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Terça-feira, 12 de Agosto de 2008

Os dois estranhos

Era uma vez dois peixes diferentes de todos os outros daquela aldeia. Chegaram, uma noite, vindos não se sabe de onde. Chegaram num estado lastimável e todos haviam sentido medo, negando-lhes qualquer espécie de ajuda, incitando-os alguns a abandonar aquela aldeia, porque não gostavam de estranhos. Como eles se arrastassem por ali, os habitantes da pacata aldeia nunca mais se sentiram seguros. Como não sabiam nada sobre eles, a presença daqueles peixes estranhos era sentida como uma ameaça por todos. Todos tentavam arranjar explicações para as suas aparências, tentando também descortinar as suas intenções ao permanecerem por ali, quando sabiam que não eram desejados naquela povoação. Começaram então a inventar-se histórias sobre eles, que aguçavam o medo e a insegurança dos pacatos aldeãos. Aquela aldeia fora até ali, um local seguro e aprazível para se viver e não permitiriam que dois desconhecidos, vindos sabe-se lá de onde, lhes viessem perturbar a segurança a que estavam habituados. A presença daqueles peixes era uma ameaça para a comunidade. Sabiam lá eles o que viria atrás deles… a sua presença, não augurava nada de bom.

   Quando eles se aproximavam da aldeia, as ruas tornavam-se desertas como se tivessem sido varridas por uma gigantesca vassoura invisível. As mulheres entravam apressadamente em casa, arrastando atrás de si as crianças arrancadas violentamente às brincadeiras e que barafustavam ruidosamente perante aquela atitude brusca das mães. Só alguns homens permaneciam na rua erguendo-se como um muro e impedindo-lhes a passagem. Aqueles estranhos visitantes andavam sempre juntos. Eles paravam, olhavam-nos directamente nos olhos ferozes e depois à sua volta, como se avaliassem o perigo por momentos, cortavam então no atalho mais próximo, evitando o confronto com os sorridentes habitantes que se entreolhavam orgulhosos da sua atitude. Haviam afastado o perigo. Os dois peixes estranhos naquelas paragens, tinham na memória o último encontro desastroso com a população da aldeia. Eles caminharam ao longo da rua deserta e encontraram um peixito a brincar com as bolhas de ar. Ele estava tão absorvido que nem viu aqueles peixes estranhos, de quem toda a população falava, aproximarem-se dele. Indiferente ao que se passava na aldeia, aquele peixito que passava os dias a brincar na rua, enquanto os seus pais trabalhavam, descuidara-se e deixara-se levar pelo entusiasmo da brincadeira e não vira como a rua se esvaziara a dado momento. Habituado a estar só e a arquitectar o seu próprio mundo de fantasia, ele permanecera ali, alheado a tudo e a todos. Foi então que uma das bolhas de ar seguiu a direcção dos forasteiros e se colou a um deles. O grande peixe pegou cuidadosamente naquela bolha e estendeu-a gentilmente ao peixinho. O peixito agradeceu a devolução da sua bolha de ar e olhou para o forasteiro, para a barbatana que detinha a bolha de ar, depois, para os olhos sorridentes e gentis e … foi o choque! Eram eles! A reacção imediata do peixito foi voltar-se e fugir, quando ouviu uma voz calma e simpática:

   - Esta bolha de ar é tua? -perguntou.

   - S… sim! - respondeu o peixito assustado, olhando à volta para ver se via alguém.

   Atrás das janelas das casas da aldeia, dezenas de olhos assistiam à cena, horrorizados, temendo o pior.

   -Quando era pequeno, também brincava com as bolhas de ar. – explicou o grande peixe. – Fiquei contente por ver que mais alguém também faz isso. O outro peixe sorriu, acenando a cabeça sonhadoramente.

   O peixito arregalou os olhos de espanto.

   - O senhor também brincava com bolhas de ar? – perguntou admirado.

   - Claro que sim. Passava horas a admirá-las. Admirava a sua forma tão perfeita, a cor e a luz que delas se libertavam… e que reflectiam tudo à volta delas. Por vezes, acontecia imaginar histórias enquanto as acompanhava com o olhar.

   - Os meus amigos acham que eu sou esquisito, por passar tanto tempo a brincar com elas.- e corou ao admitir uma verdade que tinha escondida no peito. – Eles julgam que eu sou maluco. Alguns já tentaram fazê-lo, para me agradar, mas aborreceram-se logo.

   - Os teus amigos deviam dar mais atenção ao que os rodeia. Assim, eles descobririam as pequeninas maravilhas que a natureza nos oferece, até nas simples bolhas de ar… - explicou a companheira do grande peixe, de rasgados olhos sonhadores, numa voz doce um pouco quebrada.

