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Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

A dança da vida

Era um dia cheio de sol e cores em que todos os mais diversos aromas se misturavam. A mosca, num voo estonteante, não sabia exactamente para onde dirigia. Limitava-se a seguir o rasto desses variados cheiros sem se decidir por qual haveria de optar. E andava à deriva limitando-se a seguir o cheiro mais forte captado pelas suas narinas. Sentia-se feliz. O dia estava bonito, a Primavera desabrochara e o ar era um cruzamento dos mais variados sons, todos reveladores da intensa e tenra vida acabada de despontar. Sentia a alma renovada, transbordante de uma alegria incontida. E nesse rodopio de sons, ruídos e cheiros, deixava-se levar embalada pelo ar morno da estação.  Adorava voar livremente, cruzando outros insectos que lhe deitavam um ar reprovador.

- Vê lá se vês por onde andas! – resmungou um moscardo com quem quase acabara de chocar.

Mas a mosca continuava a esvoaçar desenhando perigosas figuras aéreas e acrobáticas, desviando-se sempre dos obstáculos no momento próximo da colisão.

- Livra, esta foi por pouco! – murmurava incrédulo o aranhão de altas, curvas e finas pernas, empoleirado numa árvore, quando a viu evitar o ramo grosso e contorcido, encolhendo-se a um canto do ramo ao mesmo tempo que apontava os olhos para o frágil corpo escuro. – Onde irá com tanta pressa?

Mas a mosca, ignorando os contratempos, continuava a apreciar aqueles momentos luminosos e mornos. Abria as asas e um alegre zunido prolongado arrastava-se no ar leve. Nada a fazia mais feliz do que aqueles momentos de liberdade absoluta. Uma tranquilidade perpassava o seu ser e parecia ligada a todos os seres que a rodeavam. Deixou escapar um longo zumbido de prazer. Era como se fosse um prolongamento da paisagem que a rodeava. Se isto era a felicidade, então poderia admitir que era feliz. Sobrevoou um riacho estreito, de regurgitante água transparente e fresca que reflectia as ervas e as flores coloridas. Poisou numa flor próxima da água e observou-se. Era uma bela mosca! A sua cor negra, com tonalidades metálicas azuis-esverdeadas, reflectia orgulhosamente a luz. As suas asas transparentes e fortes, juntamente com as suas pernas elegantes levavam-na até onde a sua imaginação, aliada à sua vontade, exigia. Era feliz! Não lhe faltava nada! Era livre, forte e alimentava-se do que a natureza lhe dava. Sacudiu as patas dianteiras em sinal de satisfação. Lambeu a humidade da haste esverdeada, agrupada numa minúscula gota que reflectia, de forma distorcida, as flores mais próximas. Saciou-se, bateu rapidamente as asas, olhou em redor e lançou-se no ar, na habitual e exótica dança ziguezagueante. Nada a fazia mais feliz!

Subitamente, um cheiro gorduroso, misturado com um fumo branco, distraiu-a daquela sensação de plenitude que a alimentava. Deu meia volta e, quase sem dar por isso, estava na peugada do cheiro. De olhos fechados, deixou-se levar, embalada pela aragem morna. Entrou num quintal de muros altos e caiados. Poisou, cautelosamente, na protectora sombra dos beirados, assustada com o que avistava. Preocupada, olhou a paisagem infinita e imóvel por trás do muro coroado por um arame farpado. O seu instinto apontava-lhe o horizonte ondulado mas uma estranha curiosidade, aguçada pelos sentidos, manteve-a no lugar. Apontou os seus olhos redondos para o quintal, esquadrinhando-o por várias vezes. A sua atenção e os seus sentidos estavam a absorver toda a informação possível naquele espaço exíguo. Uma sensação de claustrofobia invadiu-a acordando os seus sentidos e incendiando uma sensação estranha semelhante à experimentada quando o perigo, ainda invisível, espreitava. Vozes, risos e gritos cruzavam-se no ar. Os mais pequenos corriam atrás de uma aventura imaginária, os adultos atarefavam-se em volta de uma mesa comprida. A um canto, desviado das rotas das crianças, um grelhador lançava no ar um fumo gorduroso que lhe aguçava o apetite. O que seria aquele cheiro em tudo diferente ao que já experimentara? E se fosse dar uma vista de olhos? A prudência aconselhava-a a permanecer no local protegido pela sombra. Não existia melhor esconderijo naquele espaço pequeno tão sobrepovoado de seres. Mas a curiosidade suplantou a cautela e, num exímio voo, alcançou o apetecido alvo. O fumo quente e branco, que de longe se assemelhava a um nevoeiro, desnorteou-a. Os olhos suportaram o ardor e as asas quase se incendiaram. Como se não bastasse, um objecto duro, agitado no ar incendiado, criou uma corrente de ar desviando-a do local abrasivo. Pregou-se à parede mais próxima, com a qual praticamente chocou, tossindo e limpando a cortina de água dos olhos turvos. O que se passaria ali? Mas a sua ideia não se afastou do cobiçado alvo. O aroma, que se desprendia numa dança amorosa de fumo, continuava a atiçar-lhe os sentidos. Salivava como um guloso cão esfomeado. Que cheiro seria aquele? Tinha de chegar àquela massa, de aspecto apetitoso, e provar o ambicionado petisco. E embora tudo, naquele local, lhe indicava que o deveria abandonar quanto antes, nada a demoveu do seu intuito. Quando o homem gordo, dotado de um proeminente abdómen, tapado por uma leve camisola de algodão branco, atento protector da escaldante comida, se afastou do negro grelhador, tentou uma rápida aproximação. Em vão! As brasas revestiam o carvão, alimentadas pela gordura da comida. Voltou ao seu poiso. Virou-se para o grelhador e tomando uma acertada decisão: iria esperar pelo momento certo. E este seria o momento em que as chamas moribundas iriam tornar possível uma aproximação mais segura. O seu medo era, nessa altura, que fosse demasiado tarde. A preciosa gordura, perdida no calor das brasas, se tivesse cristalizado ou evaporado, o que tornaria a sua tarefa muito mais difícil ou mesmo impossível. Parou a observar. Os humanos estavam sentados à mesa e travessas passavam de mão em mão à medida que os pratos se enchiam. Por que não se lembrara disso há mais tempo? Aqueles seres paravam, de talheres no ar, conversando alegremente… Talvez fosse o momento ideal para tentar a sua sorte! Despegou-se da parede morna e esvoaçou pela mesa, lançando um longo zumbido. Longe de se sentirem amedrontadas, as pessoas erguiam as mãos, libertas daqueles estranhos objectos com que se alimentavam, e agitavam-se, ameaçadoras e ágeis, no ar aquecido, pelos brilhantes raios do sol. Regressou ao seu poiso inicial, na sombra do beiral, com o coração a bater descompassadamente. Quase a apanhavam! Um sentimento estranho pedia-lhe que abandonasse aquele perigoso local e regressasse à sua vida anterior, despreocupada e livre! Mas nunca fora mosca de desistir facilmente das suas ideias. E, depois, aquela comida despertara em si uma inultrapassável curiosidade. Teria de experimentar! Não se poderia ir embora sem o fazer! Seria perseguida por um interminável sentimento de fracasso! Não, resolveu, não sairia dali sem experimentar aquela iguaria! Os olhos pregados nas sobras dos pratos, o olfacto apurado, as patas tremendo de desejo de poisar naquele delicioso odor… Tentaria uma outra vez! E num voo rasante, desceu até juntos dos pratos onde os espaços lembravam clareiras numa floresta. Alguns seres já tinham trocado a mesa por outros poisos, onde descansavam os corpos, retirados do calor. Estranho! Eles nem sequer tinham usado as suas asas estranhas, como é que poderiam descansar? Outras pessoas iam e vinham e, nesse tempo, ela descia gulosamente até às sobras de comida, abandonadas no prato. A sua língua roçou a deliciosa gordura. Adorou o sabor! Preparava-se para atacar a comida quando uma mão retirou o prato apressadamente, deixando-a atordoada! Felizmente, tinha uns reflexos apurados! Voltou ao seu poiso, o coração a bater descompassadamente. Não poderia continuar assim!, reflectiu, Embora gostasse da vida arriscada, não queria continuá-la, pelo menos, em troca de um pedaço de comida! Havia também abundantes alimentos variados nos vastos campos e que davam para todos. Uma onda de saudade varreu-a. Não, decidiu, aquele sítio não era para ela! Iria ao encontro da sua vida segura e despreocupada, nos locais habituais onde havia lugar para todos! Na sua curta vida, não queria percalços, sobretudo os criados por si. Já lhe bastava os que tinha de enfrentar nas suas acrobacias aéreas e com os quais já estava familiarizada. Iniciou o caminho de regresso, mas, por um qualquer motivo desconhecido, não conseguia reencontrar o caminho! O que se passava consigo? Nunca tal lhe acontecera! O olfacto, demasiado ocupado com os cheiros criados pelos humanos, não conseguia reencontrar a direcção certa. Tentou vezes sem conta. Inútil! Cansada e tomada de um pânico que fazia estremecer, deixou-se ficar parada durante uns segundos, tentando perceber o que se passava. Parecia que tinha ficado presa nas malhas invisíveis de uma rede de odores humanos. Por muito que voasse, nada a fazia encontrar o caminho da liberdade. Se soubesse que iria ser assim, nunca entraria numa aventura daquelas. Parecia-lhe ter entrado num labirinto aéreo, de onde não fazia ideia de como poderia sair. Começou a recriminar-se por tal imprudência. A sua sensatez pôs, contudo, cobro esse estado de espírito. Estava já suficientemente atrapalhada para perder tempo com revoltas. Teria de se concentrar na descoberta da saída daquele local pequeno e sobrepovoado. Deu mais umas voltas desesperadas, tentando descobrir o trilho que a levaria de regresso aos campos. Sempre afastada por mãos impacientes, que a sacudiam de um lado para o outro, ela tentou todos os buracos que encontrou. Mas cada um parecia mergulhá-la num espaço cada vez mais pequeno e mais fechado de onde fazia cada vez menos ideia da maneira como poderia sair. Sentia as temperaturas diferentes, a luz tornava-se mais clara ou mais escura, mas os indícios da saída estavam cada vez mais longínquos. Naquele momento, não fazia a mínima ideia de onde se encontrava. O espaço apertara-se inexplicavelmente à sua volta e a luz parecia ter perdido o seu brilho, não passando de uma pálida manifestação de si própria. Poisou na parede branca, para avaliar a situação. Onde se encontraria? Tomou a resolução de não se mexer até ter uma ideia exacta do caminho que a levaria para fora daquele pesadelo. Sempre que a claridade se manifestava, ela tentava passar de encontro a ela. Mas, por qualquer motivo que lhe escapava, a sua intenção saía sempre gorada. O desânimo ameaçava tomar conta do seu ser. Todas as suas tentativas saíam frustradas? E pensara que conseguiria sair sempre de qualquer apuro? Ria-se amargamente de si! Que ingénua fora!

