comentário a esse respeito na presença da criança? Sentiu a revolta crescer dentro de si, por momentos. Quem fizera uma maldade semelhante? Já imaginava a cena: uma pessoa em casa da avó materna de Inês, falando incorrectamente do passado e a criança, na altura a brincar nas imediações, acompanhara a conversa dos adultos. Como viram a criança distraída a brincar, pensaram que ela não acompanharia a conversa. Como os adultos estão enganados acerca das crianças! – pensou a mãe – Que maldade!

  Lutou desesperadamente contra o sentimento de revolta que se apoderara dela e acalmou-se para poder falar com a filha que esperava ansiosamente, a aflição a balançar-lhe os olhos. Olhou, ternamente, aquele ser pequenino que falava num fio de voz. Desceu ao tamanho da pequena, olhando-a directamente nos olhos, enquanto lhe segurava as rechonchudas mãos pequenas, sorrindo.

  - Não, não é verdade. A história está errada. O pai não saiu de casa por causa de ti, nem de ninguém. Eu vou contar-te tudo, para que tu nunca mais tenhas dúvidas acerca disso, está bem?

  A menina suspirou aliviada. Acenou afirmativamente, enquanto se preparava para escutar o que a mãe tinha para dizer. Estava muito interessada na história que instalara no seu coração um sentimento de culpa que lhe consumia a alma como um monstro devorador e cruel. Mal conhecia o pai. Não o visitava como os irmãos faziam. Ele não a levava porque era ainda muito pequena para estar longe da mãe e ela também nunca quisera ir. O único sentimento que a invadia era a saudade originada pela ausência dos irmãos mais velhos que adorava. Perguntava, muitas vezes, quando é que eles regressariam. Como explicar o tempo a crianças tão pequenas? A mãe falava da noite e do sono e da manhã que se lhe seguia, mas, embora esforçando-se por seguir a explicação dada, a gaiata perdia-se algures entre sonos e refeições. E a pergunta repetia-se constantemente. Sentia-se segura sentindo a família unida.

  Inês poisou os seus olhos nos da mãe, esperando o começo da narrativa. A mãe sorriu ao evidente interesse da filha! Era importante para ela saber a verdade. Nunca lhe passaria pela cabeça mentir aos filhos fosse porque motivo fosse, mesmo que isso implicasse algum sofrimento. Jamais o fizera e não era ali que iria começar. Nem mesmo para proteger os filhos o faria. Talvez porque nunca acreditasse na mentira. Sempre defendera que só a verdade, por mais dura que fosse, libertaria o ser. Naquela situação, tratava-se de destruir uma mentira hipócrita e injusta que envenenara escusadamente o espírito da sua filha mais nova. Como fazê-lo de forma a que ela compreendesse tudo? Era importante que isso acontecesse. Urgente mesmo, dado o estado emocional em que a mentira a prostrara. Só havia uma maneira – contar a história como se de um conto de fadas se tratasse. Assim fez.

  - Sabes – começou lentamente a mãe – o pai e a mãe já não gostavam um do outro. Andavam tristes porque não eram felizes um com o outro. – a voz saía triste, procurando mais que a menina intuísse do que compreendesse – Então, um dia, o pai encontrou a Susana e gostou muito dela e ela gostou muito dele.  – o tom de voz, aqui, alegrara-se de esperança – Os dois eram muito felizes juntos, brincavam, riam muito e resolveram ficar juntos sempre.

  - E tu, mãe? – perguntou a pequenita.

  A mãe sorriu alegremente e sentou-se pegando nela ao colo, sem nunca despregar os seus olhos dos da filha.

  - E a mãe é muito feliz com os seus três meninos! – concluiu alegremente.

  A mãe viu os olhos da garota iluminarem-se. O peso cedera lugar ao alívio. A pouco e pouco a alegria de uma narrativa com um final feliz tomou conta dela. Olhou a mãe entusiasmada. Da pequenina boca saiu a história recontada na sua meiga voz de criança. A alegria contida nela apaziguou o coração da mãe. Tinha desfeito a má impressão que a mentira causara na filha. Ouviu tudo sem interromper, seguindo o entusiasmo da menina que crescia à medida que a história se aproximava do fim.

  Os bracitos apertaram-se à volta do pescoço da progenitora.

  - Obrigado, mãe. – a voz retomara a serenidade própria de alguém que acabara de recuperar o seu equilíbrio emocional.

  Voltou-se para os brinquedos que esperavam por si, na sala da avó.

  Lá fora, as nuvens cediam lugar ao sol que as empurrava numa tentativa desesperada de perceber o que se passava com a menina, sempre tão alegre e descontraída. Espreitou pela janela larga da sala. A vida parecia ter retomado a serena rotina. Ficou intrigado e aborrecido por perceber que já não iria a tempo de compreender o que se passara naquela sala, mas feliz porque tudo havia terminado bem.

 

 

publicado por fatimanascimento às 12:38
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