   - Pois é! – exclamou o peixito entusiasmado, sentindo-se compreendido.

   - Mas nem todas as pessoas têm essa capacidade para ver aquilo que tu vês. É por isso que elas se aborrecem! Mas essa diferença não deve separá-los, mas uni-los! Tu possuis algo que os outros não têm e os outros possuem algo que tu não tens, a diferença só poderá ser vista sob o ponto de vista do enriquecimento. É da diferença que nasce a necessidade que temos uns dos outros, pois uns vêem algo que aos outros passa despercebido e vice-versa. Podemos, todos juntos, ajudarmo-nos a ter uma perspectiva global do mundo que nos rodeia - sentenciou o peixe grande.

   - É mesmo?! – perguntou o peixito admirado. –Nunca tinha pensado assim…

   De repente, pareceu acordar de um sonho. O seu olhar meigo foi substituído por um desconfiado. Embaraçado, percebera que falara com os estranhos de quem toda a população fugia com medo.

   - Bem, tenho de ir para casa, agora. Está ficar escuro e não devo demorar-me mais.- explicou ele atrapalhado. – Os meus pais devem estar a chegar e vão ficar… Tarde demais.

   Uma voz dura e cortante rasgou as águas já obscurecidas pela noite que caía, logo seguida por um grito feminino. Eram os pais do peixinho que regressavam do trabalho. Das mãos do pai, um objecto longo de metal, emitia, de vez em quando, alguns relâmpagos de luz crepuscular laranja que tomava uma cor fria, depois de reflectida no metal escuro da arma. Após a chegada dos estranhos, a população costumava trazer consigo as armas há muito já esquecidas nos armários, uma vez que, eram raras as intromissões naquelas remotas paragens. A última registara-se há muitos anos atrás, quando um peixe enorme e mau se havia perdido e tinha descoberto aquela pacata aldeia. Com ele vieram os seus duvidosos amigos. A população, aterrada, vira os seus campos destruídos e todos aqueles que amavam ameaçados e chantageados até conseguirem aquilo que desejavam. Depois de terem visto satisfeitos os seus caprichos, eles haviam retomado o seu caminho, deixando atrás de si uma população desanimada e cansada. As armas haviam então saído dos armários mas era tarde demais para fazer fosse o que fosse. O ataque fora de tal modo rápido e inesperado que apanhara toda a população desprevenida.

   - Afaste-se do meu filho, já! – gritava a voz ameaçadora.

   Os dois peixes afastaram lentamente as suas barbatanas do corpo, numa atitude de surpresa, sem contudo mostrarem qualquer espécie de medo. A sua atitude mostrava só que não procuravam problemas. Já haviam passado por muito para agora terem medo fosse do que fosse. Medo só tinham de ideias como aquelas que levaram ao extermínio de quase uma população inteira, da qual só eles dois pareciam ter sobrevivido. Depois de uma perseguição cerrada, os dois haviam levado a melhor sobre os seus perseguidores e haviam fugido à sua cerrada vigilância. Fora assim que haviam chegado ali, onde haviam permanecido escondidos durante algum tempo, a observar, até perceberem que, aparentemente, se tratava de uma aldeia normal, que não constituía ameaça para eles. Começaram então a aventurar-se. Primeiro, em busca de comida, às escondidas, fora das horas de maior movimento, depois, começaram por se deixar, pouco a pouco, ver pelos habitantes, na tentativa que eles se habituassem à sua presença. Nada disso fora fácil. A população sobressaltara-se quando os vira, e olhara-os ferozmente de lado. Aquele olhar dizia-lhes claramente que não gostavam de os ver por ali a rondar. Tentaram ainda bater à porta e falar com alguns habitantes mas estes mandaram-nos embora, sem sequer os ouvir. Eles tentaram falar com eles, mas só receberam ameaças em troca. Desistiram percebendo que seria inútil qualquer tentativa da sua parte para se entender com eles.

   Instalaram-se fora da aldeia, e ali viviam sossegadamente, cultivando o seu pedaço de terreno, do qual retiravam o que comiam. Os habitantes da aldeia murmuravam entre si, estranhando a presença daqueles súbitos intrusos. Como não sabiam nada acerca deles, os sossegados habitantes interrogavam-se sobre aquelas personagens surgiram histórias estranhas, que aguçavam a imaginação dos pacatos aldeãos.

   O peixito assustado com a voz ameaçadora do pai, correu na sua direcção, escondendo-se debaixo da barbatana direita da mãe, que o acolheu aliviada, fitando duramente os intrusos.