Não sabe quanto tempo esteve ali prisioneira. O seu tempo era dedicado ao sonho. E sonhava com os imensos campos luminosos, cobertos de um tapete fino e macio, das árvores cobertas de folhas albergando uma grande variedade de asas. Bem mais espertas do que ela!, pensava amargamente, não estavam naquela situação. Para cúmulo da sua desventura, uma mão começou a persegui-la, tentando que enveredasse por uma direcção que lhe escapava. Sempre que poisava para descansar as suas asas e o seu peito havia um objecto espalmado que tentava acertar no seu minúsculo corpo luzidio. E, nos intervalos destas perseguições, sempre que tentava chegar a qualquer peça de comida, era logo violentamente enxotada. Perdera peso e o seu corpo diminuíra o brilho natural. O que iria fazer? Pensou em deixar de lutar. Bastava deixar-se atingir por aquele objecto de plástico rendado, para que a sua infelicidade terminasse. Mas uma voz dentro dela não a deixava desistir. Mesmo no limite das suas forças continuava sempre a lutar por uma saída. Andava de divisão para divisão, procurando o passaporte para a liberdade, quando, subitamente, viu o ar livre. Seguiu aquela visão num voo de esperança. Era ali! Estava ali a sua saída! Cansada e enfraquecida, tentou voar até àquela luz que se agitava diante dos seus olhos. Era só mais um esforço. Dos seus olhos caíam lágrimas de alegria e esperança. Seria possível? Estava quase a conseguir, quando o seu corpo chocou contra um invisível obstáculo. Mas o que estava a acontecer? Via a luz e os campos amados tão perto e, no entanto, uma força invisível parecia agarrá-la impedindo-a de abraçar a luz e a paisagem amadas. Observou a luz que caía lentamente. Daí a pouco a noite desceria para cobrir a planície. Talvez aquela fosse a última visão tida dos seus amados campos. Mas seria a melhor! A sua boca exibiu um sorriso ambíguo. Tão e tão longe e tão perto. Deixou-se escorregar pelo obstáculo de um fino rendilhado deixando escorregar as patas ajudadas pelas desanimadas asas. Sentiu o corpo cair pesadamente. Chegara ao fundo do precipício. Não tinha forças para mais. Chegara ao fundo de si própria. Deixou-se ficar ali, de olhos fechados, sem forças anímicas para tomar qualquer atitude. Não sabe quanto tempo permaneceu assim. Até que uma pequena corrente de ar lhe bateu no pequeno focinho despertando-a daquele vazio onde tinha caído. Abriu os olhos. De onde vinha aquele ar que se escoava livremente? Examinou o local à sua volta apontando os olhos para todas as direcções. Entre o obstáculo invisível e o seu chão havia uma pequena passagem. Era uma rede, compreendia naquele momento, aquele objecto fino que impedia os insectos de entrar mas também, e por ironia, os impedia de sair. Já ouvira outras moscas falar delas! Pôs-se de pé num instante. Seria possível? Já se enganara tantas vezes! Esgueirou o corpo por entre o espaço liberto. Conseguira! O quintal estava livre! Não se via ninguém! Estudou calmamente o espaço. Sem ruídos, sem cheiros, sem membros agitando-se violenta e rapidamente, seria fácil encontrar o caminho do regresso aos campos. Meio cega e surda, e com o corpo debilitado reuniu as forças num último esforço e ensaiou um voo. Ainda não conseguira! Mas a esperança era mais forte do que nunca. Parou na parede, junto do beiral. Dali, conseguia orientar-se. Fez mais um esforço e ultrapassou o arame farpado, enferrujado pela acção das intempéries. E, diante de si, os campos estendiam-se tendo o horizonte como limite! Ali, já não se perdia. Só teria de encontrar o alimento que lhe tinha sido negado enquanto permanecera entre os humanos. E não seria difícil.

 

01 Dezembro de 10

Fátima Nascimento

publicado por fatimanascimento às 14:25
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Sábado, 25 de Setembro de 2010

Inês e a bicicleta

Há muito tempo que Inês queria uma bicicleta. Pedia-a frequentemente à mãe. Como não tivesse muito dinheiro, a mãe dizia-lhe que, quando tivesse  menos despesas,  lhe compraria a bicicleta. Ficou entusiasmada. Falava da bicicleta que iria ter a toda a gente: aos avós, aos irmãos, aos amigos, às visitas, aos colegas da escola…

Mas os dias foram passando e a tão ansiada bicicleta não chegava! Os amiguitos da casa ao lado passavam as tardes a andar de bicicleta e Inês não podia acompanhá-los porque não sabia andar de bicicleta e porque não tinha uma. O pai dos meninos, como andava a ensinar o filho mais novo, ensinou-a também. Como a vontade de aprender era tanta, a menina, em apenas dois ou três dias, já se equilibrava em cima do velocípede! A sua satisfação aumentava de dia para dia e também as suas habilidades! Só a tão desejada bicicleta não chegava. Perguntava vezes sem conta à mãe quando é que teria a bicicleta e como de morasse muito, resignou-se a uma ideia – partilharia a bicicleta dos vizinhos!

Um dia chegou a casa muito entusiasmada. Alguém lhe oferecera uma bicicleta!

A mãe que conseguira juntar um dinheiro para a comprar, parou, confusa. Viu entrar, pelo portão, uma bicicleta na qual se poderia montar! O entusiasmo da pequena por ter realizado finalmente o seu sonho juntava-se uma certa apreensão: era tão grande que tinha medo de se desequilibrar e cair! Surgiu a ideia de baixar o selim, para que pudesse, mais facilmente, chegar aos pedais. Grande decepção! A pequena já não sabia o que haveria de pensar! Ao ver a decepção da filha mais nova, a mãe decidiu que, custasse o que custasse, lhe iria comprar a bicicleta no mês seguinte.

Para evitar sofrer com a situação, esqueceu-se da sua e concentrou-se nas brincadeiras e nos passeios partilhados na bicicleta emprestada dos vizinhos. Como o pai dos vizinhos do lado tinha comprado uma nova para o filho mais novo – tinha feito o mesmo há uns meses atrás, à filha mais velha – sobrava uma que era emprestada à Inês.

A mãe não sabia! Tinha tomado a decisão de realizar a sua ideia depois de ter visto a bicicleta oferecida! Uma noite, disse subitamente À filha mais nova:

- Inês, amanhã, a mãe vai pedir à mana e ao Teo para te comprarem a bicicleta. E tu vais com eles para escolheres.

A pequena, desta vez mais cautelosa, não reagiu com o entusiasmo anterior. Tinha medo da desilusão. Ficou parada a olhar para a mãe na dúvida.

- Vais mesmo comprar-me a bicicleta? – perguntou como se não tivesse compreendido bem o que a mãe acabara de dizer.

- Sim, Inês, vou comprar-te a bicicleta! – sublinhou.

- Quando?

- Quando vieres da escola!

A pequena, embora entusiasmada, continuava a reagir com cautela. Finalmente, desprendeu a sua alegria que, até ali, tinha refreado a custo.

- Que bom! Vou ter, finalmente, a minha bicicleta! – gritou alegremente acrescentando depois – e aquela que está na garagem, mãe?

- Fica para mim – esclareceu a mãe – Quando já estiver boa, vamos andar as duas de bicicleta!

Inês abraçou a mãe.

- És a melhor mãe do mundo! – gritou carinhosamente.

No dia seguinte, assim que acordou, os seus pensamentos voaram para aquele que seria o ponto alto do dia – a compra da bicicleta.

- É hoje que vamos comprar a minha bicicleta! – exclamou

- Sim, é. – retorquiu a mãe – Mas só à tarde quando regressares da escola e depois do Teo sair do emprego.

Inês foi muito feliz para a escola. Esteve inusitadamente alegre e comunicou a todos o motivo da sua felicidade: ia ter uma bicicleta do seu tamanho!

Chegada a tarde, o entusiasmo de Inês ia aumentando. Terminou os trabalhos de casa e brincou até à chegada da irmã que só chegava às oito horas da noite. Como estudava num liceu noutra cidade, e ia e voltava de comboio, partia sempre muito cedo e chegava tarde. Era a última a chegar a casa!

À medida que se aproximavam as oito horas, a impaciência aumentava assim a expectativa. Mas não dizia nada. Limitava-se a olhar para os desenhos-animados da televisão e a esperar. Quando a porta de entrada se abriu e uma voz alegre e já prevenida gritou “Cheguei!”, o entusiasmo foi enorme. Como Teo já tivesse chegado, rumaram os três para a grande superfície mais próxima no sentido de comprar a tão ambicionada bicicleta!

Chegaram uma hora depois com a pequena aos gritos lançando à brisa fria da noite que já comprara a sua bicicleta! E chegava aos pedais!

- Oh, mãe, assim que encarei com a bicicleta, percebi que era esta a ideal para ela! – comentava satisfeita a irmã mais velha de Inês.

A mãe agradeceu ao Téo que tinha de se despachar, pois a mãe estava à sua espera para jantar!

E, agora, a menina percorre o bairro todo encavalitada na sua pequena bicicleta, vivendo aventuras nos ares rasgados da sua velocidade. Na cabeça, o capacete próprio que pertenceu ao irmão mais velho!

publicado por fatimanascimento às 16:59
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Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

Inês e o banho

Inês só tem sete anos, mas já toma banho sozinha. Foi uma decisão dela. A mãe compreendeu e incentivou essa decisão. Havia uma explicação para isso. A banheira tem duas portas de um material plástico branco opaco o que torna o espaço da banheira, durante o gelado Inverno, mais quentinho. E desde que entrava na banheira até que saía, Inês tremia de frio, variando entre o tom de pele normal e o tom arroxeado. E toda a família gozava desse privilégio, menos ela, porque estava dependente das mãos que, do lado de fora, a esfregavam. Assim, durante todo o banho a pequena criatura tremia o que a fazia detestar o banho. A pequena que, na praia, não abandonava a água, detestava aqueles momentos incómodos, frios e desconfortáveis. Era muito desagradável! Só estava bem com a torneira da água quente aberta. O vapor de água matinha o ambiente tolerável. E era uma tormenta, sempre que tinha de fechar a torneira. O frio envolvia-a como uma capa fria. Todo o seu corpo tremia! Nem quase se conseguia mexer! Enquanto era pequenina, limitava-se a tremer. À medida que foi crescendo, foi-se queixando baixinho do frio. E esse momento começava logo no momento em que começava a despir a roupa. O seu rosto fechava-se antecipando o medo do frio que a iria agarrar o seu corpo com as suas desagradáveis garras frias. Começava a mostrar indícios de ansiedade num choro contrariado. O que poderia ser um prazer, era, para ela, um autêntico suplício. Detestava as horas do banho! A mãe explicou-lhe que, deixando a porta de correr, que protegia a banheira dos exteriores olhares indiscretos e das incomodativas mãos frias que a esfregavam à pressa para evitar o prolongamento aqueles momentos torturosos, aberta tornava o banho mais frio. Isto deu-lhe que pensar. Por um lado, gostava da atenção que lhe dispensava a família na hora do banho, por outro, aquela temperatura baixa, tornava tudo desagradável. Para a consolar, a mãe deixava-a ficar, durante uns segundos, com o chuveiro da água quente ligado enquanto ia buscar o toalhão enorme onde a enrolava. Eram os momentos mais agradáveis daquele acto de higiene tão agradável e, ao mesmo tempo, tão desagradável! Como a electricidade está muito cara, evitava-se ligar os aparelhos de aquecimento para não aumentar a factura trimestral, que era sempre elevada, e evitar o golpe final de ter de indemnizar a companhia de electricidade por descuidos, durante o Inverno. Uma vez a mãe vira-se obrigada a repartir a factura por três meses, tal era a quantia! Descobriu-se que o irmão, muito friorento, acabava por dormir com termoventilador ligado no quarto dele! Inês nunca vira a mãe tão zangada. Toda a família a fazer sacrifícios e ele que não queria saber de nada! Não podia ser! As mulheres da casa não ligavam qualquer aparelho d aquecimento suportando corajosamente o frio. A partir daquele momento, ele começou a ter mais cuidado!

