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Quinta-feira, 16 de Outubro de 2008

Inês e a lua

Inês andava fascinada com a lua. Olhava-a, naquelas noites de verão, lá no alto, destacando-se, muito redonda e luminosa, dos outros pequenos pontos brilhantes incrustados no veludo escuro do céu. Admirava as formas que se destacavam nela e que a luz realçava. Amava a lua e habituara-se à sua presença, noite após noite. Chamava-lhe amiga e conversava com ela. Abria o seu coração àquela imensa bola de luz branca que lhe fazia companhia sempre. Nunca faltara ao seu compromisso para com ela. Inês sabia instintivamente que podia confiar nela. Encostava-se ao muro da casa onde habitava e falava alto, na sua voz pura de criança. A lua, lá do alto, escutava atenta e maravilhada com as suas confidências. Já conhecia o mano mais velho da Inês, a mana do meio e a mãe, com quem vivia. À noite, a lua sempre esperava por notícias dela e da sua família. E, todas as noites, Inês lhe dava conta das suas tristezas e das suas alegrias. Ela já sabia quais eram os seus brinquedos favoritos, e o sítio onde gostava mais de brincar. Conhecia também a sua casa e o seu quarto. Quando Inês se deitava, ela inundava o quarto com a sua luz, para que ela a visse bem e sorria-lhe até ela adormecer. Uma vez adormecida, a lua vigiava os seus sonhos, iluminando-os com a sua luz mais pura. Era assim todas as noites. A lua e a Inês fundiam-se numa cumplicidade amigável que parecia não ter fim. Mesmo durante o dia, Inês esperava o momento nocturno em que podia ver a sua linda amiga e conversar livremente com ela. A hora preferida delas era aquela que se seguia ao jantar e, enquanto os irmãos e a mãe arrumavam a cozinha, ela saía para o pátio da sua casa, encostava-se ao gradeamento ou ao muro, de onde podia ver bem a sua amiga e lá começava ela a sua conversa. Era a sua amiga favorita, aquela que lhe dedicava toda a tenção que ela precisava e merecia durante aquelas noites. Os irmãos e a mãe observavam-na sem nada dizerem. O irmão, muito mais velho do que ela, admirava-se com a pureza daquela amizade. Comentava baixinho com a mãe aquela estranha amizade, mas a mãe proibira-o de lhe dizer fosse o que fosse. Aquele era o momento da sua irmãzinha, mesmo que ele não entendesse nada. O irmão respeitou, também avisado pela irmã do meio. Todas as noites, se repetia a mesma cena, já habitual para todos. Mesmo os vizinhos da casa ao lado, embora parassem e estranhassem, no início, acabaram por achar piada e sorriam à conversa da pequenita. Desta forma, Inês tinha toda a liberdade para aprofundar a sua amizade com a sua invulgar amiga.

   Um dia, o ar pareceu ficar suspenso e o céu encheu-se de nuvens cinzentas e ameaçadoras. Inês olhava o céu com apreensão à medida que as horas passavam no relógio da sala. Que dia estranho aquele! A temperatura descera e o ar estava fresco na rua. Do céu, caíam grossos pingos de chuva que se esborrachavam no chão, molhando tudo. Inês abria a porta e espreitava o céu. Uma súbita e intensa luz rasgou o céu, cegando-a momentaneamente, logo seguida de um som rouco e profundo que a fez estremecer. Sacudiu a cabeça e entrou em casa. Ela não gostava nada daquele dia e estava ansiosa que chegasse a noite para contar à sua amiga a terrível experiência por que acabava de passar.

   À hora do jantar, o irmão confidenciou à mãe:

   - Estou para ver como é que vai ser esta noite. Não há lua!

   A mãe observou a sua pequenina que aguardava o momento para ir ao encontro da sua amiga.

   - Eu falo com ela. – sossegou-o a mãe, murmurando baixinho e evitando que ela ouvisse.

   Inês continuava distraída. Logo que o jantar terminou, Inês afastou a cadeira da mesa e dirigiu-se ao pátio da casa. Olhou para o céu e esperou.

A mãe e os irmãos admiravam a sua paciência do lado de dentro da janela. Estava encostada ao gradeamento, só que permanecia calada. Ficou lá durante muito tempo. A mãe, ao ver que se demorava, foi até ela, devagarinho, para não a sobressaltar. Inês estava muito calada e não olhava para o céu. A sua cabeça, inclinada para a frente, era o reflexo do desânimo. A mãe sentiu uma grande compaixão para com aquele pequeno rosto triste. O seu cabelo escuro, encaracolado nas pontas, tapava-lhe o rosto de maçãs salientes, os rasgados olhos castanhos-escuros observavam insistentemente o chão, o queixo largo descaído e os lábios largos e finos abertos eram um retrato vivo e comovente. Dos olhos desciam largas estradas de água até ao queixo, impulsionadas por pequenas ondas salgadas.

   - Mãe, a lua não veio. Eu esperei por ela e ela não veio! – murmurou ela com voz entre cortada.

   A mãe voltou-a cuidadosamente para si, agachou-se e sentou-a nos seus joelhos.

   - Não, filha. Ela está ali em cima. – murmurou serenamente ao ouvido da pequenita. – Ela está sempre ali em cima!

   A pequenita abriu muito os olhos:

   - Como se eu não a vejo? – perguntou ela triste, inspeccionando o céu.

   - A lua está sempre lá, as nuvens é que não a deixam ver: tapam-na. A lua continua lá e estará sempre para ti. Ela também gosta muito de ti. Não te esqueceu. Ela é tua amiga! Uma amiga nunca esquece outra. Só as nuvens não permitem que vocês se vejam. Mesmo que tu não a vejas, e ela a ti, a lua sabe que tu estás aqui e que estás triste por não a ver. Também ela está triste. Mas podes falar com ela, que ela ouve. Depois, as nuvens vão-se embora e amanhã tu já a poderás ver. Não é porque tu não a vês que ela lá não está. Sempre que noites cheias de nuvens apareçam para vos afastar, tens de senti-la no teu coração e terás uma amiga sempre. E ela também. Agora vais dormir, e vais falar com ela na mesma que ela ouve e está ansiosa que lhe contes tudo!

   No rosto de Inês transpareceu um brilho que se assemelhava ao da sua amiga lua. Entrou em casa, vestiu o pijama e deitou-se a olhar o céu invulgarmente escuro, falando na sua voz pura de criança com a sua amiga lua, que esperava por ela atrás das nuvens. Falou serenamente na certeza que, quando acordasse, ela veria a sua amiga do coração. Afinal, tal como dissera a mãe, as nuvens não tinham vindo para sempre! 

 

 

Fátima Nascimento Outubro de 2008

 

publicado por fatimanascimento às 14:49
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