   - Vão-se embora daqui para sempre. Não os queremos aqui. – continuou a voz ameaçadora.

   Os dois peixes grandes entreolharam-se. À sua volta as portas das casas, começaram a abrir-se lentamente e dela saíam outros peixes também de armas em riste. Estavam cercados novamente. Voltaram-se lentamente, dando as costas ao inimigo, e caminharam a passo firme. Não tinham a temer. Aquelas pessoas estavam literalmente com medo, o mesmo medo que eles haviam sentido há já bastante tempo atrás e que nunca mais esqueceram. Tinham contudo aprendido, a encarar o perigo e a ultrapassá-lo, mesmo nas situações em que tiveram de encarar a possibilidade de morrer. Depois, aquela população não era do género traiçoeiro, senão teriam já terminado com eles.

   Quando os dois estranhos abandonaram a rua da aldeia, os habitantes olharam uns para os outros aliviados e olharam o peixito estarrecido, ainda escondido debaixo da barbatana protectora. O peixito observara tudo de olhos muito abertos pelo terror. Não sabia bem o que temera. Lembrava-se da conversa e da atitude desprendida dos dois peixes, da delicadeza com que lhe devolveram a bolha de ar, agora perdida com todo aquele alarido, a doçura das palavras e o olhar sonhador. Não se tinha sentido ameaçado em momento algum em que estivera junto deles. A sua intuição, desde sempre aguçada, não o alertara contra a presença dos dois estranhos, e era engraçado, porque ela nunca antes falhara. O que acontecera então?

   As mulheres, logo seguidas das crianças, saíram à rua comentando o perigo que ameaçara o peixito. Cercaram o peixito, retirado da protectora barbatana maternal, e assaltaram-no com perguntas que o baralhavam completamente. Intimidado, refugiou-se novamente no esconderijo improvisado.

   - Calma, calma… - aconselhava a mãe aos outros peixes – Nada de mal aconteceu. Vamos ter calma. Estão a aterrorizá-lo!

   O peixe mais idoso, de fracas barbatanas e uma longa barba branca, os olhos protegidos por grandes lentes redondas, dirigiu-se aos restantes companheiros, na sua voz fraca. Como os outros não o ouviam devido à confusão, desenhou na água um gesto imperioso para calar os restantes companheiros.

   As vozes foram-se apagando pouco a pouco.

   - Companheiros, não podemos adiar mais este problema. Temos de nos reunir e decidir o que vamos fazer, relativamente aos estranhos. Porque não aproveitamos esta oportunidade para nos reunirmos e decidimos, de uma vez por todas, o que vamos fazer em relação aos dois estranhos? – proferiu ele na sua voz calma e trémula, e continuou  - E porque não fazemos agora?

   Os outros olharam-no sem compreenderem.

   - Vamos discutir todos este assunto e resolver o que devemos fazer com os dois estranhos. Com certeza que os meus ilustres conterrâneos já devem ter uma opinião sobre este assunto… uma vez que a presença deles já foi notada por nós há algum tempo. – explicou ele aos mais desatentos.

   Assim foi. Para terminar com o grande alarido provocado pela presença dos dois peixes estranhos, reuniram-se, nessa noite, para discutir a presença e o destino dos forasteiros. O local da reunião era uma gruta espaçosa, destinada a deliberações importantes e, como nada de importante tinha acontecido naquela remota aldeia do oceano, havia muito tempo, ela pouco havia sido usada, a não ser para grandes acontecimentos familiares. Os poucos habitantes da aldeia acomodaram-se silenciosamente na sala, os adultos rodeados de perto pelos seus filhotes, todos na expectativa do que se iria passar, pois todos haviam trocado já impressões mas nunca de forma tão aberta e era-lhes difícil descortinar, depois de todo aquele reboliço, qual seria o desfecho de tão inesperada reunião. Uma vez todos sentados, e passado o barulho característico dos peixes a acomodarem-se nas suas cadeiras, o ancião tossiu para desobstruir a garganta e falou na sua voz trémula mas decidida.

   - Meus irmãos, já não é possível ignorar por mais tempo a presença destes dois estranhos que tanto nos tem importunado. Temos de tomar uma atitude para bem de ambas as partes. Só, assim, poderemos continuar a viver em paz. O que vamos discutir aqui hoje tem a ver não só com os peixes em questão mas também connosco.