Uma noite, enquanto a mãe a vestia, depois de a encorajar, a tirar a toalha quentinha que a cobria toda à excepção da ponta do nariz e dos olhos, afirmando que, assim que vestisse a camisola interior, se sentiria quentinha, aquiesceu e trocou o pesado tecido pela camisola interior grossa de algodão branca. Depois de enfiar o corpo no pijama e no robe e os pés nas meias grossas, sentiu-se mais animada. Só faltava o cabelo! A mãe agarrou no secador de cabelo e na escova e logo o calor consolou a pequena alma. Após uns instantes, de cabelo seco e solto, Inês mirava-se no espelho da cómoda com satisfação: cheirava bem e estava muito bonita.

Voltou-se subitamente para a mãe que arrumava todos os objectos utilizados:

- Mãe, a partir de agora tomo banho sozinha! – declarou contente com a decisão tomada.

- Muito bem! – concordou a mãe que já lhe ensinara tudo a respeito dos banhos – Assim terás menos frio!

E deu-lhe um abraço enquanto exclamava orgulhosa e baixinho:

- A minha menina está a ficar crescida!

E assim foi. A partir daquela noite, Inês passou a tratar de si e as horas frias e desagradáveis tornaram-se muito felizes. Molhava-se, lavava a cabeça com champô, tirava a espuma com água, e colocava o amaciador. Lavava o corpo com gel e, depois, retirava a espuma com água e, de seguida, o amaciador que lhe empastava os longos cabelos castanhos. Sorriu satisfeita à toalha que esperava a um canto seguro da banheira. Enrolou-se nela, limpou-se e saiu cautelosamente evitando tropeçar. Daí a uns minutos, estava pronta a secar o cabelo. Para grande surpresa da mãe, escolheu secar o cabelo também. Afinal, aquela estava doente e teria de se desembaraçar. Entrou minutos depois no quarto da mãe: estava linda! Olhou-se orgulhosamente no espelho. Conseguira! Livrara-se dos banhos gelados e da impaciência da irmã mais velha que, chegada a casa, se encarregava, muitas vezes, de lhe dar banho enquanto a mãe preparava o jantar! E passou a gostar da hora do banho de tal maneira que muitas vezes se esquecia de fechar a torneira!

- Inês, estás a gastar muita água. Não pode ser! –repreendia-a docemente a mãe.

E contou-lhe a história da água que estava a ficar doente com a sujidade e que não tinha outra para a substituir uma vez que cada vez, com a subida da temperatura do planeta, choveria menos.

Inês escutou a história com os olhos presos nos da mãe.

- Então não posso deixar a torneira muito tempo aberta, para poder poupar a água!

A mãe sorriu:

- É isso mesmo! – exclamou a mãe sorrindo – És uma menina muito inteligente!

E quase sempre cumpriu!

publicado por fatimanascimento às 02:17
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Sábado, 24 de Abril de 2010

Uma história de vida

Era uma vez um homem cuja vida andava sempre num inferno. Aplaudido e seguido por uns, perseguido e difamado por outros, a sua vida parecia um carrossel desenhando rodas cada vez mais rápidas. Os amigos e seguidores, percebendo o perigo, por sensatez ou por medo, mantinham-se na sombra. Com os perseguidores e detractores acontecia o mesmo: havia os que lhe apontavam o dedo, sem medo, apoiados por um oceano de rostos desconhecidos. Embora tivesse muitos apoiantes, estes nunca davam a cara por si e, quando chegava o momento de enfrentar os opositores, olhava à sua volta e não via ninguém. Poderiam pensar como ele, mas jamais admitiriam isso em público. Esta situação trazia sempre consequências imprevisíveis mas sempre nefastas. O medo imperava. Só ele se mantinha de pé enfrentando o enfurecido perante o enfurecido temporal.

Nas reuniões secretas, mais do que ideias discutiam-se, muitas vezes, atitudes. Muitos contentavam-se com as reuniões secretas não querendo expor-se na praça pública e não compreendiam a necessidade do colega. Tinham de ser cautelosos! Recriminavam então o homem que se expunha de forma tão temerária e receavam pela sua segurança e a dele.

Um dia, após um inflamado discurso às pessoas da sua cidade, realizado na praça onde se juntavam rostos curiosos e interessados, debaixo das réstias de um céu azul manchado de um doirado incandescente que lentamente cedia lugar à noite clara de estrelas, saltou do banco largo e comprido, agarrando-o com a mão esquerda e, preparando-se para regressar a casa para a tão desejada ceia, foi interpelado por pessoas que, tendo bebido sofregamente as suas palavras, pediam esclarecimentos. Amavelmente satisfez-lhes a sua curiosidade enquanto pensava cansado:

- Por este andar nunca mais chego a casa!

Ao longe, os soldados seguiam aborrecidos as suas divagações do velho. Ele era nem mais nem menos o único obstáculo que os mantinha ainda afastados das famílias. Tinham instruções claras no sentido de serem os ouvidos e os olhos do senhor da cidade. Ainda jovens, não se interessando por mais nada do que raparigas e o soldo mensal, as palavras convictamente pronunciadas, nada lhes diziam. O duque, a quem tinha sido confiada a cidade, não se sentia nada confortável com tais ideias, tão diferentes daquelas que servia. Era um homem forte e perverso dado aos mais dissolutos hábitos, não se preocupando com mais nada. Os súbditos pagavam-lhe na mesma moeda e iam fazendo a sua vida fechando os olhos aos excessos do senhor. Pagavam pesados impostos, sempre sujeitos aos caprichos do amo, da forma como podiam e afastavam-se do seu caminho, sempre que podiam e como podiam evitando um encontro que adivinhavam nefasto. Se eram surpreendidos pelo galope desenfreado de cavalos, limitavam-se a atirar-se para o lado, desviando-se como ervas chicoteadas pelo vendaval.

Era como se não existissem! E os cidadãos agradeciam a sua indiferença. Tentavam também eles passar despercebidos aos olhos e ouvidos do temperamental senhor! Sempre que se passeava pela cidade ou pelos arredores, as famílias escondiam apressadamente as filhas em casa evitando os olhos cobiçadores do nobre senhor. Ninguém se sentia seguro na sua presença e, quando eram chamados à sua presença, tremiam de medo, adivinhando as exigências do caprichoso senhor. Mesmo os seus mais directos colaboradores, limitavam o seu tempo, na sua presença, reduzindo as conversas aos temas puramente administrativos escapando-se logo que podiam. Só restavam os fiéis companheiros que partilhavam a sua vida dissoluta.

Ora, nessa noite, o idoso, após o discurso seguido dos esclarecimentos, seguia para casa pelo caminho habitual, no seu passo largo, espiando o movimento dos soldados, viu, com espanto e alívio, que se afastavam apressadamente para apresentarem o seu relatório ao nobre. Subitamente, um destacamento de seis soldados caminhavam na sua direcção os lhos postos em si. Sentiu o corpo gelar. Era agora! Tão depressa como surgira, o pequeno grupo desviou-se bruscamente noutra direcção. Agarrou-se à parede mais próxima enquanto um enorme abalo tomava conta de todo o seu corpo! Olhou por cima do ombro vendo os passos apressados e ligeiros afastarem-se. Olhou à sua volta, as ruas estavam silenciosas com a aproximação do manto fresco da noite, e nada nelas revelava fosse o que fosse de invulgar, a não ser a passagem furtiva de algum animal vadio, que o pudesse preocupar, pelo que prosseguiu descansadamente até casa. Vivia numa casa, bem perto do centro da cidade num edifício igual a muitos outros pertencentes ao seu estrato social. Era um estudioso e um pensador, os seus conterrâneos viam nele um sonhador honrado, sensato e bom sendo sempre procurado e escutado nos mais vários problemas que lhe eram colocados.

Antes de entrar em casa, rodou a cabeça à procura de possíveis olhos furtivos. Nada a assinalar. A casa mergulhada na penumbra exibia uma frescura contrastante ao calor daquela época. Na sala confortavelmente mobilada, encontravam-se todos os seres que lhe eram queridos: a mulher, as três filhas e os genros. Todos o esperavam ansiosamente para iniciarem a refeição. Da cozinha, desprendia-se um odor a comida que lhe estimulava ainda mais o apetite. Dirigiu-se à sala de braços estendidos agradado com as presenças já anunciadas. Todas as suas filhas tinham casado com nobres de cidades vizinhas. Homens justos e honrados que tratava orgulhosamente por genros! Estavam seguras! Para além do amor encontrado, estavam igualmente protegidas pela fortuna e o poder das famílias dos maridos. Era um dos factores com que contava e que o traziam descansado, embora soubesse que não havia fronteiras para a maldade do seu senhor. Tivera a sorte de dispensar a sua companhia dada a sua fama de sonhador e pensador. O seu senhor rodeava-se de pessoas práticas. Aborreciam-no pessoas como ele. Nem lhes ligava importância alguma, tratando-os como se fossem loucos. O elemento do clero da sua corte começava a inquietar-se com as palavras do velho e, sempre que era recebido em audiência, por entre outros assuntos, não deixava de referir-se ao velho que começava a tornar-se perigoso. E olhando ao casamento das filhas com nobre influentes de outras regiões, torna-o um perigo ainda maior. Era sua obrigação avisar. Invariavelmente as suas palavras eram recebidas com desprezo. Não desperdiçava o seu tempo com loucos. Tinha outros assuntos mais interessantes e mais urgentes do que esse. Os cortesãos que o acompanhavam riam-se das preocupações do clérigo que conheciam desde novos. Ninguém lhe ligava importância! Ora nem tanto assim, pois era uma pessoa muito procurada e respeitada na cidade. Afastou-se satisfeito ao ver uma centelha de desconfiança e insegurança nos olhos do nobre. Cumprira a sua missão. Tão dissoluto quanto os outros, começava a preocupar-se com a sua imagem. Temia, de alguma forma, represálias que os pudessem apanhar.

O senhor já não conseguia divertir-se como nos outros dias. Para que é que fora dar ouvidos àquele infame? Qual era o medo dele? Não estava devidamente protegido dentro das muralhas da cidade? Não lhe dera já provas concretas da sua amizade? Que queria ele mais? A cabeça de um velho louco? Se era assim tão influente, seria insensato mexer com ele. Aí, é que teria complicações sérias! Resolveu deitar o assunto para trás das costas. Ainda por cima, um dos seus genros era primo seu, já não sabia em que grau! Não gostava dele nem ele o apreciava. Eram totalmente diferentes para se entenderem. Nem em pequenos, quando esporadicamente se encontravam, se compreendiam, ambos cientes que os separava um abismo entre os respectivos caracteres. Conhecia demasiado bem a honra, a justiça e a coragem do primo para alguma vez o desafiar ou atentar contra algum membro da sua família. Se os outros fossem como ele, estaria perdido! Teria uma nação inteira contra ele! Depois, e fazendo jus ao seu carácter, pensou como lhe teriam escapado as sua belas filhas… Um mistério!

No confortável salão da casa do excelente orador, a conversa desenvolvia-se alegre e distendidamente. Divertiam-se todos juntos. Só depois da refeições e deixando as senhoras entregues aos seus assuntos, se reuniram na vasta biblioteca, que servia ao mesmo tempo de escritório, acompanhados de um licor aromático. Sentaram-se nas poltronas em redor da pequena mesa redonda e falaram das suas respectivas cidades e dos problemas administrativos resultantes da crise atravessada pela nação. Subitamente, e depois de todos os assuntos preocupantes terem sido abordados, e numa cumplicidade que os unia, os jovens perguntaram-lhe ser sensato expor-se daquela forma, conhecendo a estirpe do governante. O velhote, ao qual não passara despercebido aquele gesto cúmplice, sorriu pacificamente. Com certeza que conhecia os riscos que corria, era por isso que lhes queria falar da esposa. Se não se importariam de a receber. Ela ficaria contente por estar perto das filhas de quem sentia tanta saudade. E atacou o assunto:

- Claro que conheço o temperamento do meu senhor. Conheço-o demasiado, embora me tenha cruzado duas ou três vezes com ele. Mas, já passara demasiado tempo de cabeça baixa permitindo que abusos fossem cometidos sem que nada dissesse. Estava na altura de modificar o curso dos acontecimentos. Valia mais viver um minuto com a cabeça a prémio do que toda a vida que levara de cabeça baixa, receando pela segurança da sua família. Não. Chegava. A revolta e a sua dignidade falavam agora mais alto do que a sensatez. Era por isso que lhes pedia que o ajudassem com a esposa.

Percebendo que nada mais poderiam dizer que o demovesse e como pensavam como ele, acataram o seu pedido desejando-lhe as melhores felicidades no seu empreendimento e ofereceram-lhe todo o apoio que necessitasse. As mãos estreitaram-se e os olhos encontraram-se numa solidariedade onde não eram necessárias palavras. Partiriam no dia seguinte, levando a sogra com eles. Passaria temporadas em casa de todas as filhas, dando tempo ao sogro de levar a cabo o seu objectivo.

Os dias seguiram-se apreensivos. A tensão aumentava na cidade. O volumoso governante sentia os olhos na grande nação postos em si. As ameaças pareciam pairar no ar. A insegurança tomou conta dele e dos seus companheiros, conscientes das vidas depravadas e do ódio que as suas pessoas inspiravam dados os crimes que insensatamente cometeram. A solução encontrada foi a sua participação na cruzada ao médio oriente que partiria dali a uma semana. Fugiu na sua cruzada contra os supostos infiéis na tentativa de que a glória ali encontrada nos seus feitos no campo de batalha, lhe pudesse lavar a honra manchada. Tal como adivinhava, não deixava saudades nem mesmo na mulher que nunca amara nem nos filhos que sempre desprezara no favorecimento da sua vida dissoluta. Não voltaram. A partir daquela altura, um conselho formado por pessoas honradas passou estar à frente do destino da cidade. Respeitavam todas as pessoas que a serviam e procuravam educar o filho mais velho, ainda menor que o volumoso nobre deixara para trás, para que a sua sucessão tivesse uma direcção mais digna.

 

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Domingo, 18 de Abril de 2010

Inês e o Pequeno-almoço

Inês levantou-se cedo. Fim-de-semana. Saltou da cama, calçou as pantufas e vestiu o robe ainda ensonada. Olhou para o rádio-despertador. Marcava sete horas! Acordou a voz dirigindo-se à cara ensonada da mãe e murmurando:

- Vou fazer-te o pequeno-almoço!

Desceu as escadas em silêncio. À sua volta a casa ainda dormitava sob a luz fraca e crua da madrugada. O dia desenhava-se chuvoso e cinzento igual aos da semana que findara. Da cozinha chegavam os ruídos das loiças e dos talheres que se mexiam uns contra os outros sob a autoridade da pequena mão.

A mãe não tinha muita fome. Como estava praticamente reduzida ao espaço da cama, de onde pouco se mexia, o apetite era nulo. Mas como a oferta tinha sido tão sincera e tão simpática e partia de uma pequenina de apenas sete anos, a mãe não teve coragem de a desencorajar. Sentou-se cautelosamente na cama e procurou as caixas dos comprimidos que estavam empilhadas do lado oposto ao da cama. Tinha de tomar três espaçadamente assim que acordava. O primeiro, um protector gástrico, outro para a alergia e outro para combater as dores que a imobilizavam mas que não resolviam o seu problema de saúde. Sentia-se desanimada, Mas procurava guardar esse desânimo para si para poupar as pessoas que viviam com ela. Sobretudo evitava assustar a pequenita. Era engraçado vê-la, à noite, no papel de mãe em ponto pequeno aconchegando os edredões e o lençol ao rosto sorridente da mãe ao mesmo tempo que lhe dava beijinhos alternadamente na face e na ponta do nariz!

Voltou a deitar-se com cuidado esperando o regresso da pequena aventureira que se afadigava na cozinha dividindo-se entre o microondas e a torradeira. A mãe seguia atentamente cada ruído para ter a certeza de que tudo corria bem e ela não se magoava. Seguiu-se um silêncio só quebrado pela voz da pequena que enumerava mentalmente todos os objectos necessários de forma a não se esquecer de nada!

Daí a pouco, viu-a subir atentamente as escadas evitando algum possível acidente. Olhava para o tabuleiro onde se equilibravam precariamente uma chávena e um prato ao mesmo tempo que tentava recordar-se dos degraus da escada onde colocava ora um pé ora outro. Finda a difícil e vagarosa subida entrou entusiasmada no quarto dizendo na sua clara voz:

- As torradas queimaram-se um bocadinho mas eu tirei o queimado com uma faca e ficaram boas! – explicou.

A mãe não pôde deixar de sorrir à explicação avançada enquanto se levantava com dificuldade e se encostava às almofadas da cabeceira. A perna foi devastada por uma espada de dor. O seu rosto contraiu-se. Não conseguiria aguentar-se muito tempo naquela posição. Olhou para o tabuleiro: uma chávena com leite morno, duas torradas de carcaça e um guardanapo em cima do qual descansava uma colher de sobremesa!

A mãe despachou-se a comer para evitar a dor que ameaçava tornar-se mais forte! Olhou o pão que não tinha vestígios das desagradáveis queimaduras negras. Comeu as duas torradas empurrando o pão com o leite sempre tentando encontrar uma posição que diminuísse consideravelmente a dor que se tornava cada vez mais insuportável. Acabada a refeição, colocou o tabuleiro ao seu lado gemendo baixinho de dor. Agradeceu alegremente à filha que pegava no tabuleiro e o colocava num sítio seguro muito contente com a sua iniciativa.

- E tu, já comeste?

Inês acenou afirmativamente.

- E o que é que a minha menina comeu?

- Ora, o mesmo que tu! – respondeu com vivacidade encarando a mãe – Leite com chocolate e torradas!

Subitamente uma voz ensonada, vinda do quarto do irmão da menina, elevou-se no ar:

- Inês, traz-me também o pequeno-almoço à cama!

- E a mim também! – pediu uma risonha voz ensonada do quarto oposto.

Ouviu-se a voz da pequena indignada:

- Olha, vão vocês preparar! Vocês não estão doentes. A mãe é que está!

Voltou-se para a mãe à procura de apoio. Esta piscou-lhe um olho risonho e cúmplice.

- Estão a brincar contigo! – sussurrou encostando o indicador aos lábios.

Sentou-se depois junto da mãe, evidenciando um ar importante que na realidade não sentia e começou a ver os desenhos animados deitando uma olhadela de vez em quando à mãe que, ao seu lado, abria um livro e começava a ler para passar o tempo sem desesperar!

O tabuleiro levá-lo-ia mais tarde quando descessem todos para almoçar.

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Sexta-feira, 16 de Abril de 2010

Mãe, gostas de mim?

Inês era pequenina quando colocou esta questão. Teria três anos no máximo. Talvez nem tanto. Foi a primeira de algumas que viria a fazer posteriormente. Tendo sido uma querida e grande surpresa, a mãe estranhou a questão. É a mais nova da família, tem onze anos de diferença do irmão e oito da irmã. Todos sempre lhe haviam dispensado muita atenção e carinho. Ainda assim, ela colava-se à mãe durante os momentos de pausa e repetia a questão como se quisesse assegurar-se da veracidade dos sentimentos ou porque tivesse necessidade de ouvir várias vezes da boca da mãe ou porque necessitasse de mimo. A mãe abraçava-a, beijava-lhe as madeixas escuras que lhe chegavam aos ombros. Mas parecia não chegar. Periodicamente, lá vinha a mesma questão nascida não se sabia bem do quê.

Uma noite, estavam as duas recostadas na cama da mãe, quando Inês voltou a questionar a mãe sobre os seus sentimentos por ela. A mãe percebeu que era sério. Inês tinha de perceber o quanto era importante na sua família, não sabia bem porquê. Sempre fora a pequenina, a menina de todos. Havia sido criada pela mãe e os irmãos com a ajuda preciosa dos avós.

A mãe fez uma pequena incursão no passado. Não fora fácil. Ficara grávida na altura exacta em que se estava a separar. Os enganos haviam sido a parte que a marcara mais. O muro emocional desmoronara-se. Sentira-se impotente perante o novo rumo da sua vida. Tinha dois filhos e vinha outro a caminho. Como seria a vida dali para a frente? Conseguiria enfrentar sozinha o mundo e tudo o que de difícil ele tem? Duvidara de si. Não duvidara nunca da vida que crescia dentro de si. Foi ao médico que confirmou a existência da vida dentro de si. Dada a idade avançada deveria fazer um exame para saber se estava tudo bem com o bebé. Não quis. Não conseguia aguentar outra perda. Assumiria o pequeno ser tal como viesse ao mundo. Passaram-lhe pelo pensamento algumas ideias aparentemente assustadoras que acabara sempre por suavizar. O amor suaviza tudo. No amor não há medo!

Nesse momento, a mãe decidiu que arranjaria uma história que a levasse a ter noção do amor da família por aquele pequeno ser. Pensou um pouco, enquanto abraçava carinhosamente a sua pequenina. De repente, lembrou-se de uma expressão do seu pai, já velhote, que parecia perdido num país longínquo, enquanto repetia para si em voz alta “Esta menina não tem culpa de cá estar. Esta é que não tem mesmo culpa de cá estar!” Esta fora uma expressão que marcara profundamente a mãe de Inês. Apercebera-se, sem esforço, da importância daquela menina. Surgira por acaso. Não fora planeada, contudo a mãe nunca duvidara em acolher aquela milagrosa prenda da vida. Então, começou a falar baixinho, enquanto a apertava contra si:

- Sabes gosto de ti desde que tinhas este tamanhinho assim. – e juntava o dedo polegar ao dedo indicador para a fazer entender.

Inês observou-a encantada. Juntou por sua vez os dois dedos da sua pequena mão imitando o gesto da mão.