   O silêncio que antes pesava naquela sala, tinha-se dissipado para dar lugar aos murmúrios das trocas de impressões. Sobrepondo-se ao barulho geral daqueles sussurros, uma voz masculina fez-se ouvir claramente:

    - O que é que eles têm a ver connosco ou nós com eles? Nós vivíamos perfeitamente felizes e em paz, antes de eles chegarem e ocuparem um lugar junto de uma comunidade que não lhes pertence, e sem se importarem com o que nós pensávamos acerca disso.

   De novo os sussurros tomaram conta da sala. Vozes mais alteradas, procurando dominar outras mais calmas.

   - Sem nos esquecermos do perigo que a presença deles representa para todos nós. – declarou um peixe gordo, de pele avermelhada.

   Outras vozes se fizeram ouvir, apoiando esta última. O peixe avermelhado sorriu agradecendo o apoio. O velho ancião abriu novamente os braços, como se os quisesse abraçar a todos. Mais uma vez se fez silêncio, ouvindo-se só o barulho dos ocupantes da sala, remexendo-se nos seus lugares.

   - Meus amigos, estes dois estranhos já estão a viver connosco há algum tempo. Alguém tem alguma razão de queixa deles? – perguntou ele dirigindo o seu olhar à vasta sala.

   Um peixe de barba preta e ar sisudo, levantou a barbatana e a voz fez-se ouvir das últimas fileiras.

   - Desapareceu-me alguma fruta do meu pomar… logo quando eles chegaram! – disse ele resolutamente.

   Outras vozes fizeram coro com a dele. A sala remexeu-se em peso e corria-se o risco de se criar nova confusão e de entrar noite dentro sem nada se resolver. Uma senhora-peixe lembrou-se subitamente que tinha deixado a panela ao lume e abandonou a sala a correr. Uma outra seguiu-lhe o exemplo, pois não se lembrava se havia fechado a porta. A voz do peixe ancião atravessou de novo a sala.

   - Se mais alguém tiver de sair, faça-o agora pois temos de resolver hoje este assunto. – disse ele arrastando o seu olhar pela sala, mas mais ninguém se mexeu do lugar. Chegaram entretanto as duas mulheres que haviam saído, entrando tão precipitadamente quanto haviam saído. Ocuparam os seus lugares, trocando algumas breves palavras com os peixes sentados nas proximidades.

   - Podemos agora começar? - perguntou o ancião, acrescentando – O peixe Rodrigues dizia há pouco, e vocês sublinharam as palavras dele, que lhe faltara alguma comida. Alguém tem mais queixas para além da falta de comida que parece ser comum a mais do que peixe?

   Ninguém se pronunciou. O ancião continuou:

   - Alguém já se interrogou porque razão eles o teriam feito? Algum de vós lhes deu alguma comida quando eles muito simplesmente vos bateram à porta e vo-la pediram? O que fizemos nós, quando nos pediram a nossa ajuda? Limitámo-nos a olhá-los horrorizados com a aparência deles, sem sequer nos interrogarmos ou a eles, sobre o que se tinha passado. Limitámo-nos a escorraçá-los…

   O silêncio revelava agora um sentimento geral de embaraço perante aquelas palavras proferidas de forma tão directa.

   - O que quer que lhes tenha acontecido, eles devem ter lutado arduamente pelas suas vidas… Daí o seus aspectos, já pensaram nisso? Tratava-se unicamente de um casal em fraco estado físico e psicológico e nós deixámo-nos intimidar pelas suas aparências, sem lhes darmos qualquer oportunidade de se revelarem como peixes que são. Faltou-vos comida, é certo… mas faltou-vos unicamente a comida que declinaram de má vontade, recusando-se a olhar o que diante de vós se mostrava… Vocês não escorraçaram os dois peixes, eu sei, mas a miséria que viam diante dos vossos olhos e que vos assustava… Algum de vós trocaria o vosso lugar pelo deles? - os seus olhos perscrutaram a audiência calada, embaraçada pela vergonha, que olhava nas mais variadas direcções, sem nada para dizer, - Não, eu sei que não… Quando nós lhes negámos toda a espécie de ajuda, inclusivamente o direito de atravessarem as nossas, o que fizeram eles?  Limitaram-se a ocupar uma gruta há muito tempo deserta, fora da aldeia, um local que nenhum de vós reclama, porque não pertence a ninguém, nem ninguém o cobiça… Ali, eles fazem a vida deles, sem nos incomodarem, sem nos exigirem fosse o que fosse… sem sequer imporem a sua presença, salvo quando lhes era absolutamente necessário… Meus amigos, se eles fossem más pessoas, nós já teríamos alguma razão de queixa contra eles, não é verdade? Não podemos recorrer também às más experiências do passado para justificarmos as acções do presente, porque o presente é o presente e é como tal que tem de ser avaliado, sem traumas passados a assombrá-lo… o passado serve unicamente para aprendermos e continuarmos a viver com as lições aprendidas, nada mais… temos de nos abrir ao futuro, e o futuro passa pelo acolhimento destes dois no nosso seio. Não há volta a dar ao assunto… Já passaram pela gruta deles? Não, creio que não… - disse olhando atentamente os seus companheiros – mas eu, na minha atrapalhação própria da idade, perdi-me por lá um dia destes… e devo dizer-lhes que eles não são diferentes de nós… de uma gruta vazia, eles fizeram um lar, o seu lar, e foi lá que eu fui acolhido e ajudado, como se de um longo amigo se tratasse… daqueles que precisam de ajuda. Dividiram comigo o pouco que tinham, ou deverei antes dizer, têm e ali estava eu, são e salvo, de regresso a casa. Quando viram os dois estranhos a falar com o peixe Zézito, o que pensaram? O pior… esconderam-se em casa a espreitar pelas janelas temendo o pior… e o que viram? Dois peixes adultos a conversar com um peixito da aldeia, nada mais…

   Os olhos de todos pousaram sobre o novo alvo da conversa, que se encolheu, junto da mãe.

   - Tiveste medo deles, peixe Zézito? – perguntou o ancião ao peixito que se limitou a discordar dele. O único medo que eu vi nos olhos dele, foi aquele que vocês provocaram com as vossas histórias na imaginação dele e, depois, com os vossos gritos e as vossas atitudes perante a situação… temos de ter calma, amigos, calma para avaliarmos as situações e as pessoas e, então, agir. Já se perguntaram porque é que eles, apesar de tudo o que aconteceu, ainda não se foram embora daqui? Eu perguntei-lhes e a resposta dada foi inesperada e demonstrou uma compreensão da situação que me admirou e só peixes que passaram pelo que eles passaram sabem dar o valor… e sobretudo quando passaram por tudo sem se tornarem maus ou amargos… e devo dizer-lhes que eles viram soçobrar familiares e amigos arrancados à vida por filosofias como aquela que nos levou a ignorá-los e a marginalizá-los. Eles perceberam que, apesar da nossa atitude, era o medo que falava por nós e que, com paciência, nós iríamos acabar por compreender o tipo de pessoas que eles eram… eles perceberam que nós não éramos más pessoas, como aquelas que eles encontraram nas suas vidas.

   Fez-se um longo silêncio na sala. Ninguém sabia exactamente o que dizer ou o que fazer. Uma vozinha fez-se então ouvir, tímida ao princípio, depois, resoluta.

   - O que podemos fazer para emendar o que lhes fizemos? – perguntou o peixito, todo vermelho ao sentir os olhos de todos pousados nele. Os olhos voltaram-se para o ancião interrogadores.

   - Poderemos por começar já amanhã… eu vou falar com eles, e contar-lhes o que sucedeu aqui hoje… quanto ao que fazer, podereis ver pelos vossos próprios olhos que há imenso para fazer, que nos irão ocupar algumas horas daqui para a frente, isto é, se tiverem na disposição disso, claro.

   Dizendo isto, observou a sala para ver se havia voluntários. Pouco a pouco, as mãos foram-se levantando até a plateia se levantar alegremente a bater palmas. Todos estavam entusiasmados com a ideia de ajudar os dois desconhecidos. E estavam, sobretudo, contentes por eles, por terem encontrado uma solução para este caso, que os incomodava já há algum tempo, e que ameaçava tomar contornos mais graves, desagradáveis e até inesperados. Todos suspiraram de alívio, dando agora aso à sua imaginação, alegria e projectos para ajudar aqueles dois desconhecidos que haviam deixado de o ser.

   No dia seguinte, logo de manhã, o ancião dirigiu-se, tal como prometera, à gruta dos dois amáveis desconhecidos, para lhes contar o que se passara na noite anterior. Os dois peixes ouviram com atenção e agradeceram ao velhote as palavras. Passados alguns minutos, uma aldeia em peso dirigia-se, armada de toda a espécie de ferramentas, tecidos e alimentos para aquela gruta fria, habitada pelos dois peixes desconhecidos, e, após terem as ordens necessárias para avançar, puseram mão ao trabalho. As senhoras peixes dentro da gruta, orientada pela peixe Olívia e, no campo, os peixes ajudavam o marido, Justino, em tudo o que era preciso fazer. E havia tanto que fazer! Até as crianças peixe ajudavam em pequenas tarefas…

Conto escrito por Fátima Nascimento Dias

 

 

publicado por fatimanascimento às 21:37
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