- Não – observou – tu gostas de mim desde que era deste tamanhinho. E estreitou ainda mais o espaço entre os dedos.

- Nem mais! – concordou a mãe – Desde que soubemos da gravidez, isto é, que tu estavas dentro da minha barriga todos nós nos apaixonámos pela ideia – eu, a mana e o mano. Sabes o que fazia a mana? Punha-se debaixo do lençol e cantava baixinho junto da barriga para que tu conhecesses a sua voz. Outras vezes, contava-te histórias sobre nós. Adorou a ideia de seres uma menina!

- O Bruno não. Queria um menino para o ensinar a jogar à bola! – sentenciou a pequena.

- É verdade. O Bruno não sabia muito bem como brincar com uma menina. Mas, depois, habituou-se de tal forma à ideia, que passou a adorá-la. Observava as meninas que encontrava e passou a achar-lhes muita piada. Mas há mais… - acrescentou num tom misterioso. Inês aconchegou-se mais à mãe – Sempre que tinha de sair para tratar de algum assunto e não demorava muito tempo, os manos ficavam contigo e tomavam conta de ti. Uma vez, demorei-me mais um pouco e cheguei a casa preocupada. Fiquei admirada ao observar a mana a mudar-te a fralda e a limpar-te o rabito, enquanto o teu irmão, apavorado, tinha medo que ela fizesse alguma coisa mal que te pudesse prejudicar. Quando cresceste e começaste a andar, andavam sempre atrás de ti com medo que caísses. Um dia, quando fomos a um restaurante, tu quiseste experimentar uns baloiços que lá havia. Era uma espécie de túnel com algumas escadas e um escorrega. Tu desembaraçavas-te bem. Ainda assim os manos, enquanto comiam, observam-te com medo que os outros meninos te pudessem magoar, empurrar. Aconteceu isso uma vez e os teus irmãos levantaram-se imediatamente da mesa para irem pôr ordem no parque. Estavam sempre atentos não fosse algum deles voltar a empurrar-te. Como eras muito meiga e não te sabias defender, faziam isso por ti.

A partir dessa altura, a questão muitas vezes repetida, fora substituída pela brincadeira dos dedos. Inês aprendera que desde muito cedo, desde que não passava de um pequeno ponto na barriga da mãe, fora, desde logo, desejada e muito amada, apesar das contrariedades da vida por que passara. Desde então, parecia mais segura de si e nunca, nunca mais voltara a questionar a mãe sobre tal assunto.

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Domingo, 11 de Abril de 2010

Inês e a tabuada

Segunda-feira. A tarde quente acompanha o sol na sua viagem circular. Ao contrário das outras sempre cinzentas, húmidas e escuras, este dia trouxe um sabor prematuro a Primavera. Na rua calma, esvoaçam pequenos pássaros numa dança exótica. Os eucaliptos dançam ao sabor da brisa e cantam louvores ao astro destapado pelas implacáveis nuvens. É um dia especial. As paredes, de onde escorrem desagradáveis tintas azuis, abrem os braços ao ar queimado pelos raios solares. Da casa ao lado, o silêncio marca a ausência de seres mergulhados em tarefas distantes.

São duas horas. A campainha da escola marca o fim do matinal período escolar. Inês corre para o enorme pátio em busca do largo rosto engelhado da avó materna. Encontra-o do lado de fora das grades junto ao rosto fiel e submisso do avô que pergunta constantemente quem é que anda naquela escola. A esta pergunta a avó vai respondendo com alguma impaciência. A doença faz esquecer o avô. A sua memória mais recente não retém informação, funciona como um saco vazio. A resposta entra no cérebro para logo fugir por um qualquer sítio mágico.

Inês traz às costas a mochila com o material escolar. É pesada mas não se importa. Trocou-a há dias pela sua pasta de rodinhas da qual já está saturada. Imita os irmãos ou as colegas ou talvez esteja farta de arrastar atrás de si um peso que lhe limita os movimentos. É pesada mas não se importa. Prefere assim. E não há argumento que a possa demover.

Apanharam o autocarro que os levará até metade do trajecto que leva até casa. O autocarro não está muito cheio, mas os poucos lugares sentados estão, quase todos, ocupados. O único banco livre é ocupado pelo avô que tem muita dificuldade em se equilibrar nos saltos e curvas desenhados pelo autocarro. Inês observa o ambiente à sua volta. A maioria das pessoas que viaja no pequeno meio de transporte é idosa. Algumas admiram a paisagem como se a avistassem pela primeira vez ou como se tivesse sido atacada por uma alteração muito curiosa ou sensacional. Duas idosas não param de tagarelar referindo-se a eventos e pessoas desconhecidas. Inês, de pé, junto da avó, tenta equilibrar-se o melhor que pode. Subitamente, sente os olhos das duas conversadoras poisarem na sua pequena estatura séria. Desconfiou. Não gosta de pessoas que falam de outras. Iriam referir-se agora a si? Desviou os olhos timidamente. Uma voz alta sobrepôs-se ao ruído do motor do transporte.

- A menina tem uma mochila muito pesada às costas. Só faz mal à coluna.

A outra concordou, tendo ido logo buscar uma quantidade de desgraças de que tivera conhecimento durante toda a sua vida.

Inês detestou as duas senhoras. O que é que elas tinham a ver consigo?

Desviou a cara para a face da avó. Em cheio! Era ainda pequena mas já percebia que certas afirmações feriam a dignidade da avó. Iria arranjar discussão por aquilo. Mergulhou o olhar duro nas duas impertinentes senhoras.

Saíram na primeira paragem aguardando calmamente a chegada do outro que os levaria até ao fim da linha. Não demorou muito. A avó, num gesto brusco, puxou a pesada pasta das costas da neta e colocou-a bruscamente no chão. Uma ameaça de discussão perpassou o ar impregnado de água. Com a visão nublada, Inês sabia que aquela era a reacção consequente da observação realizada pelas senhoras. Não haviam dito nada de novo. Toda a gente sabe que os pesos fazem mal ao esqueleto humano e que as pastas dos meninos são muito pesadas, fora o tom utilizado que ferira os sentimentos da avó. Ficou quieta e determinada. Continuaria a carregar o pesado saco até que lhe apetecesse. Todos faziam o mesmo. Não havia volta a dar ao assunto. A não ser que deixasse algum material em casa… Era parvoíce. Resolveu pensar noutro assunto. Estava ansiosa por chegar a casa e fugir daquela irritante chuva que os mergulhava a todos numa disposição terrível. E em casa estava a mãe que a ajudaria nos trabalhos de casa, logo que acabasse de almoçar. Era bom ter a mãe em casa, apesar de estar doente. Inês sentia-se impaciente.

O autocarro parou afastado do passeio evitando molhar as pessoas que rodeavam cuidadosamente o inesperado lago artificial, comodamente alojado no alcatrão.

O calor desprendido do veículo reconfortou-os. Este estava mais vazio e havia espaço para se sentarem todos. Inês ocupou um lugar junto do vidro enquanto os avós se sentavam do outro lado do corredor, na mesma fila. Agora era um instantinho!

Na nacional, as pessoas afastavam-se cuidadosamente para a berma da estrada permitindo aos transportes cruzarem-se facilmente, sem correrem o risco de serem apanhadas.

A casa da Inês fica fora do centro da localidade onde vive. Só há pouco tempo a Câmara disponibilizara transporte capaz de levar as pessoas dos arredores até à cidade. Acabara-se o isolamento. Da paragem até ao seu acolhedor lar, teriam de caminhar uns escassos trezentos metros sobre um passeio largo.

Numa corrida ligeira, protegida pela sua longa capa vermelha, a menina depressa tomou a dianteira para abrir o portão e a porta de entrada.

Descalçou as botas e subiu ao primeiro andar para abraçar a mãe e contar-lhe as novidades, enquanto os avós se instalavam no piso inferior arrumando peças de mercearia trazida do carrinho das compras.

Vestiu o fato de treino e voltou a calçar as pantufas. Pendurou a roupa na cadeira e sentou-se na cama ao lado da mãe.

Retirou o caderno da pasta e o estojo. Trazia trabalhos de casa de Matemática. Está a aprender as tabuadas do dois, do três, do quatro e do cinco. As contas com transporte são também um grave problema para si. Como é muito distraída, esquece-se sempre dos números que vão de trás na adição e na subtracção. A mãe está a ajudá-la. Divertem-se muito juntas. Se se enganam riem-se muito e voltam a concentrar-se na matéria estudada.

O Avô, a certa altura, incentivado pela avó, juntou-se-lhes. Já tinham ultrapassado a fase das contas, estavam agora a tentar memorizar a tabuada. O avô sentou-se na cadeira disponível aos pés da cama, virado para elas. Estava muito atento ao que diziam. Subitamente, a mãe lembrou-se de o integrar na brincadeira afastando-o do seu mutismo. E começou a brincadeira da tabuada. Quando Inês não respondia, o avô, com a rapidez de uma calculadora, respondia correctamente a todas as questões. Inês, mais atrasada virava-se admirada para o seu idoso avô. Espertas, as duas experimentaram toda a tabuada e… ele acertou em todas. Se Inês o tentava enganar, na brincadeira, ou se enganava, ele respondia prontamente que era mentira corrigindo de seguida o erro.

Passados uns instantes, a avó, alertada pelo alarido dos risos e das palmas batidas ao sucesso do idoso, juntou-se-lhes admirada com a habilidade do marido. A doença ainda não matara a sua memória mais longínqua. Pelo menos não atingira ainda a escolar.

- É bom saber a tabuada e responder assim depressa – observou Inês admirada.

- Para tal – respondeu a mãe – terás de a repetir muitas vezes até a saberes.

Inês ficou pensativa. Se fosse sempre como naquela tarde, até que seria divertido aprender a tabuada. As contas eram divertidas!

publicado por fatimanascimento às 17:31
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Sábado, 10 de Abril de 2010

O estigma da beleza

Há muitos, muitos anos, vivia numa pequena aldeia um rapaz muito, muito feio a quem nenhuma rapariga queria para casamento. Reuniam-se no largo em alegres magotes nas serenas tardes luminosas dos vagarosos verões domingueiros cochichando e olhando cobiçosamente para o grupo de rapazes agrupados no outro lado daquele espaço. Espalhados em pequenos grupos encontravam-se os mais velhos conversando animadamente entre eles aparentemente alheios ao que se passava à sua volta, sentados com as abas dos chapéus escuros puxados para os olhos, enquanto as mulheres puxavam comodamente os lenços vistosos para as testas que cobriam os cabelos atados num rolo entrançado apertado na nuca. O céu recortado por fios esticados, de onde pendiam alegres e coloridos papéis elegantemente recortados, presos às casas que se agrupavam à volta do indiferente pelourinho esguio que desafiava heroicamente o enfurecido sol, que emprestava às faces um colorido inusual. Tudo parecia estar a postos para o desejado baile. Era neles que os rapazes e as moças casadoiros estreitavam ligações com os desejados pares.

Estava o largo neste efervescente entusiasmo, quando o rapaz feio apareceu calmamente no largo olhando em redor. Acercou-se ao grupo dos rapazes que trocavam conversas deitando ousadamente olhares para o grupo feminino. Foi alegremente cumprimentado e imediatamente esquecido pelo interesse que se direccionava para o outro lado do largo de onde se esgueiravam outros olhares discretos mas atentos esperando cruzarem-se com os dos eleitos ou estudando a direcção para descobrirem a fonte do seu interesse.

À semelhança dos seus pares, o rapaz feio estudou o quadro que se desenrolava à sua frente. Tudo correspondia ao esperado. E já estava determinado a desistir quando um ser esguio entrou no seu campo de visão. Era a rapariga dos seus sonhos. Ao contrário do esperado, não se reuniu às outras companheiras, mantendo-se teimosamente à margem, olhando na direcção do aglomerado masculino. Ficou intrigado. Que se passava? Há quanto tempo estaria ali? Teria acabado de chegar? Se assim fosse, estava explicado o afastamento. Era uma das mais belas raparigas que lhe fora dado o prazer de encontrar. Era tão bela quanto inatingível. Pelo menos para si! Via-a conversar com outros rapazes e raparigas da aldeia sem nunca parecer interessar-se por algum. Dir-se-ia esperar pelo seu príncipe encantado. Sempre a julgara destinada a grandes voos, os mesmos que a natureza lhe retirara. Todos os rapazes pareciam estar enamorados dela, mas nunca se atreviam a aproximar-se como se a sua formosura fosse uma vedação alta que mantinha afastados os pretendentes. Não havia na sua atitude, contudo, nenhuma vaidade capaz de justificar aquele efeito no sexo contrário. Nenhum parecia vê-la com os seus olhos. E era estranho! Nunca percebera a razão mas também nunca se dera ao trabalho de interrogar fosse quem fosse, com medo de desvendar o segredo que tinha tão zelosamente guardado em si. A sua atitude era invulgar. Deu por si a caminhar na sua direcção. Os colegas nem haviam escutado a desculpas pela sua ausência tal era o entusiasmo suscitado pela presença das raparigas que, ainda há relativamente pouco tempo, pareciam estar irremediavelmente separados. Ainda se lembrava de como se odiavam mutuamente! Nem importava se nos grupos haviam irmãos e irmãs. Nas brincadeiras não importavam os laços de sangue! Interessava o género. Eles intervinham nas suas brincadeiras ridicularizando-as e para as perturbar rindo-se aparentemente indiferentes aos protestos e aos furiosos empurrões desencadeados pelos seus atrevimentos. Muitas vezes, aos apelos das filhas acorriam as mães para ralharem com os desagradáveis moços! As tensões diminuíam nos dois grupos mas a desconfiança mantinha-se intacta enquanto eles mantivessem nas proximidades com receio de futuras investidas. Ao perceber desde sempre a diferença marcante entre si e os amigos, ele tentara sempre impor-se de forma diferente da dos colegas. Tornava-se no apaziguador e no conselheiro numa tentativa de impedir ou cortar as brincadeiras que incorriam no desagrado das meninas. Nem sempre lhe davam ouvidos. De tempos a tempos, vira-se no meio de contendas ácidas que ele se via aflito para solucionar, terminando estas quase invariavelmente com a presença de um adulto que fazia o papel de juiz nas desavenças dos miúdos. Aí, ele tornava-se o advogado de defesa ou acusação dos envolvidos superando, pela sua imparcialidade e inteligência os testemunhos parciais de ambos os grupos. Maria das Dores era a que mais se impunha aos rapazes que se mantinham afastados dela. Crescera em graça e beleza sendo admirada na sua aldeia e nas da vizinhança. Até o sangue nobre parecia atraído por tanta candura! E não era difícil ver jovens montados nos seus cavalos perdendo-se em grupo ou em solitário por aquelas bandas. Muitas vezes experimentara aproximar-se quase involuntariamente dela ou ficava observando de longe aquele interesse que se arrastava pelos campos quase em jeito de corte. Por último, tinha descoberto um fidalgo das redondezas que alargava os seus passeios diários por aqueles campos distantes, olhando demoradamente o corpo elegante que se movimentava dobrado à tarefa dos campos. Não lhe era difícil imaginar vê-lo a rondar de forma a descobrir os hábitos da rapariga. Parecia um lobo esfomeado! Como não pensara nisso antes? Dando atenção à reputação dele, todo o cuidado seria pouco! Apressou o passo à medida que este pensamento se insinuava na sua mente. Mais do que uma ideia era um pressentimento. Não percebia era como nunca mais ligara ao assunto! Como se fora esquecer dele daquela maneira? Mas tudo poderia não passar de imaginação sua! Só lhe restava uma solução – perceber o que acontecera. Forçou a memória. Não tinha ouvido falar de nada. Nem mesmo aos rapazes. Se tivesse acontecido algo, já se saberia. O mais certo era tudo não passar de imaginação sua! Poderia estar simplesmente enamorada e buscar um pouco de sossego. Mas não combinava com ela aquela atitude. Havia algo de errado! Ela era naturalmente alegre e espontânea.

Ao aproximar-se dela, afastou aqueles pensamentos que tanto o perturbavam. Parou junto do olhar ausente da moça. Não era fácil colocar-se junto dela, uma vez que se encontrava relativamente afastada do grupo mais próximo, onde lhe chegavam restos de conversas agarradas pelo vento. Sobressaltou-se ao sentir uma mão poisar cautelosamente no seu ombro. A sua atenção desviou-se do ponto invisível que a parecia absorver para se arrastar lentamente, como se acordasse de um sonho, para o indesejado perturbador. Os lábios alongaram-se num sorriso afectuoso ao reconhecerem o terno rosto feio que lhe avançava algumas frases. Abanou a cabeça de um lado para o outro da primeira vez que foi interpelada e afirmativamente da segunda. Começaram a afastar-se do largo para onde alguns passos apressados se dirigiam soltando um cumprimento passageiro. Gostava de conversar com aquele jovem que sempre fora tão respeitoso para com ela ultrapassando os galanteios, por vezes inconvenientes, de certos cavalheiros que se cruzavam com ela. Sobretudo os desconhecidos. Os da terra, dada a proximidade dos laços que unia a povoação, raramente se prestavam a esses jogos que, quando aconteciam, não passavam o patamar da brincadeira. Ela até lhes respondia com igual sentido de humor. De resto, a amizade que unia os jovens era forte. Afinal, haviam crescido lado a lado. Conheciam-se desde sempre e tinham irmãos mais novos ou mais velhos da mesma geração.

Os seus passos afastaram-se do largo. Ninguém parecia dar pela sua falta. À sua frente os raios solares começavam a desenhar uma curvatura cada vez mais baixa, que culminaria dali a algumas horas no seu desaparecimento por trás dos montes que rodeavam a pequena aldeia aninhada no vale profundo. Meteram-se pelos caminhos de terra ladeados por muros de pedra escura. A conversa desenvolvia-se naturalmente entre eles. Ele fazia uso do seu sentido de humor ao qual ela não resistia. Em vão. Nessa tarde, nada parecia exercer qualquer efeito sobre ela. Embora se mostrasse alegre e desprendida, o rapaz feio percebia que algo a preocupava. Mas o quê? Não era impressão sua. Conhecia-a bem de mais. Nunca se interessara tanto por uma rapariga como por ela pelo que a conhecia bem.

A determinada altura, fez notar que percebia na sua atitude que havia qualquer coisa que a perturbava. Ficou calado à espera de resposta. Como ela tardasse ou nem mesmo já a esperasse, estacou o passo e voltou-se para a encarar. Ela parara ainda antes dele. Ergueu-lhe docemente o rosto pegando-lhe com dois dedos no frágil queixo. Os seus olhos rasos de lágrimas ameaçavam explodir numa forte emoção a qualquer momento. Sentou-a num rochedo liso e enorme que se encontrava na bifurcação do caminho. Ajoelhou-se diante dela e esperou enquanto lhe estendia um lenço. Ela sorriu por entre as lágrimas que deslizavam agora dos imensos olhos pelas faces magras e aveludadas. Respeitou a emoção da amiga esperando que acalmasse para que ela pudesse finalmente começar a falar. A tristeza esvaziava os seus olhos e a sua alma. Foi então que começou a contar o que lhe acontecera havia duas semanas. O rapaz feio fechava o punho de indignação e revolta. Lentamente, a culpa foi-se insinuando no seu espírito. Era culpado do que acontecera à amiga que amava tão ternamente. Finalmente, ela terminou o discurso entrecortado pelos soluços quando passara à parte que mais a magoava. Também ela se sentia culpada pelo que havia acontecido. Como tinha sido tão parva? Como não desconfiara de nada? Ele não se aguentou mais. Contou-lhe que a culpa era só dele. Dera pela ronda mas nunca pensara que o atrevido fidalgo se atrevesse a tanto! Ele reparou que o tinha deixado de ver a partir de determinada altura. Pensara que tivesse encontrado outro motivo de cobiça longe da aldeia. Enganara-se rotundamente. O seu aparente desinteresse devia-se a ter levado a avante os seus maliciosos planos. Nem mesmo a imagem da bela cara do fidalgo toda arranhada o fazia sorrir. Gostaria de ter ouvido as desculpas que dera em casa. Os tojos devem ter aguentado com as culpas. O aparecimento súbito de um animal feroz, o susto do cavalo que se empina, e as plantas espinhosas mesmo ao lado. Abanou a cabeça desgostoso. Ela não queria falar aos pais ou aos irmãos. Tinha medo do que pudesse acontecer. Ele assentiu. Mas não poderia desistir de ser feliz. Ela olhou-o com uma careta que revelava toda a incredulidade que lhe enchia a alma. Ele fora arrebatado pelo sentimento que o dominava. Quem a queria? Ora, ele não se importaria nada de experimentar a vida ao seu lado! Olhou-o de soslaio. Era tonto! Arruinar a sua vida para ficar com ela e com o possível fruto daquela única mas consumada relação? Ele confirmou a sua ideia com a cabeça. Ele estava a falar a sério não estava? Olhou-o incrédula. Percebera tudo! Há quanto tempo tinha esse sentimento por ela? Desde que se lembrava! Não exactamente quando começara a gostar da amiga! Ela levou a mão à boca perdida em pensamentos. Ele estava disposto a tudo por ela! Abanou a cabeça. Não ia deixar que fizesse isso? Porquê? Ele era bom de mais?! Não somente a amava. Nada mais! Ela fitou-o finalmente e viu toda a ternura nos seus olhos. Se não gostava dele? Sempre achara que ele a achava uma tonta! Nunca pensou que alguma vez pudesse olhar para ela com outro sentimento que o da simples amizade! Como se enganar! Confessou-lhe então que sempre o apreciara e que ao tentar captar a sua atenção dera com o seu rosto fechado ou com uma simples resposta cheia de humor que a fazia rir mas que parecia afastá-la dele. Sorriram. Como tinham andado enganados aquele tempo todo! Fora preciso uma desgraça para que eles tivessem a liberdade e a frontalidade necessárias para falarem sem receios dos seus sentimentos.

- Sabes, às vezes a beleza pode ser um peso que acarretamos às costas a vida inteira! – volveu tristemente ela. –principalmente de pois de vermos certos homens a olhar para nós de uma certa maneira… - parou à procura da palavra certa – cobiça misturada com uma obsessão medonha!

- Pois… mas depende das pessoas com quem temos a sorte ou o azar de nos cruzarmos! – rematou ele. – Só isso!

Não valia a pena falar mais disso. O que lhe acontecera, poderia ter acontecido a qualquer outra rapariga. Aliás, a fama dele precedia-o! Ela não o conhecia! Não sabia quem ele era. Depois, a abordagem havia sido inofensiva. Os rapazes já o conheciam mas era só conversa entre eles. Nada mais. Não tinham visto necessidade em contar fosse a quem fosse. Parecia-lhes inofensivo. Agora, se ele voltasse, o que ele duvidava, perceberia ou fá-lo-iam perceber que ela tinha dono. Se isso queria dizer que nunca mais se separariam? Claro que sim. Mas dependeria do entorno… acrescentou com um largo sorriso.

Sorriram. Não havia nuvens no seu horizonte. O céu claro mostrava-lhes o caminho das suas vidas. Eles limitar-se-iam a segui-lo.

 

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Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

Inês e a brincadeira

Quando Inês chegava a casa, depois da escola, almoçava e fazia os trabalhos de casa. Quando acabava os deveres, entregava-se à sua adorada brincadeira. Sempre com os brinquedos espalhados pela casa e na varanda, não quer que ninguém mexa neles. Sempre que vive determinada estória imaginada, muitas vezes, não consegue acabar as aventuras a tempo das refeições e até à noite se despede com saudades deixando tudo pronto para retomar a acção inacabada. As suas brincadeiras são vividas com intensidade emocional. Muitas vezes, na sua voz transparece tanta emoção que a mãe e os irmãos perguntam do piso inferior se está tudo bem, ela, surpreendida, responde que sim. Seja na varanda ou dentro de casa, as brincadeiras são sempre vividas da mesma forma. A sua voz repercute-se pelo espaço em redor enchendo os ouvidos dos curiosos. Sozinha enche um teatro! É um regalo vê-la brincar. Todos os seus bonecos, mesmo os danificados têm um papel importante nas infindáveis aventuras.

Mas as brincadeiras modificam quando ela e os vizinhos se juntam. O entusiasmo é o mesmo, mas toma um rumo diferente. Divertem-se tanto juntos que agora é difícil separá-los!

Quando chega da escola, Inês já não se concentra nos trabalhos de casa. Anda desatenta sempre à procura dos amigos e vice-versa. Quando não é ela que o chama é ele que a chama. O entusiasmo é igual. Sempre que chegam a casa, a primeira preocupação é procurarem-se. Como o amiguito anda no infantário, tem muito tempo para brincar, mas Inês tem de aprender as contas com transporte. Assim, estabeleceram um plano estrito a ser seguido por ela com a ajuda da mãe. A ideia é continuar a realizar o trabalho, antes de Inês se entusiasmar com as aventuras partilhadas.

Uma vez a mãe aborreceu-se com ela. Tinha começado a fazer uma ficha de matemática mas levantava-se com frequência andando de um lado para o outro. Voltava a sentar-se e continuava a resolver as contas. De repente, lembrava-se, e erguia-se para ir à varanda. Ficava por lá uns momentos para regressar depois frustrada. Baixava-se e continuava o trabalho de casa. Quando ouviu uma voz, a sua cabeça espetou-se no ar atenta. Levantou-se num ápice e foi até à varanda. Ao descobrir o amiguito em cima do muro à sua espera, largou apressadamente o lápis em cima da mesa e desapareceu. A mãe chamou-a, respondia mas não obedecia. A mãe, que estava doente, começou a impacientar-se e chegou mesmo a lamentar não ter a filha mais velha presente que a iria buscar pelo braço e a obrigaria a sentar-se à mesa até acabar o trabalho. Não obedecia à avó nem à mãe. Como fazer Inês obedecer? Se ao menos não tivesse tantas dificuldades nas contas… continua a esquecer-se dos que vão de trás. A mãe já a ensinou que a partir da soma dez vai sempre um ou mais de trás que deve somar à coluna seguinte.

Só a noite os separou. A mãe estava muito zangada. Combinou com ela que a primeira tarefa a realizar quando chega a casa são os trabalhos e, de pois, a brincadeira. Enquanto não acabar tudo não pode ir brincar. Há tempo para tudo. Diz ao amigo. “Eu vou fazer os trabalhos de casa e, quando terminar, venho chamar-te!” e quando tiver de ir lanchar basta fazer o mesmo diz ao menino “Espera um bocadinho que vou lanchar” ou “ Vai lanchar também, o primeiro que chegar, chama.

Inês olhou séria para a mãe. Avaliou o rosto severo e percebeu que não estava a brincar. Ficou pensativa.

- Mas se eu disser para esperar ele vai-se embora!

A mãe sorriu.

- Não vai, não! Gosta tanto de brincar como tu ou mais! Estará lá sempre! Ele mora aqui mesmo ao lado. Se não puder brincar numa altura pode noutra. É preciso ter paciência!

Como a mãe a compreendia! A mãe tinha muito trabalho. A diferença de idade entre ela e os irmãos era tão grande, e tinham também as suas responsabilidades, que passava muito tempo entregue a si própria usando a sua imaginação como companhia! É bom mas pode cansar quando a solidão é muita. Mesmo quando é uma solidão acompanhada! Não a poderia censurar. E não estava! Tentava só que ela pudesse fazer tudo de forma a não se prejudicar na escola. A escola também é importante! E ela é inteligente!

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Domingo, 4 de Abril de 2010

A Nova Ordem

(A Harold Pinter)

 

Era uma vez uma Nação Grande. A Nação Grande pediu ajuda a outras nações para combater outras. Estas nações combatiam-na e às forças suas aliadas, mostrando o seu desagrado pelo seu envolvimento na sua política interna. Como todas as partes tinham os seus aliados, uns apoiando abertamente a Nação Grande e outros apoiando silenciosamente as outras, a guerra alastrou-se para várias frentes. E, num ápice, todo o mundo ficou em guerra. Mas a Nação Grande não se importou. Tinha mais armas do que o resto do mundo e as mais poderosas. E tinha os seus aliados também fortemente armados com as armas que lhes haviam vendido! Tudo estava controlado! As réplicas aos seus desmandos eram poucas e quase inconsequentes, pois as baixas nas suas tropas eram poucas ou nenhumas! Depois, como continuasse a ter na sua posse o fabrico das armas mais mortíferas, os seus líderes começaram a ficar mais gananciosos e começaram a olhar para os seus aliados como lobos esfomeados. “E se… - interrogavam-se. E mal ainda tinham pensado começaram logo a planear e a agir. Continuavam a ser os mais poderosos, pois tinham sob o seu controlo as piores armas, que o mesmo é dizer, as mais destruidoras, e lançaram-se confiantes ao novo empreendimento. Chegados a uma altura, os mortos eram tantos que os sobreviventes não tinham mãos para lhes darem um honroso túmulo, depois da breve cerimónia fúnebre. O medo imperava! Olhava-se por cima do ombro constantemente, com a certeza de que estavam a ser vigiados! E olhavam uns para os outros com desconfiança. Quais seriam os espiões infiltrados? Haviam decerto informadores entre eles! Tinham provas disso! Haviam-lhes chegado informações que só com esta explicação as teriam conseguido! O pânico de serem apanhados devorava-os constantemente e só a grande determinação e a devoção à causa o suplantavam!

Semeado o clima de terror, a Nação Grande sentou-se a descansar deixando os seus militares, a polícia secreta e as suas potentes armas de vigia. Não havia nação alguma que erguesse um exército capaz de vencer o seu! Teriam, pelo menos, de esperar várias gerações até conseguirem fazer-lhe frente em termos humanos; quanto às armas seria improvável que alguém, alguma vez, a igualasse. (Tinha ganho em todas as frentes!) Continuava a inventá-las, a fabricá-las e a arrumá-las em enormes armazéns, sempre prontas a serem experimentadas ou utilizadas sobre os insurrectos das nações submetidas pela força! E havia a arma certa para c Ada situação específica! Isto para já não falar das fábricas de seres humanos que alimentavam as fileiras dos seus intermináveis exércitos! Eram criados para a guerra e só conheciam essa realidade. Quando não estavam em guerra, vigiavam os povos das nações insurrectas e agiam conforme a lei que lhes havia sido inculcada – a força! Recorriam a todos os velhos e sempre actualizados métodos conhecidos (não conheciam a compaixão) aliados da violência para a qual tinham sido criados. Com o mundo assim controlado, a Nação Grande tornara-se uma nação cada vez mais forte e omnipresente. A sua vontade justificava os meios!

Dentro das suas eliminadas fronteiras, a população assistia impotente aos seus feitos realizados a uma velocidade estonteante, de forma distinta: enquanto uns rejubilavam com as suas vitórias sobre as outras nações (sem se importarem com os meios envolvidos), outros assistiam a tudo incrédulos! Começaram por se manifestar nas ruas insurgindo-se contra as invasões e os meios empregues, de toda a nação, não se revendo nas acções levadas a acabo pelos seus líderes! Nem queriam acreditar que todas as pessoas eleitas não faziam grande diferença entre si! Era como se vestissem uma imagem que em nada correspondia à sua forma de pensar! Ninguém compreendia o que estava a suceder! Também não compreenderam quando, nas mesmas ruas, a par das suas manifestações haviam outras contra-manifestações orquestradas por conterrâneos apoiantes da política dos dirigentes! O exército só tinha uma função: preservar a ordem! Assim, desceu a violência sobre uns e outros! Afinal, era a outra lei que, a par da violência, tinham aprendido! Os representantes da Nação Grande já não precisavam de apoiantes só de ordem! E os membros do exército, desligados de qualquer laço afectivo ou de parentesco, realizavam satisfatoriamente essa função!

As pessoas ficaram sujeitas  à rotina que as obrigava a ficar em casa de onde saíam só para trabalhar! Nunca, até ali, haviam sofrido tamanha afronta! Que se passava? “Eram cidadãos de direito da Nação Grande!, pensavam indignados os que não concordavam com a política dos poderosos governantes. Os outros, os apoiantes da política expansiva da Nação Grande nunca haviam sido tratados daquela forma! Antes pelo contrário! Sentiram-se ultrajados e planeavam agora entre si formas de vingança contra aqueles que haviam apoiado antes. Serem tratados como os cidadãos das nações submetidas pela força?! Onde já se vira? Nunca nos anais da História da Nação Grande houvera registo de tal ultraje! Haveriam de esperar pelas próximas eleições… ou não?! Exigiam desculpas da parte daqueles que haviam eleito!

Estes riram-se com vontade! A ligação entre eles e o povo terminara logo após as eleições e nem percebiam isso! Nem desculpas nem eleições! Já não precisavam deles! A lei agora era igual para todos os cidadãos do mundo! Toda a população da Nação grande ficou estarrecida! Os seus apoiantes empalideceram de raiva. “Já não reconheciam os amigos? Que se fizesse uma coisa daquelas aos outros ainda se tolerava, mas a eles?!”, diziam indignados. Outros pensavam: “Como poderiam ter eleito pessoas como aquelas? Pareciam tão diferentes aquando das suas campanhas eleitorais! Teriam sido contaminados por uma estranha febre politica? Desde quando? Como? Porquê?”, diziam aturdidos.

Passada a surpresa inicial, e já de cabeça fria, começaram a engendrar meios para acabar com aquela injusta situação. Embora a palavra justiça não significasse o mesmo para ambas as partes – para os surpreendidos tinha um sentido mais abrangente para a os indignados apoiantes tinha um sentido mais restrito – resolveram que tinham de terminar com aquela situação! Foi então que perceberam que estavam ao nível das populações das outras Nações – não tinham meios que se pudessem equiparar aos dos líderes da Nação Grande. Alarmados, pensaram nas dificuldades atravessadas pelas populações das outras nações apelidadas de “terroristas” mas que mais não eram o que pessoas que se recusavam a aceitar aquela situação de submissão e que lutavam pela reposição de uma ordem diferente. Muitos já tinham morrido em confronto, outros haviam sido capturados pelos braços intermináveis e omnipresentes do exército da Nação Grande para serem interrogados e torturados de forma a convencê-los a falar, que o mesmo é dizer a denunciar todos aqueles que faziam parte da alegada organização terrorista! Embora as nações se ajudassem pouco ou nada conseguiam contra o todo poderoso exército da Nação Grande. As outras nações não passavam de meras explorações onde trabalhavam os povos revertendo grande parte do que produziam para alimentar esse pesado exército e as necessidades da Nação Grande para quem tudo era pouco no sentido de se manter na supremacia. Esta reinava o mundo sob o peso do terror a que submetia todos os povos das outras nações em nome de grandes ideais como terminar com a construção de armas de forte destruição e a protecção do seu espaço. Basicamente a ideia resumia-se a uma frase – atacar para se defender! Só que estes ideais eram usados indiscriminadamente contra todos os habitantes das nações de todo o mundo! Cada nação perecera sob o peso desses grandes ideais! E assim governava o mundo! Todos se lembravam dos falsos pretextos que os levava a intervir militarmente ou de outra forma nas diferentes nações e que agora se viravam contra a sua própria população. E não era fácil inverter a situação! Seria, pensando friamente, se não impossível quase impossível. Mas havia uma arma com a qual não contava a Nação Grande – a inteligência humana! Utilizariam esta arma contra a força brutal do aparelho governamental! Não era isso que faziam os povos das outras nações?! Sem grande sucesso, era verdade, mas não desistiam!

“Como resolver uma situação destas sem recorrer à violência?”, interrogavam-se os surpreendidos, mais sensatos, que punham um travão aos indignados apoiantes que manifestavam enraivecidamente a sua indignação. “Afinal, eram compatriotas seus e também teriam uma razão para utilizarem quando chamados a ela!”, continuavam eles.

Os ultrajados opuseram-se. Não acreditavam nos bons sentimentos! Não haviam os dirigentes estatais traído os seus apoiantes? Não falava essa atitude por eles? Que mais provas queriam os surpreendidos da sua má vontade?

“Sim, talvez”, concordaram os sensatos “mas haveria que tentar! Poupar-se-iam muitas mortes de parte a parte! Os ultrajados indignaram-se mais uma vez. Porque haveriam de ter compaixão por uns fulanos que haviam sido fabricados e que nem compaixão sentiam por nada nem ninguém? Afinal, não tinham laços de parentesco! Haviam sido criados por laboratórios científicos e criados pelo aparelho dos governantes da Nação Grande! Era contra eles que se bateriam! Eram autênticas armas aliadas as terríveis bombas destruidoras das massas humanas. Para as populações atingidas pelas terríveis armas eram precisas três gerações (ou mais!) para modificarem os efeitos naqueles que, havendo sobrevivido a elas, não tinham ficado imunes aos seus efeitos! Aqueles seres que compunham os exércitos nada tinham de humano a não ser a aparência, era claro!

A outra metade resolveu tentar, ainda assim, a conversação aberta e presencial com os dirigentes. Elegeram então um representante, ambos membros das duas diferentes facções da população da Nação Grande. Um, que era reconhecido como apoiante governamental, outro pela sua capacidade de persuasão e sensatez. Apresentaram o seu pedido e lá conseguiram que agendassem um dia e uma hora para o diálogo entre os dois lados: governantes e cidadãos. Não havia sido fácil. O primeiro argumento utilizado contra essa entrevista fora a existência de representantes eleitos por esses círculos regionais para falarem com eles e estes é que deveriam dirigir-se aos governantes manifestando-lhes as suas ideias. Aqueles haviam cedido só à possibilidade de poderem estar perante outros caminhos em que não haviam pensado. A curiosidade aliada à ganância de poderem estar na posse de um segredo com que não haviam contado, vencera.

Chegado o dia, os governantes viram-se perante duas pessoas banais (nem sequer estavam bem vestidos!) que lhes falavam de uma outra ordem. Esta era totalmente diferente daquela em que viviam e na qual já haviam vivido muitas nações grandes e pequenas e que agora lhes calhava a eles experimentar. Falavam de liberdade de escolha, de responsabilidade, de transparência, de pluralidade… onde todos sabiam exactamente o que fazer sem a presença de polícias ou de exércitos.

Os dirigentes riram-se e arranjaram mil e um argumentos para arrasarem os da “oposição”. Não havia lugar para pessoas que não pensavam como eles! O mundo lá fora não era nem nunca seria como pretendiam. Era precisa a ordem para evitar o caos! Era nisso que tinham experiência! Era isso que estavam a fazer! Deveriam estar agradecidos! Os argumentos iam e vinham sem que ninguém se ouvisse ou tentasse compreender. E para mudar era necessário entender!

Acabado o diálogo, ambas as partes se separaram descontentes. Os governantes perceberam que tinham opositores e os outros que era impossível a modificação através do diálogo. Os representantes reuniram-se com os restantes opositores para decidirem o que haveriam de fazer. “Matar os governantes?”, sugeriram os representantes dos cidadãos ultrajados. Não seria difícil encontrar alguém no meio de tantos descontentes!

“Viriam mais” opuseram os sensatos. “a escola era infinita e começava cedo nos movimentos pró-governamentais e levariam gerações a apagar-se, se é que alguma vez se apagaria. Afinal, o que se inculca em criança dificilmente desaparece mais tarde sendo sempre transmitida fielmente à geração seguinte! A não ser que a criança fosse excepcionalmente inteligente e madura para a idade para perceber o que estava certo e errado! Mesmo que a aprendizagem fosse transmitida de uma forma agradável e convicta!”, opunham os sensatos.

Os governantes, que não gostavam de oposições, viessem elas de onde viessem, resolveram colocar os dois suspeitos sob constante vigilância! Como estes começassem a espalhar “propaganda” contra o regime, sofreram inexplicáveis acidentes que limpavam qualquer possibilidade de ligação aos governantes mantendo-se dessa forma intacta a imagem dos governantes da Nação Grande. Esfregaram as mãos de contentes! Problema solucionado! Trabalho limpinho! Como atrás destes viessem outros com o mesmo objectivo, e como já ninguém acreditava nos alegados acidentes, o caso começou a tornar-se publicamente complicado! Às negociações falhadas seguiram-se as temíveis rebeliões. Notícias avançavam a hipótese de haver insurreições que alastravam às grandes províncias da Nação Grande! E estavam a ganhar adeptos!

“Perigoso! Deveras perigoso!” pensavam os senhores do poder. Enviaram os implacáveis exércitos sobre eles! A estes ninguém influenciava! Geneticamente manipulados eram dotados de uma inteligência dita superior para se deixarem influenciar por alguém! Tarde de mais também para se doutrinarem nos novos ideais! Estavam descansados! Surgiram entretanto notícias de deserções em vários exércitos que haviam aumentado significativamente o número de opositores! Outras informações diziam que muitos armazéns haviam sido assaltados e as suas armas poderosas desmanteladas! O pânico subiu nas hierarquias governamentais. Não compreendiam! Não podia ser! Um ser humano normal não teria capacidade para o fazer! Esse acto só poderia ser atribuído aos desertores do poderoso exército e da polícia secreta! Como iriam lutar contra aqueles seres que nem percebiam bem o que eram (pois nunca lhes haviam prestado qualquer atenção até ali) mas de cuja inteligência desconfiavam agora? Voltavam-se as suas armas contra eles! Se tinham compreendido as novas ideias e aderido a elas, como poderiam ter sido tratados apenas como mera mão-de-obra bélica até ali? Onde é que a ciência tinha falhado? Queriam ouvir os cientistas para tentarem perceber contra quem estavam a lutar (mais o quê) para os seus oficiais poderem escolher os meios mais eficazes. Ficaram alarmados com as suas respostas! Não sabiam como controlar “algo” que fora criado por eles?! Era como inventar um veneno sem pensar imediatamente no antídoto!

A polícia secreta fez-se anunciar mais uma vez.

“Mais novidades?”, berraram os governantes desorientados, “Esperemos que sejam boas desta vez!”

Ficaram petrificados e boquiabertos. Estavam a perder terreno! E nem baixas haviam a registar nas fileiras da oposição! Como conseguiam eles tudo aquilo sem derramamento de sangue? Olharam para os cientistas que encolheram os ombros! A mente era algo que ainda não se compreendia totalmente! Havia ainda muito por descobrir! Esta resposta enfureceu os governantes. Só isso? Era lógico que não sabiam e agora estavam a pagar cara a sua ignorância! Não sabiam que na ciência não se podia deixar nada ao acaso? Não tinham como exemplo os colegas responsáveis pela criação das terríveis bombas destrutivas que todos temiam? Resultavam na perfeição!

“Sim”, respondeu um, “mas estão a ser desmanteladas pelo inimigo!”

“Sim, imbecis, as vossas aberrações arranjaram maneira de o fazer! E não sabemos quais as suas capacidades e conhecimentos! ”

“É porque havia uma maneira…”, insistiu o cientista, “os senhores e os outros dos antigos governos não queriam uma espécie superior à raça humana, uma espécie de raça humana aperfeiçoada? Ela aí está! Conseguimos!”

“Sim queríamo-la, mas para nos servir não para nos governarem ou se oporem a nós! E deveriam ser fiéis à nossa ideologia e incorruptíveis a qualquer outra!”

Cruzavam-se impacientes na carpete da grande sala diante dos nervosos cientistas coordenadores do projecto que mais pareciam miúdos de escola apanhados em flagrante.

“Agora o que fazemos?”, interrogou um.

“Não há nada a fazer. Eles não obedecem a padrão algum. Foram feitos à nossa imagem, logo são tão imprevisíveis quanto nós. Ou melhor, havia um padrão que nós lhes inculcámos mas, conseguiram, de alguma forma, ultrapassá-lo!”

“E agora o que podemos fazer?”, insistiu um dos governantes.

“Cabe ao exército as respostas não a nós. Somos meros cientistas”, ripostou o interpelado.

“E incompetentes também!”, vociferou um dos governantes.

Pouco a pouco, a Nação Grande foi tomada pela nova e temida ordem, ou melhor, ideologia que se estendeu depois ao resto do mundo que conheceu, finalmente, a liberdade. Liberdade baseada no respeito e na responsabilidade que levava cada um a uma consciência de si e do próximo, liberta de polícias, de exércitos e de assassínios!

Os governantes nada puderam fazer a não ser renderem-se. Uma nova ordem nasceu e com ela a felicidade humana! Sempre havia uma alternativa… bastava querer!

 

 

Fátima Nascimento

30/03/2010

 

publicado por fatimanascimento às 20:58
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